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30/05/2016

Distorções e mais distorções

Por Leandro Alves

- 30/05/2016

Agora ninguém mais tem qualquer dúvida: o tamanho real do mercado brasileiro de veículos ainda não chega nem perto daquelas 3 milhões 802 mil unidades que foram comercializadas em 2012, suficientes para colocar o Brasil no quarto maior lugar do mundo. Na outra ponta, todavia, ninguém tem dúvida, igualmente, de que o mercado também não é tão modesto quando as pouco mais de 2 milhões de unidades que, depois de quatro anos seguidos de queda, serão registradas este ano.

Qual seria, afinal, em condições normais de temperatura e de pressão, o tamanho real deste mercado? E, por decorrência, qual poderá ser, no momento em que a curva se inverter, a velocidade com a qual se dará a retomada?

São dúvidas mais do que justificadas. Afinal desde 2008 este setor não vive um único mês, um único dia, uma única hora sem que fatores artificiais ou extraordinários impulsionem as vendas. Às vezes para cima, outras tantas para baixo. Muito para cima, ou muito para baixo.

Depois de todos estes anos são tantas e tão variadas as distorções acumuladas que restam bem poucas certezas sobre as quais se possa, hoje, apoiar qualquer tentativa mais concreta de planejamento estratégico.

Uma delas, todavia, é particularmente importante: como fatores artificiais diferentes impactaram diferentemente a realidade das vendas dos diversos segmentos que formam o setor corre muita possibilidade errar quem se atrever a projetar, no futuro, cenário único de recuperação para automóveis, caminhões e ônibus.

Muito embora todos estejam registrando quedas significativas nos últimos quatro anos as realidades que hoje cercam a vida de cada um deste segmentos são tão diferentes que forçosamente a recuperação, quando vier a acontecer, se dará em formatos e ritmos igualmente diversos.

No caso dos automóveis, por exemplo, o atual represamento das vendas pode estar criando até alguma demanda reprimida, o que sugere a possibilidade de razoável velocidade no momento em que a retomada for iniciada.

Na área de caminhões, todavia, a antecipação de compras impulsionada por crédito farto e barato num passado ainda relativamente recente gerou muita frota nova ainda sem utilização no pátio das transportadoras, o que indica possível cenário mais lento de recuperação, ao menos em seu início.

E no segmento dos ônibus, por mais que o crédito volte e a economia mostre alguma recuperação, muito pouco se conseguirá vender sem que, antes, aconteça a efetiva regulamentação do transporte rodoviário de passageiros e sem que as tarifas urbanas – que nos grandes centros permanecem praticamente as mesmas desde as manifestações populares contra o reajuste dos R$ 0,20 – voltem a espelhar a realidade do aumento dos custos das operadoras.

Vale ressaltar, contudo, que, se de um lado todos ainda têm fortes dúvidas com relação ao curto prazo há, de outro, a certeza generalizada de que, a mais médio prazo, o cenário continua positivo e promissor. O que torna aconselhável não cortar pelo menos os investimentos destinados a manter competitivos os produtos em oferta.

Nas áreas de caminhões e ônibus tanto Roberto Cortez, presidente da MAN, quanto Philipp Schiemer, presidente da Mercedes-Benz do Brasil, continuam afiançando às suas respectivas matrizes que, apesar das dificuldades de curto prazo, os fundamentos básicos do País permanecem relativamente em ordem, o que autoriza a projeção de que, resolvida a questão política, a recuperação virá firme e certa. Seria, garantem eles, apenas uma questão de tempo.

Nos automóveis, de seu lado, “a relação veículo por habitantes continua muito baixa no Brasil, mesmo com relação aos países vizinhos, o que dá a certeza de que há muito espaço, ainda, para crescimento”, diz Antônio Carlos Botelho Megale que na segunda-feira, 25, assumiu a presidência da Anfavea.

É esperar para ver. E tentar manter o sangue frio e as contas em ordem até lá – o que, convenhamos, não será nada fácil em tempos, como os atuais, de demanda fraca e muita ociosidade, tudo combinado com crédito difícil e caro. Muito difícil e muito caro.

As fraturas já começam a mostrar suas faces mais duras. No evento realizado por AutoData na semana passada, em São Paulo, para projetar as novas perspectivas do segmento de ônibus, os fabricantes de carroçarias alinharam-se às queixas que sistemistas e montadoras vêm fazendo de maneira cada vez mais recorrente: todos estão sendo obrigados a passar a importar vários componentes antes comprados localmente de pequenas e médias empresas nacionais – o ultimo reduto de pequenas e médias empresas nacionais neste setor.

Empresas nacionais que, desta vez, depois de quadro anos seguidos de queda de vendas não estão mais conseguindo superar a ausência e o alto custo do crédito. E, naquela que provavelmente seja a maior das distorções geradas por esta fase, estão simplesmente sendo forçadas a fechar suas portas.


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