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ZF pede proteção à indústria nacional e condições equilibradas para competir com a China

Para Carlos Delich, presidente da ZF para a América do Sul, o Brasil precisa combinar medidas governamentais para equilibrar a concorrência com investimentos em produtividade, tecnologia e engenharia local
Carlos Delich, presidente da ZF
Fotos: ZF

São Paulo — A expansão dos fabricantes chineses no mercado automotivo mundial aumenta a pressão sobre a indústria brasileira e seus fornecedores. Para Carlos Delich, presidente da ZF para a América do Sul, o Brasil precisa fortalecer a engenharia nacional, ampliar a participação de fornecedores locais e criar condições mais equilibradas de concorrência com os produtos importados.

Na avaliação do executivo, a capacidade produtiva chinesa, estimada por ele de 35 milhões a 40 milhões de veículos por ano, representa um desafio para fabricantes de diferentes mercados. Além disso, a redução da demanda interna amplia a disponibilidade de veículos para exportação. Como resultado, intensifica a disputa por participação em outros países.

“A China tem uma capacidade de produção de mais de 35 milhões. É um risco para todo mundo, não há nenhuma dúvida”.

Diante desse cenário o executivo pede atuação conjunta entre governo e indústria. De um lado, as autoridades precisam avaliar medidas que reduzam as diferenças de competitividade entre os países. De outro, as empresas devem investir para aumentar a produtividade e desenvolver tecnologias capazes de sustentar a concorrência no longo prazo.

“Nós não podemos nos dedicar a esperar que o governo tome as medidas necessárias. Mas também não podemos esperar que o governo proteja a indústria para termos resultados positivos. Isso não vai funcionar, porque, em algum momento, teremos uma concorrência mais equilibrada e, se não estivermos preparados, vamos perder”.

Condições de concorrência e fornecedores locais

Segundo Delich a discussão sobre a competitividade brasileira passa pelos custos de produção, especialmente energia elétrica e insumos industriais. O executivo argumenta que diferenças estruturais entre os mercados podem colocar os fabricantes locais em desvantagem diante de concorrentes que contam com condições mais favoráveis em seus países de origem.

Como exemplo, ele cita o custo da eletricidade na Alemanha, que, segundo sua estimativa, supera em 80% o praticado na China. Nos Estados Unidos, a diferença seria de aproximadamente 20%. Esses fatores, na visão do presidente da ZF, reforçam a necessidade de políticas que considerem as condições efetivas de produção e não apenas as tarifas de importação.

“Nós queremos competir em condições equivalentes com os chineses. Para isso, precisamos de medidas muito claras do governo”.

Nesse contexto, o executivo considera que instrumentos como tarifas e cotas podem integrar a discussão sobre a defesa da indústria nacional, desde que contribuam para equilibrar a concorrência. O objetivo, segundo ele, não deve ser impedir a entrada de novos fabricantes, mas evitar que diferenças de custos e eventuais subsídios comprometam a competitividade das empresas instaladas no Brasil.

A localização da produção também terá papel decisivo nesse processo. Para o executivo, a chegada de fabricantes chineses ao País pode abrir oportunidades para os fornecedores locais, desde que os novos projetos incorporem componentes e materiais produzidos no mercado brasileiro.

“Estamos totalmente convencidos de que, se os produtos chineses forem fabricados no Brasil com fornecedores locais de aço e de outros materiais, não teremos problemas para competir com eles e manter os bons resultados que temos”.

Ganho de mercado chinês limita avanço dos fornecedores

O avanço dos veículos chineses já influencia o potencial de crescimento dos fornecedores instalados no Brasil. Delich cita um exemplo para ilustrar esse efeito sobre a cadeia automotiva: em um mercado que registra expansão total de 15%, a participação dos fabricantes chineses pode reduzir a parcela do crescimento que chega aos demais participantes.

“Se o mercado cresce 15% e os chineses ganham 10 pontos porcentuais desse crescimento, nós ficamos com 5%”.

Portanto, a entrada de novos fabricantes não representa necessariamente um problema permanente para os fornecedores locais. O impacto depende, em grande medida, da origem dos componentes utilizados nos veículos comercializados no País.

Quando os fabricantes chineses ampliarem a produção local e passarem a comprar de fornecedores brasileiros, a cadeia instalada no País poderá capturar uma parcela maior do crescimento. Até lá, o aumento das vendas de veículos importados pode limitar os ganhos de empresas que já atendem às montadoras tradicionais.

Engenharia local sustenta competitividade

Ao mesmo tempo que defende medidas para equilibrar a concorrência, Delich ressalta que a indústria precisa fazer sua parte. Na ZF, os investimentos em pesquisa e desenvolvimento representam atualmente cerca de 7,5% do faturamento global, segundo o executivo. Em períodos anteriores, o índice chegou a 8%.

No Brasil a participação corresponde a aproximadamente 3% do faturamento local. A diferença, explicou Delich, reflete o perfil das atividades desenvolvidas no País. Enquanto a companhia concentra na Europa parte importante do desenvolvimento global de produtos, a operação brasileira trabalha principalmente com engenharia de aplicação e projetos específicos para as necessidades regionais.

Um exemplo é o desenvolvimento da transmissão de nove marchas a partir da engenharia brasileira, iniciativa que demonstra a capacidade local de desenvolver soluções para aplicações específicas e atender às demandas do mercado.

Além disso, a companhia mantém investimentos em sua estrutura industrial. Delich cita a fundição da ZF como um dos exemplos de instalações que receberam aportes relevantes para ampliar a capacidade produtiva e manter a competitividade internacional.

A combinação entre desenvolvimento tecnológico, eficiência industrial e fornecedores locais, portanto, integra a visão do executivo para preservar a capacidade competitiva da indústria brasileira. Para ele, proteger a produção nacional não significa dispensar ganhos internos de eficiência, mas criar condições para que as empresas disputem o mercado em bases mais equilibradas.

Juros altos limitam recuperação dos caminhões

Além da concorrência internacional, o custo do crédito preocupa a ZF no mercado brasileiro de veículos comerciais. Delich avalia que a manutenção dos juros em patamares elevados tende a limitar a recuperação das vendas de caminhões, uma vez que as condições de financiamento influenciam diretamente a decisão de compra dos transportadores e frotistas.

Segundo o executivo a companhia já observa dificuldades relacionadas ao ambiente de juros e considera incerta a possibilidade de uma redução suficientemente rápida para estimular os investimentos em 2027. “Se mantivermos os juros altos neste ano e no próximo, não teremos uma recuperação das vendas de caminhões. O mercado vai andar de lado”.

Por outro lado, uma eventual redução dos juros poderá estimular a renovação de frota e liberar parte da demanda represada. Entretanto, Delich pondera que uma retomada concentrada em um período curto também exigiria atenção da cadeia produtiva para responder ao aumento dos pedidos.

O executivo também destaca a importância da estabilidade econômica para as decisões industriais. Variações cambiais afetam os custos de componentes importados e podem alterar a viabilidade de projetos de localização de produtos. Por isso, a previsibilidade das condições econômicas é um fator relevante para o planejamento de investimentos.

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