Dentre todos os inúmeros e variados fatores que vêm derrubando as vendas de automóveis no mercado doméstico brasileiro há um, bem mais estrutural do que conjuntural, que deveria estar merecendo melhor atenção. Trata-se da rapidez com que vem se dando o aumento do intervalo das trocas de veículos. Consumidores de carros 0 KM que tradicionalmente faziam a troca após 24 a 36 meses esticam agora este prazo por até mais doze meses.
Pesquisas realizadas pela Ipsos, empresa que faz o acompanhamento sistemático do mercado, mostram que não é mais incomum consumidores permanecerem com o mesmo carro por até quatro anos.
É bem verdade que a conjuntura econômica conturbada e negativa atravessada pelo País contribui para postura mais conservadora por parte dos consumidores de forma geral. No entanto as pesquisas que vêm sendo realizadas pela Ipsos, a maior parte delas por encomenda direta das próprias montadoras, indicam que a questão nem de longe está restrita ao mundo conjuntural.
Quando consultados sobre as razões da ampliação do intervalo de troca os consumidores não escondem razões bem pragmáticas e com forte componente estrutural. Dentre elas figuram, com especial destaque, a melhora na qualidade dos produtos e o decorrente aumento dos prazos de garantia, que agora alcança com freqüência três anos e, em alguns casos, chega até a cinco.
Ou seja: ainda que num primeiro momento eventualmente tenham decidido o adiamento da troca por insegurança com relação ao futuro, o consumidor acabou percebendo que, com o aumento da qualidade e dos prazos de garantia, permanecer um pouco mais tempo com o mesmo veículo deixou de ser fonte potencial de problemas e insatisfações.
Na prática isto significa que, por mais que sua origem tenha sido conjuntural, esta mudança tem boas possibilidades de se tornar estrutural e, assim, permanecer mesmo depois que o cenário econômico volte a se mostrar mais favorável. Não é pouca coisa: afinal, num mercado de 2 milhões de unidades/ano, como é o projetado para este ano, basta que um em cada dez consumidores adote esta nova prática para que a venda potencial de 200 mil carros seja adiada para até doze meses à frente.
Não é só: o consumidor típico de carros 0 KM geralmente oferece seu usado como parte do pagamento. E, neste contexto, quando mais antigo for este carro usado menor será o valor da entrada e, por decorrência, maior será o valor a ser financiado. Esta talvez tenha sido, aliás, uma das razões da forte migração verificada no ano passado da base do mercado de novos para o top do de usados.
Com um usado mais antigo e de menor valor para oferecer como entrada muitos consumidores podem ter perdido a condição de permanecer no mercado de novos. Ainda mais quando se considera o simultâneo aumento das taxas de juros e da seletividade por parte dos bancos.
A se confirmar o caráter estrutural desta mudança duas outras muito provavelmente podem estar a caminho, talvez com reflexos bastante palpáveis já em 2016: o gradativo aumento dos prazos de financiamento e a mudança dos consumidores para uma faixa inferior do mercado.
São mudanças que podem vir juntas ou em separado, na exata dependência da necessidade específica de cada consumidor de recolocar o valor da prestação dentro de seu poder aquisitivo.
E há ainda um terceiro ponto que merece ser no mínimo observado com muita atenção pelo impacto que pode vir a ter a médio e longo prazos na vida do setor: consumidor que opta por ficar até 48 meses com o mesmo carro está claramente focado não no status mas, sim, na utilidade que este veiculo lhe oferece.
Será esta a nova face do futuro?
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