São Bernardo do Campo, SP – A transição energética no transporte urbano acaba de ganhar capítulo inédito. A Scania desenvolveu caminhão a biometano especificamente para o segmento de distribuição urbana de bebidas, combinando baixa emissão, elevada produtividade e uma arquitetura que busca resolver um dos principais desafios da eletrificação nesse tipo de operação. O projeto partiu de uma demanda crescente por redução das emissões de carbono.
Durante conversas com grandes operadores logísticos do setor, no entanto, a fabricante identificou um obstáculo técnico relevante. Segundo Ivanovik Marx, gerente de Engenharia de Vendas da Scania, os veículos elétricos ainda enfrentam limitações para atender integralmente esse tipo de aplicação:
“A indústria ainda não conseguiu entregar um elétrico no qual seja possível colocar oito pallets com a carroceria rebaixada”.
A explicação está na arquitetura do veículo. A distribuição urbana de bebidas exige implementos rebaixados para facilitar a carga e descarga e maximizar a capacidade volumétrica. Porém, em caminhões elétricos, a localização das baterias e, em alguns casos, do motor elétrico, dificulta ou até torna inviável o rebaixamento.
Chassi rebaixado garante até 10 pallets em menos de 9 metros
O novo modelo utiliza um chassi modificado em parceria com a implementadora Fachini. A longarina original sofre um recorte e um rebaixamento de aproximadamente 300 mm a 400 mm, criando um piso mais baixo para a carroceria.
Com isto o veículo consegue transportar oito pallets em sua configuração convencional e até dez pallets quando utiliza a prateleira superior, conhecida no setor como fominha. O diferencial está no fato de manter o comprimento total em 8,6 metros: “Não adianta ter um caminhão que leva mais pallets se ele não consegue fazer a manobra na cidade”.
O comprimento reduzido favorece operações em centros urbanos densos, vias estreitas, bairros residenciais e estabelecimentos com acesso limitado.
Além disto o caminhão aproveita outra característica da Scania: o elevado ângulo de esterçamento das rodas dianteiras, estimado em cerca de 46 graus. Na prática isto reduz o raio de giro e permite curvas mais fechadas, acelerando manobras e diminuindo o tempo de entrega.
Suspensão pneumática ajusta a altura em movimento
Outro destaque técnico do projeto é a suspensão pneumática integral, tanto no eixo dianteiro quanto no traseiro. O sistema permite rebaixar o veículo de 200 mm a 300 mm durante as operações de carga e descarga, aumentando a ergonomia dos operadores e reduzindo o esforço físico no manuseio dos carrinhos de bebidas.
Ao mesmo tempo o caminhão pode elevar a suspensão para superar lombadas, valetas e obstáculos urbanos. Segundo Marx o ajuste de altura pode ocorrer inclusive com o veículo em movimento.
A solução resolve um problema típico das cidades brasileiras, marcadas pela falta de padronização das vias urbanas.
Cilindros atrás da cabine liberam espaço
A principal adaptação de engenharia realizada pela Scania envolveu a realocação dos cilindros de gás. Em vez da instalação lateral tradicional os reservatórios foram posicionados atrás da cabine, preservando o espaço necessário para o rebaixamento do implemento.
“Nosso único desafio foi retirar os cilindros da lateral e colocar atrás da cabine. O restante da arquitetura já era ideal para esse mercado.”
O conjunto utiliza quatro cilindros de 118 litros cada.

Em operação urbana severa, com muitas paradas e o veículo carregado, a autonomia estimada varia de 150 quilômetros e 200 quilômetros. Já em trajetos mais fluidos a autonomia pode ultrapassar 300 quilômetros.
Segundo a Scania o abastecimento ocorre em aproximadamente 10 a 15 minutos, dependendo da infraestrutura do posto.
P 280 entrega torque elevado e capacidade acima do segmento
A base do projeto é o Scania P 280 4×2 a gás. Embora utilize a menor potência da linha movida a gás da marca o veículo oferece torque superior ao normalmente encontrado no segmento urbano de bebidas: “Normalmente o mercado trabalha com torques abaixo de 1 mil Nm. Aqui há um torque maior para vencer qualquer desafio, inclusive com mais carga”.
A configuração inclui transmissão automatizada de catorze marchas e relação de diferencial 3,80, calibrada para equilibrar operações urbanas e deslocamentos intermunicipais.
O eixo traseiro pertence à família R780, com elevada capacidade estrutural. Tecnicamente o conjunto pode atingir CMT de até 66 toneladas, evidenciando ampla reserva de robustez para aplicações severas.
Biometano garante vantagem em carga líquida
Outro diferencial competitivo surge na legislação brasileira. Por utilizar gás o caminhão recebe um acréscimo legal de 1 tonelada no peso bruto total permitido. Na prática o PBT legal chega a 17 toneladas.
Como os cilindros possuem peso semelhante ao de um tanque de diesel cheio praticamente toda esta tonelada adicional converte-se em carga útil: “Você ganha praticamente 1 tonelada adicional de carga líquida”.
Esta vantagem permite transportar mais mercadorias sem aumentar o comprimento do veículo.
Segurança embarcada aproxima caminhão urbano do rodoviário
O caminhão sai de fábrica com o pacote mais avançado de sistemas de assistência ao motorista disponível na marca. Dentre os recursos estão frenagem autônoma de emergência, alerta de saída de faixa, sensores laterais dos dois lados do veículo e câmara traseira integrada ao painel digital.
O sistema também detecta ciclistas, motociclistas e pedestres no entorno do caminhão. A solução é particularmente relevante para operações urbanas, onde a convivência com veículos e usuários vulneráveis é intensa.
Para-choque da linha XT aumenta resistência no uso urbano
Embora seja um veículo urbano a Scania adotou o para-choque de aço da linha XT. A escolha busca reduzir custos operacionais e aumentar a disponibilidade da frota.

Nas cidades pequenos impactos em postes, guias e obstáculos são frequentes. O para-choque metálico oferece maior resistência e ainda protege os faróis, componentes que possuem elevado custo de substituição.
“Com o para-choque de aço você ganha resistência e evita perder tempo com reparos.”
Plataforma pode atender todo o mercado de bebidas
Apesar de ter sido desenvolvida para um cliente específico a solução foi concebida para atender qualquer operador logístico do setor de bebidas. Segundo a Scania a arquitetura pode ser replicada para diferentes operações que exigem alta densidade urbana, baixa emissão e elevada produtividade. Além disto o crescimento da oferta de biometano nas cidades brasileiras fortalece a viabilidade do projeto:
“O biometano está ficando cada vez mais comum nas cidades e este projeto nasce para aproveitar esse combustível”.
Ao combinar emissão até 90% menor de CO₂, operação silenciosa — cerca de 20% menos ruído que um diesel —, alta capacidade volumétrica e tecnologias avançadas de segurança a Scania inaugura uma nova fronteira para a logística urbana de bebidas. Mais do que um caminhão a gás trata-se de uma proposta que desafia diretamente as limitações atuais da eletrificação em aplicações urbanas de alta produtividade.





