Randon: queda de 17,6% na receita no ano passado.

A Randon S.A. encerrou o ano passado com queda de 17,6% na receita bruta, que alcançou R$ 5,5 bilhões. O balanço financeiro da empresa referente a 2014 foi publicado na quinta-feira, 12, e traz números menores do que os apurados um ano antes.

O lucro líquido consolidado chegou a R$ 202 milhões, queda de 14,1% com relação ao resultado de 2013, e com margem líquida de 5,3%, redução de 0,2 ponto porcentual.

Com exceção dos negócios de vagões e de materiais de fricção, houve redução de vendas em volume para todos os segmentos de negócios das Empresas Randon – formadas pela Randon Implementos, Master, Jost, Fras-Le, Suspensys, Castertech e os serviços financeiros.

Foram entregues 14,2 mil reboques e semirreboques, o principal negócio da companhia, volume 34,8% inferior a 2013. A queda no volume fez com que a Randon perdesse participação neste mercado, passando dos 28,8% em 2013 para 26,9% no ano passado. O segmento de veículos e implementos representa mais de 55% do faturamento da companhia.

As vendas de vagões cresceram 321,1% em volume, para 1 mil 356 unidades. No comunicado a Randon destaca que foi o melhor ano da história da companhia no segmento. “A manutenção de volumes estáveis na demanda desse setor abre frente a um novo ciclo de demanda. Isto valida a estratégia da Randon em ampliar a presença neste negócio”.

No primeiro semestre do ano que vem a Randon deverá inaugurar sua fábrica de vagões em Araraquara, SP, cidade próxima dos principais operadores ferroviários do País, o que, segundo a empresa, “abre oportunidades de ampliação da produção nos próximos anos, com ênfase na eficiência logística e nos processos de produção”.

A controlada Fras-Le, fabricante de pastilhas de freio, apresentou incremento de 6,6% na receita líquida e de 5,1% em volume produzido. Segundo a companhia, o cenário positivo de câmbio e o movimento de compras no mercado de reposição contribuíram para esse resultado.

Para 2015 a companhia projeta enormes desafios. “Medidas recessivas, como alta dos juros, elevação da carga tributária e condições de financiamentos menos atrativas são intempéries presentes no ambiente”, afirmou em comunicado. “Contudo o foco destes ajustes são o restabelecimento da confiança e a preparação de um novo ciclo de expansão econômica já com início no segundo semestre de 2015”.

Honda terá produção 8% maior em 2015

A Honda irá aumentar seu volume de produção em 7,7% neste ano. Segundo Sérgio Bessa, diretor comercial da montadora, para que 140 mil veículos deixem as linhas de montagem da fábrica de Sumaré, SP, a unidade irá trabalhar próxima de 17% além de sua capacidade nominal.

O limite teórico da fábrica do Interior paulista, que emprega 3,5 mil funcionários, é de 120 mil veículos por ano. A Honda negociou horas extras com o sindicato local e os dois turnos de produção terão de dar conta de ampliar o volume de veículos.

“Tudo será feito dentro dos limites das leis trabalhistas. Negociamos com o sindicato e achamos que as horas extras eram a melhor solução.”

Segundo Bessa, o excedente produtivo programado para este ano na unidade de Sumaré não justifica a abertura de um terceiro turno. “Se optássemos por essa solução os funcionários poderiam ficar ociosos. Precisamos de um volume um pouco maior, mas temporariamente, o que não justifica a contratação de mais pessoal.”

Em 2014 a unidade já trabalhou além de sua capacidade e respondeu por 130 mil unidades. Neste ano o volume ainda maior deve-se ao recém-lançado HR-V, que demandará 43 mil unidades de Sumaré, ou pouco mais de um terço da capacidade produtiva local.

“Para iniciar a produção do novo SUV reduzimos os volumes de City e Civic em Sumaré. Além disso ainda vamos trazer mais sete mil unidades do HR-V da Argentina, para garantirmos que não faltarão veículos em oferta no Brasil.”

Ainda este ano a Honda inaugura a fábrica de Itirapina, SP, o que aliviará sua restrição de capacidade, levando-a ao dobro da atual. A unidade começará a produzir, em fase de testes, no mês de novembro. “Em dezembro a produção já começa para valer e vamos destinar o Fit para a unidade. Desta forma a planta de Sumaré ficará com mais espaço disponível.”

Atualmente Sumaré produz os modelos Fit, City, Civic e o recém-lançado HR-V, que começa ser comercializado ainda neste mês. Em um primeiro momento a nova fábrica será responsável apenas pelo Fit, mas Bessa não descarta que ela receba outros modelos.

“As duas unidades são flexíveis e podem produzir todos os modelos. Portanto, caso haja necessidade, poderemos levar outros produtos para lá”.

Em Itirapina a capacidade anual também será de 120 mil veículos, porém a unidade empregará menos funcionários: dois mil. Segundo Bessa isso se justifica porque a unidade é mais automatizada. “Já iniciamos as contratações e vamos começar em breve a fase de treinamento.”

O diretor afirma que a fábrica de Itirapina já começou a receber os equipamentos. “As obras estão bem adiantadas. Parte do maquinário vindo do Japão já chegou e também há equipamentos nacionais sendo instalados.”

Gandini: quem tem dinheiro guarda, quem não tem foge de financiamento.

Descendente direto de um empresário bem sucedido do ramo da distribuição de veículos, José Luiz Gandini conhece os sintomas do mercado brasileiro como poucos – fruto de sua observação diária, na condição de presidente do Grupo que leva seu sobrenome, que possui concessionárias de automóveis, comerciais leves e motocicletas, e da própria experiência no ramo, que remonta à sua juventude.

Em entrevista exclusiva concedida à Agência AutoData, por e-mail, o empresário, também ex-presidente da Abeiva e fanático palmeirense, dá sua visão para explicar o atual momento das vendas no mercado interno: pura falta de confiança do consumidor. “Quem tem dinheiro prefere guardar e que não tem está fugindo de um financiamento”, argumenta. Confira.

A que o senhor atribui os resultados fracos de venda do primeiro bimestre? A volta da recomposição total do IPI, causando aumento de preços no varejo, pode ser considerada como o principal fator?

Entendo que há uma crise de confiança por parte dos consumidores brasileiros, antes do fator recomposição total do IPI. Os consumidores estão receosos em investir. Quem tem dinheiro quer guardar e quem precisa financiar está receoso em assumir quaisquer dívidas, principalmente com planos de médio ou de longo prazo.

Especificamente sobre a Kia, números da Fenabrave indicam 3,1 mil unidades vendidas no primeiro bimestre de 2015, em queda de 25% no comparativo anual. Ainda que na mesma faixa de retração do mercado geral, o índice é mais significativo para uma empresa de menor volume, como é o caso. De que forma esta retração está sendo administrada no dia-a-dia? Houve mudanças nos planos de negócios?

Em 2014 a Kia Motors do Brasil comercializou no varejo 23 mil 793 unidades. Se analisarmos friamente os números, fomos muito bem. Não se esqueça que a nossa cota [de importação sem IPI majorado em 30 pontos porcentuais, de acordo com as regras do Inovar-Auto] é de 4,8 mil carros ao ano. Assim, estamos pagando os trinta pontos adicionais da diferença, coisa que nenhuma outra marca está fazendo em grandes volumes, como é o nosso caso.

As atuais estimativas de venda da Kia Motors no País para este ano estão mantidas perante aquelas calculadas no fim de 2014? Quais seriam os números?

Nossa projeção para este ano é semelhante ao resultado obtido no ano passado, em 25 mil unidades. Apesar da crise de confiança e da instabilidade política, esperamos que todos os ajustes fiscais sejam colocados em prática o mais rápido possível, de modo que, no segundo semestre, a economia retome índices mais promissores. Confirmo que nosso objetivo inicial é chegar às 25 mil unidades este ano, mas este número será totalmente repensado se o câmbio se fixar nas atuais bases, em taxa próxima a R$ 3,10 como agora. Para tanto, contamos com o apoio da Kia Motors Corporation.

Diante do atual quadro qual será a estratégia de varejo e publicidade da Kia daqui por diante? O sr. iniciou campanha em jornais na semana passada ofertando bônus de R$ 10 mil para o Sorento. Iniciativas como esta serão reforçadas? E o apoio comercial às novelas de grande audiência, será mantido?

O bônus de R$ 10 mil já faz parte de uma ação para incrementar nossas vendas, neste momento crucial da economia brasileira. Vamos tentar manter as ações de merchandising, mas agora dentro de novas realidades, reforçando ações na internet.

Com relação ao tamanho da rede Kia este é considerado bom para o atual momento do mercado ou serão necessários ajustes?

Hoje a rede está formada por 132 pontos, o que representa uma proporção adequada para este momento.

Sobre a Geely, montadora que o sr. também representa no País e da qual assumiu a presidência, os planos estão mantidos? No último salão do automóvel a marca revelou projeção de vender 5 mil unidades no Brasil em 2015. Este número ainda se mantém?

Sim.

As operações da fábrica da Kia no Uruguai, onde é produzido o caminhão leve Bongo, estão mantidas normalmente?

Felizmente tudo está correndo muito bem.

Até segmento de luxo reclama da instabilidade cambial

O segmento de luxo, que antes destoava do mercado geral, fechou o primeiro bimestre em retração nas vendas no País. Os modelos Audi, BMW, Jaguar Land Rover e Mercedes-Benz, as quatro fabricantes que investem em fábricas no País, registraram licenciamentos 6,2% inferiores na soma de janeiro e fevereiro na comparação com o mesmo período do ano passado, segundo dados da Abeifa e da Anfavea.

Segundo Renato Fabrini, gerente sênior de vendas da BMW do Brasil, a instabilidade do dólar refletiu no desempenho do segmento. “As vendas dos dois primeiros meses estão abaixo de nossas previsões.”

Embora a montadora use o euro como base de cálculo para precificação de seus produtos – e esta moeda esteja mais estável em comparação ao dólar –, o executivo afirmou que acompanha de perto as tendências na economia. “De qualquer maneira, em longo prazo ainda vislumbramos perspectivas de negócio positivas no segmento de automóveis premium no Brasil.”

A BMW iniciou sua produção local em Araquari, SC, há pouco mais de cinco meses. A unidade produz por enquanto apenas dois modelos, o Série 3 e X1. Fabrini argumenta que o volume de importações ainda é alto, tanto de componentes para a produção quanto de modelos que compõem a gama.

Ainda assim o executivo assegura que “não está prevista mudança nos preços praticados atualmente”. O portfólio vendido no Brasil é importado de Alemanha, Estados Unidos e Inglaterra, no caso dos veículos da marca Mini.

Fabrini ressalta que a produção de Araquari contempla apenas o mercado interno, inicialmente. “Em uma segunda fase a exportação para o Mercosul poderá ser considerada, após avaliarmos todos os requisitos necessários para tal. E, em um terceiro momento, dependendo da nossa capacidade competitiva, poderemos cogitar outros mercados.”

Ruben Barbosa, diretor de operações da Jaguar Land Rover no Brasil, espera que o câmbio fique mais estável até o fim do ano. A montadora iniciará sua produção local em 2016, na cidade de Itatiaia, RJ. “Torcemos para que a taxa esteja oscilando menos quando inauguramos a fábrica.”

Apesar dos veículos comercializados pela marca no Brasil serem importados do Reino Unido e balizados em libra, Barbosa recorda a relevância da cotação do dólar dentro do planejamento da companhia. “O cenário é observado como um todo. Cada parte importa na elaboração de nossa estratégia.”

Ao menos neste momento a JLR, assim como a BMW, não pretende elevar o preço da gama comercializada no Brasil.
Barbosa destaca ainda que os planos da companhia vislumbram o longo prazo e que a montadora acredita no potencial de crescimento do segmento de luxo no País. “A indústria premium representa apenas 1,6% do mercado brasileiro atualmente. Em mercados como Estados Unidos e Rússia esse porcentual chega a 6% e 10%, respectivamente. Ainda há muito espaço para crescermos.”

A Audi afirmou, por meio de porta-voz, que está atenta aos movimentos do mercado. A empresa acredita que a volatilidade das taxas de câmbio traz tanto oportunidades quanto riscos para as atividades de fornecimento e para as vendas. Por isso, a companhia aplica uma política de hedging natural, para ajudar a reduzir o risco.

“Outro ponto é que iniciaremos a produção local do A3 Sedan no segundo semestre de 2015 e, com maior conteúdo local, reduziremos ainda mais o risco cambial para o nosso negócio. Mas é importante destacar que os riscos cambiais relativos aos fornecimentos e vendas não podem ser completamente eliminados devido às variações naturais dos fluxos cambiais. Apesar das flutuações estamos confiantes no Brasil e em nosso investimento aqui, de longo prazo.”

Para montadoras, impacto do dólar é negativo

Embora o presidente da Anfavea, Luiz Moan, considere positiva a superação da barreira dos R$ 3 pelo dólar, a desvalorização do real ainda não foi bem digerida pelas montadoras. Nenhuma das empresas que retornaram às solicitações de entrevista da Agência AutoData observou aspectos positivos na recente escalada da moeda estadunidense – ao contrário: Chery, Fiat, Honda, Mercedes-Benz e PSA Peugeot Citroën entendem que a situação desfavorece a indústria e a própria economia.

A Chery tornou-se oficialmente uma montadora brasileira no mês passado. A companhia chinesa começou a produzir o Celer em sua fábrica de Jacareí, SP, ainda com alto índice de componentes trazidos do Exterior. Por isso a disparada do dólar preocupa seu diretor financeiro, Rubens Andrade, “principalmente nesta fase inicial de produção, em que boa parte dos nossos insumos, além de alguns modelos, como o Tiggo e o QQ, ainda são importados. Trazemos material do Exterior e ainda não estamos exportando carros, portanto não há benefícios para nós”.

Jean-Marc Lucenet, diretor financeiro do Grupo PSA Peugeot Citroën no Brasil, também enxerga a situação de forma desfavorável. “Gera impacto significativo em alguns componentes importados que utilizamos em nossa produção e também afeta, é claro, alguns modelos que trazemos do Exterior e compõem nossa gama local.”

Segundo o executivo não há benefícios para as exportações da companhia, vez que o principal destino, Argentina, também sofreu forte desvalorização na moeda local, o peso. “Por isso a desvalorização do real não aumentou a rentabilidade das nossas exportações.”

Para a Fiat o grau de repasse da desvalorização cambial afeta a economia como um todo e a empresa, pois parcela da matéria-prima e componentes são importados ou contam com parte dos insumos adquiridos do mercado externo. Segundo porta-voz da fabricante o efeito na operação local da montadora é em parte minimizado porque sua produção de Betim, MG, conta com elevado índice de nacionalização.

A companhia, porém, vê efeito favorável no caso das exportações. “Elas se tornam mais competitivas. De toda forma a Fiat frequentemente promove planos de eficiência internos e externos, junto à sua cadeia de fornecedores, para buscar a manutenção da competitividade.”

A Mercedes-Benz, por meio de porta-voz, afirmou ainda não conseguir dimensionar os efeitos da alta do dólar nas vendas ao mercado externo: “Não podemos afirmar que trará impacto positivo na rentabilidade. Dependerá do desenvolvimento e das estratégias comerciais para cada mercado em que atuamos”.

Os caminhões e chassis de ônibus M-B atualmente são exportados para países da América Latina, África e Oceania.

Por sua vez a Honda, em nota, afirmou que está avaliando a questão cambial e seus possíveis impactos nos negócios. A montadora considerou que “as operações da indústria são planejadas a partir de compromisso de longo prazo com toda a cadeia produtiva. Assim, para que sejam tomadas decisões a respeito de importação e exportação é necessário haver estabilidade e previsibilidade da taxa de câmbio”.

REAJUSTES – A General Motors não respondeu ao pedido da reportagem da Agência AutoData, mas recentemente a montadora divulgou reedição de campanha promocional que prevê desconto de funcionário para os consumidores que comprarem veículos da marca e, na ocasião, Samuel Russell, diretor de marketing da Chevrolet, afirmou em comunicado que os repasses de preços são iminentes: “Com a escalada dos custos de produção dos veículos, repasses futuros serão praticamente inevitáveis”.

Andrade, da Chery, também considera inevitável alteração na tabela de preços de seus veículos em função da alta do dólar, sejam importados ou nacionais. “Os produzidos aqui também serão impactados em decorrência dos insumos, mas em menor escala. Porém há tendência de melhora deste quadro à medida que aumentarmos a lista de fornecedores locais e ao mesmo tempo reduzimos a importação de veículos, substituindo-os por modelos nacionais.”

A Fiat e a PSA Peugeot Citroën afirmaram que a taxa do dólar é um dos fatores a determinar o preço final de seus produtos, mas não o único.

Lucenet, da PSA, entende que taxa do dólar mais próxima dos R$ 2 do que dos R$ 3 seria melhor para a companhia. Andrade, da Chery, acredita que a estabilidade da moeda, independentemente do patamar, é o mais importante. “A variação dentro de uma faixa estreita nos permitiria planejar melhor, com condições de flexibilidade.”

Montadoras buscam ajuste à nova taxa do dólar

A taxa do dólar alcançou, superou e, ao menos nos últimos dias, se estabilizou acima dos R$ 3. Devido o seu recente histórico, é arriscado dizer que a cotação da moeda estadunidense alcançou um novo patamar definitivo e que a indústria precisa se adaptar à nova realidade: em 26 de janeiro sua cotação estava em R$ 2,57. Na quarta-feira, 11, menos de 45 dias depois, fechou em R$ 3,12.

A superação da faixa dos R$ 3, porém, acendeu o sinal de alerta nas montadoras e, principalmente, nas importadoras. Muitas peças e componentes, mesmo naquelas indústrias presentes há mais tempo no mercado brasileiro, ainda são importados e a desvalorização do real gera impacto direto nos custos de produção dos veículos.

No caso das importadoras, lotes de veículos encomendados por um valor há um mês serão faturados a preços superiores, pois a valorização da moeda estadunidense ocorreu em poucas semanas – e, da efetivação do pedido até a produção e faturamento, certo tempo é decorrido.

Marcel Visconde, presidente da Abeifa, argumenta que ainda existem modelos em estoque comprados com o dólar mais baixo, mas considerou inevitável o repasse dos preços nos próximos lotes importados. “Haverá repasse, mas com muita cautela. O mercado não está favorável e é melhor vender os carros com margem menor do que ficar com eles parados no estoque.”

Por outro lado a apreciação do dólar abre mais oportunidades para o produto brasileiro no mercado externo. Luiz Moan, presidente da Anfavea, considera positiva a nova cotação da moeda: “Ainda bem [que o dólar chegou a R$ 3,10]”, afirmou o executivo na última coletiva à imprensa, realizada na quinta-feira, 5, em São Paulo. “O dólar neste patamar fortalece o setor de autopeças nacional.”

ATÉ ONDE VAI? – A escalada de 20% do dólar em apenas seis semanas prejudica muito mais o planejamento das empresas, sejam montadoras ou importadoras, do que a estabilidade da moeda em qualquer patamar. Visconde, da Abeifa, reclama da volatilidade.

“O problema não é o valor, mas a flutuação. Essa indefinição atrapalha a importação e a exportação. Os contratos são negociados em longo prazo e uma empresa pode dificultar o fechamento do acordo na esperança de que a moeda suba ou desça, dependendo de seu interesse, nos dias seguintes.”

A Agência AutoData procurou, além das associações de marca, fabricantes e importadores de veículos. Oito responderam às solicitações, gerando essa reportagem especial. A maior parte concordou com Visconde: a volatilidade é o pior inimigo do planejamento das empresas.

Na segunda-feira, 9, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Armando Monteiro, afirmou à Agência Brasil que as oscilações diárias da moeda resultam do atual momento político do Brasil e que a volatilidade passará, estabilizando o câmbio em um patamar que considera mais conveniente para o País.

“Teremos um câmbio que dará ao Brasil outra condição com relação à competitividade de suas exportações. Reconheço que esse movimento dos últimos dias é algo que decorre muito mais de uma reação do mercado ao momento político. Mas logo me parece que ele vá se estabilizar em um nível que dê competitividade às exportações brasileiras.”

Segundo ele a tendência estrutural é de um real depreciado – em um ano a moeda perdeu mais de 40% do seu valor. “Há condições que estruturalmente estão conduzindo à valorização do dólar. A economia estadunidense se fortaleceu e há expectativa de elevação da taxa de juros naquele mercado. Isso vai concorrer para maior afluxo de recursos para os Estados Unidos e, com isso, várias moedas, inclusive o real, estão flutuando no sentido da desvalorização.”

O ministro garantiu que a balança comercial brasileira será beneficiada, bem como a indústria nacional, vez que o dólar elevado naturalmente promove o encarecimento dos produtos importados.

Renault anuncia investimento de US$ 100 milhões na Argentina

A presidente da Argentina, Cristina Kirchner, recebeu no início da noite da terça-feira, 10, em seu gabinete na residência presidencial de Olivos, o presidente da Renault local, Thierry Koskas, que anunciou investimento de US$ 100 milhões na fábrica de Santa Isabel, em Córdoba – coincidindo com aniversário de 60 anos da unidade.

Com o aporte a unidade passará a produzir modelos da plataforma de compactos Dacia: Logan e Sandero, incluindo, para o hatch, a variante Stepway. Atualmente estes modelos são vendidos na Argentina importados do Brasil, que também abastece o vizinho com Duster e Master.

Atualmente Santa Isabel é responsável pela fabricação de Clio, Fluence e Kangoo.

De acordo com comunicado da unidade argentina da montadora, a produção dos novos modelos ali está marcada para meados de 2016. A fabricante divide o investimento, que equivale a 875 milhões de pesos, em cinco etapas, a serem realizadas nos próximos 18 meses. A primeira é o desenvolvimento de fornecedores, com 175 milhões de pesos, incluindo ferramentais para produção de armação de portas, capô e porta-malas, “processo atualmente a cargo de fornecedor estrangeiro”. Bancos, parachoques, tapetes, escapamentos, tubos de freio e outras peças também serão localizados.

A segunda é adaptação e modernização de equipamentos da fábrica, com 263 milhões de pesos, a terceira pesquisa, desenvolvimento e engenharia, com 192 milhões de pesos, a quarta é treinamento e formação de trabalhadores – não há menção a contratações –, $ 26 milhões, e a quinta atualização da área de pintura, que receberá novos robôs e processos automatizados para aplicação de selantes e tintas, com $ 219 milhões.

“A chegada desta nova plataforma à unidade permitirá a incorporação de novos modelos ao plano produtivo da Renault na Argentina em médio e longo prazo”, afirma o comunicado.

Segundo o governo argentino o plano da Renault é alcançar, em 2017, produção conjunta de 50 mil unidades de Logan e Sandero na fábrica. Santa Isabel possui atualmente 1,8 mil funcionários e trabalha em dois turnos. Desde sua inauguração, em março de 1955, quase três milhões de unidades de 23 modelos saíram de sua linha de montagem.

O mercado argentino respondeu por cerca de 95% das exportações da Renault do Brasil em 2014, de 34,4 mil unidades segundo dados da Anfavea, em queda de aproximadamente 45% ante 2013, 63,3 mil. No ano pasado o mercado externo respondeu por cerca de 16% da produção total da montadora no País, índice que um ano antes fora próximo de 22%.

Mini prevê salto em vendas no Brasil a partir de 2016

Após crescer 26,5% em 2014, atingindo venda de 2,5 mil unidades, a Mini prevê estabilidade para este ano, mesmo com o lançamento da versão cinco portas, apresentada na quarta-feira, 11, em Bragança Paulista, SP. De acordo com o diretor-geral da Mini no Brasil, Julian Megri, um crescimento mais expressivo da marca deve se dar a partir do início de produção do modelo Countryman, em Araquari, SC, previsto para o terceiro trimestre deste ano.

A estabilidade das vendas da marca prevista para 2015 não guarda relação direta com comportamento do mercado brasileiro que, no geral, apresenta queda. A empresa também enfrenta limitação no volume que trará da Inglaterra, visto que a demanda lá fora pelo modelo cinco portas, principalmente, está elevada.

De qualquer forma a previsão é a de que a nova versão, que começa a ser vendida esta semana com preços de R$ 106 mil a R$ 140 mil, responda por 25% do total de Mini vendido por aqui. O modelo de maior demanda é o hatch três portas, que deverá responder por 43% das vendas este ano, e o próprio Countryman, que no ano passado teve participação de 22% e deve chegar a 30% justamente em função de sua produção local a partir do segundo semestre.

De acordo com Megri a rede de concessionárias Mini iniciou o ano com trinta pontos de venda e encerrará com 34: “Estamos presentes em todos as principais Capitais e em algumas grandes cidades do Interior. Nossa prioridade agora é estreitar o relacionamento rede-consumidor e investir na qualidade do atendimento”.

A rede Mini conta com algumas lojas exclusivas e outras compartilhadas com a BMW, da qual faz parte do Grupo. Os showrooms estão no mesmo espaço, lado a lado, mas com identidades distintas. A Mini é caracterizada pela cor preta e a marca alemã pela branca.

Argentino, Megri assumiu a direção geral da Mini no Brasil em janeiro. Ao analisar o atual momento do mercado local, em baixa desde o ano passado e com agravo da retração registrada no mesmo período de sua chegada ao País, disse já estar acostumado com este tipo de cenário: “Afinal, vim da Argentina. Todos sabem como o mercado está por lá”.

Em função da situação atual do mercado brasileiro o executivo preferiu não fazer projeções de venda para 2016. Mas deixou claro que a Mini quer dar um salto a partir da produção local do Countryman na fábrica catarinense – já são fabricados lá o Série 3 e o X1 e ainda este mês será iniciada a produção do Série 1, seguido do X3, deixando o Mini como último da lista.

O modelo cinco portas oferece mais espaço e conforto interno do que o hatch três portas, e com isto a empresa quer conquistar um público diferente, já com família. No comprimento é 161 mm maior do que a versão três portas, sendo ainda 11 mm mais alto e com entreeixos alargado em 72 mm. Seu porta-malas comporta 67 litros.

Metalúrgicos protestam na Bosch em Curitiba

Metalúrgicos da unidade da Bosch em Curitiba, PR, realizaram na tarde da quarta-feira, 11, protesto em frente à fábrica. De acordo com o SMC, Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba, em comunicado, a manifestação ocorreu contra “o assédio moral, as demissões arbitrárias e os ataques sistemáticos contra a liberdade de organização dos trabalhadores”.

O SMC alega que um metalúrgico foi demitido no início do mês por suas atividades como delegado sindical, cargo para o qual foi eleito em maio de 2014.

Procurada, a Bosch declarou, também em nota, que “apesar da retração do mercado nacional [a empresa] tem conseguido equilibrar parte da ocupação de sua unidade de negócios em Curitiba por meio dos mercados de exportação e de reposição. E, por isso, a variação no seu quadro de colaboradores está dentro dos níveis normais e de acordo para atender às demandas de seus clientes. A empresa repudia e não compactua com qualquer forma de perseguição a seus colaboradores. A Bosch esclarece ainda que preza pela saúde e bem estar de seus colaboradores em seus ambientes de trabalho”.

No ABCD – Outras mobilizações sindicais ocorreram no ABCD paulista nos últimos dias. Na Affi¬nia, Dana e Melling, em Diadema, houve paralisação por duas horas na manhã da quinta-feira, dia 5, em protesto contra a demissão de duas metalúrgicas na Melling. No mesmo dia, trabalhadores na Dura Automotive, em Rio Grande da Serra, aprovaram em assembleia acordo para teto do banco de horas, que não poderá ultrapassar 120. E nessa semana acontecem eleições para representantes da Cipa na Arteb e na Kostal, em São Bernardo do Campo.

Na terça-feira, 11, o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC divulgou comunicado elogiando o novo acordo automotivo do Brasil com o México, assinado na segunda-feira, 9, e que manteve o sistema de cotas no comércio bilateral por mais quatro anos. “O México tem uma legisla¬ção própria com condições especiais para produzir car¬ros apenas para exportação. Com isso, há uma desvantagem enorme para qualquer país da América La¬tina e até mesmo da América do Norte. O México é a China das Américas”, afirmou na nota o presidente do sindicato, Rafael Marques. “Sempre defendemos a manuten-ção das cotas.”

Os metalúrgicos também consideraram positiva a regra de conteúdo regional de autopeças, prevista no novo acordo: “As peças mexicanas serão rastreadas e isso impede que o veículo seja montado no México com peças produzidas na China”.

Abeifa: queda além do mercado no primeiro bimestre.

Sem aspectos positivos no curto prazo.

É desta maneira a Abeifa encara a situação do segmento de veículos importados, que no primeiro bimestre apresentou retração de 27,1% com relação ao mesmo período do ano passado, e portanto além da queda de 22,5% das vendas de automóveis e comerciais leves do mercado geral.

De acordo com dados revelados pela associação na terça-feira, 10, foram licenciados por suas filiadas 13,2 mil veículos em janeiro e fevereiro, ante 18,2 mil há um ano.

A participação das vendas das 28 marcas da associação no mercado total caiu de 3,3% para 3,1% no período. “Ano passado tínhamos um problema crônico, que agora se tornou agudo. Não existem mais razões isoladas que expliquem a queda nas vendas, é uma soma de fatores e não há qualquer sinalização positiva no curto prazo”, afirmou Marcel Visconde, presidente da Abeifa. “A crise esta aí e precisamos encará-la da melhor forma.”

O cenário deverá se agravar nos próximos meses, vez que o efeito da valorização cambial – Visconde calcula que o dólar subiu 20% nas últimas seis semanas – ainda não atingiu as importadoras, que estão vendendo os estoques adquiridos com a moeda ainda em patamares mais baixos e não repassaram o aumento aos seus produtos.

“A tendência do dólar é de alta. Antes havia volatilidade, mas agora entrou um pouco de especulação e a moeda apreciou. Acredito que o valor real seja um pouco mais baixo, porém não há qualquer indicação de recuo.”

Como o mercado está em baixa, não há muito espaço para que as importadoras reajustem o preço de seus veículos sem que percam mais vendas. Por isso, segundo Visconde, o cenário é de enxugamento do setor. “A conjuntura atual não permite a manutenção do tamanho da rede. Demissões e redução de estrutura não estão longe do radar e o desenho converge para isso, embora sejam decisões internas de cada associada.”

A Abeifa estima queda de 10% nas vendas por suas filiadas neste ano, para 84,3 mil unidades. O índice é o mesmo adotado desde o início deste mês pela Fenabrave para o mercado geral. “É a perda mínima, pois acredito que a queda seja ainda maior”.

Visconde revelou que a Abeifa se reunirá no começo de abril, e pela primeira vez, com Armando Monteiro, ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Não há uma pauta definida, segundo o dirigente, mas a associação pretende solicitar o aumento das cotas de importação sem IPI majorado do Inovar-Auto.

“O sistema é arcaico”, disparou Sérgio Habib, vice-presidente da Abeifa e presidente do Grupo SHC, dono de concessionárias Jac Motors, Aston Martin, Jaguar Land Rover, Citroën e Volkswagen. “Aconteceu com o dólar a R$ 1,60 [o incremento de 30 pontos porcentuais no IPI] e a taxa agora chegou à casa dos R$ 3. Atualmente é desnecessário [o aumento no imposto]”.

Visconde e Habib acreditam que, mais do que os indicadores econômicos negativos ou restrição de crédito, “a baixa autoestima do consumidor” é o fator que mais prejudica o mercado brasileiro de veículos. O presidente da Abeifa entende que o consumidor está mal humorado: “O índice de confiança do consumidor está no nível mais baixo desde 2001”.

Os dirigentes defendem que as medidas do governo para reajustar a economia precisam ser tomadas de uma só vez. “Se houver algo negativo a ser feito, que seja feito de uma só vez, e não de forma pontual, mensalmente. A inércia política só piora a situação e precisamos fazer o plano do [Ministro da Fazenda, Joaquim] Levy decolar.”