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Europa precisa alinhar meta de CO₂ à realidade do mercado, alerta Mercedes-Benz

Com apenas 2,4% dos novos caminhões pesados de emissão zero, indústria alerta para o descompasso das metas de 2030 com a realidade do mercado

Hannover, Alemanha – A indústria europeia de caminhões acelerou o desenvolvimento de veículos de emissão zero, mas o mercado ainda está muito distante do ritmo necessário para cumprir as metas de CO₂ estabelecidas para 2030. Atualmente, apenas 2,4% dos novos caminhões pesados registrados na Europa são de emissão zero. 

Em mercados como Polônia, Espanha e Itália, a participação permanece abaixo de 1%. Alemanha e França, os dois maiores mercados europeus, registram 4,3% e 2,4%, respectivamente. Com apenas 45 meses até 2030, o descompasso da regulamentação com a demanda ganhou força nas discussões da indústria. 

Para Achim Puchert, CEO da Mercedes-Benz Trucks, o principal problema deixou de ser o desenvolvimento do caminhão. Durante a IAA Transportation 2026, em Hannover, Alemanha, ele foi direto ao avaliar o atual estágio da transição. “O caminhão já não é mais o problema. O restante precisa vir dos provedores de energia e da infraestrutura.”

A Mercedes-Benz já oferece uma gama de caminhões elétricos a bateria e também avança no desenvolvimento da tecnologia de célula de combustível a hidrogênio. Entretanto, para o transportador, a decisão de compra depende de outros fatores além do veículo.

É preciso ter infraestrutura de recarga, disponibilidade de energia, tempo de carregamento compatível com a operação e, principalmente, uma conta que faça sentido economicamente.

O problema é que a infraestrutura não acompanha a velocidade das metas. A ACEA estima que a Europa precisará de cerca de 50 mil carregadores públicos para caminhões até 2030, incluindo aproximadamente 35 mil equipamentos de alta potência, além de estações de abastecimento de hidrogênio.

“Os clientes precisam de infraestrutura para operar esses caminhões. Esse é um dos obstáculos que impedem a eletrificação de ganhar velocidade”.

Meta europeia exige mercado preparado

A regulamentação europeia prevê redução de 43% nas emissões de CO₂ dos novos veículos pesados em 2030 em relação a 2025, chegando a 64% em 2035 e 90% em 2040.

Para Puchert, portanto, a descarbonização precisa ser tratada como um sistema que envolve fabricantes, empresas de energia, operadores de infraestrutura, transportadores e governos. “Não podemos olhar apenas para o produto ou apenas para a infraestrutura. É preciso olhar para os dois lados.”

O preço da eletricidade também pesa. Em alguns países, incentivos tornam o caminhão elétrico mais competitivo. Em outros, o diesel ainda apresenta vantagem no custo total de operação.

Por isso, a indústria defende que as políticas públicas acompanhem o desenvolvimento dos veículos e criem condições econômicas para que o transportador faça a transição.

Hidrogênio também depende do ecossistema

A mesma lógica vale para o hidrogênio. A tecnologia pode atender operações de longa distância nas quais autonomia e tempo de abastecimento são fatores críticos, mas precisa de uma rede de abastecimento e de hidrogênio disponível a preços competitivos.

Assim, para a Mercedes-Benz, a discussão deixou de ser apenas sobre qual tecnologia será utilizada. O desafio agora é criar as condições para que essas tecnologias possam efetivamente trabalhar nas estradas.

Brasil terá outra velocidade

Enquanto a Europa enfrenta a pressão para acelerar a eletrificação, Denis Güven, presidente da Mercedes-Benz do Brasil e CEO para a América Latina, afirma que o Brasil precisa construir uma trajetória própria de descarbonização.

Segundo ele, o País tem condições particulares, principalmente pela disponibilidade de biocombustíveis, e pode combinar diferentes tecnologias de acordo com cada aplicação.

Nesse cenário, o diesel mais eficiente continuará tendo papel importante durante a transição, enquanto soluções como biocombustíveis, biometano, eletrificação e, futuramente, hidrogênio poderão ocupar diferentes nichos.

Güven também destacou a importância de ganhos de eficiência. Reduzir o consumo de combustível permite diminuir emissões sem exigir, imediatamente, uma infraestrutura completamente nova.

A estratégia, portanto, será diferente da europeia, mas segue o mesmo princípio: a tecnologia precisa estar acompanhada das condições necessárias para que o transportador consiga adotá-la.

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