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Sindicato teme que fábrica prometida pela BYD em Camaçari não passe de centro de distribuição

Metalúrgicos de Camaçari desconfiam que volume de empregos prometido inicialmente não se concretize diante das postergações do cronograma, aumento da importação e pedido de redução de impostos

São Paulo – Diante dos frequentes atrasos no cronograma da BYD em Camaçari, BA, que prometeu começar a montar seus carros após o Carnaval e postergou, inicialmente, para junho, o Sindicato dos Metalúrgicos local começou a se movimentar. Seu dirigente Júlio Bonfim afirmou temer que, dos 20 mil postos de trabalho prometidos pela companhia, apenas 5%, ou seja, 1 mil vagas, sejam criados. Em audiência na Câmara de Vereadores na segunda-feira, 5, ele levantou a questão: a unidade da BYD em Camaçari de fato fabricará veículos ou o local se tornará centro de distribuição com veículos semi-montados vindos da China?

À Agência AutoData Bonfim relembrou que a vice-presidente executiva da BYD, Stella Li, estimou que metade das 20 mil vagas de emprego seriam criadas ainda em 2025: “Neste ritmo não contratarão nem 1 mil até dezembro. Cada hora dizem uma data diferente para começar a montar os veículos. E acho difícil que o início da operação ocorra em junho”.

Stella Li estimou a geração, até o fim deste ano, de 10 mil postos de trabalho e, em 2026, de 20 mil. Mas, até o momento, há apenas 350 empregados. Foto: Thuane Maria/GOVBA.

O sindicalista contou que, atualmente, 350 profissionais trabalham para a empresa no País, dos quais 80% na área administrativa. Metade deste efetivo é de origem chinesa. Os 20% restantes, do operacional, estão até o momento fazendo treinamentos e aguardando, segundo ele.

O que mais preocupa a entidade são fatores como o aumento da importação, uma vez que a BYD já opera com quatro navios próprios, com capacidade atual de transporte de 26 mil veículos. E a partir deste ano nova rota, batizada de “dourada”, passa a encurtar o tempo de transporte de sessenta para apenas trinta dias da China ao Brasil. Até 2026 serão oito navios, podendo transportar 58 mil veículos.

“Daqui a pouco colocarão doze navios e dobrarão de novo o volume, para mais de 100 mil. Considerando que no ano passado foram emplacados 76 mil veículos da marca no Brasil, entende-se que o volume importado é capaz de suprir a demanda”, afirmou Bonfim. “Sem contar que, ao mesmo tempo, uma de suas três fábricas na China deverá ampliar sua produção dos atuais 545 mil veículos para 1 milhão/ano, ou seja, praticamente dobrará a quantidade. No ano passado foram comercializados, em todo o mundo, 4,2 milhões de unidades. Então, para quê investir em mais capacidade produtiva?”

Outro ponto que reforça o sinal de alerta é o fato de a companhia pedir ao governo a redução da alíquota do ex-tarifário dos atuais 20% para 10%, conforme mostrou com exclusividade reportagem da Agência AutoData: “Sabemos que um centro logístico é 90% automatizado e requer muito menos mão de obra. A impressão que passa é que a BYD deixará a fabricação para mais para frente e explorará a montagem em SKD, em que 70% do carro já vem pronto. Isso tudo nos assusta”.

O sindicato tem reunião marcada com a BYD para tratar dos salários das próximas contratações de operadores, que estão em fase de seleção. Enquanto isso parte da obra segue embargada após escândalos envolvendo trabalho análogo a escravidão, lembrou o sindicalista, ao citar o embargo do Ministério Público e a negociação de indenização por danos morais coletivos que partiu de R$ 250 milhões e que, agora, está em R$ 180 milhões.

“Esperamos que os governos municipal, estadual e federal se unam e façam uma interface com a empresa a fim de não permitir a redução dos empregos que nos foram prometidos para melhorarmos a renda da nossa região.”

Procurada, a BYD manifestou-se dizendo que mantém seu compromisso com a reindustrialização de Camaçari e o desenvolvimento sustentável do local. “Com investimento de R$ 5,5 bilhões, a fábrica terá capacidade inicial para entregar 150 mil veículos por ano.”

A operação terá início com a montagem dos veículos, assegurou a companhia, enquanto a unidade avança para a produção completa, com nacionalização progressiva dos modelos mais vendidos no Brasil. E reafirmou que “a estimativa é que sejam criados 20 mil postos de trabalho diretos e indiretos ao longo do projeto, consolidando a fábrica baiana como o maior polo industrial da BYD fora da China”.

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