São Paulo — A transição para a economia circular no setor automotivo brasileiro deixou de ser apenas uma pauta de sustentabilidade ambiental para se consolidar como parte crucial dos planos de negócios e da descarbonização industrial. No entanto, para ganhar maior escala e rentabilidade plena, o ecossistema ainda precisa superar gargalos operacionais e burocráticos, além de aguardar o avanço de incentivos do Programa Mover, Mobilidade Verde e Inovação.
A constatação partiu dos executivos Maiara Castro, vice-presidente de economia circular da Stellantis na América do Sul, e Bernardo Rosenthal, diretor de compras de metálicos, aços longos e biofloresta da ArcelorMittal, durante sua participação do Seminário Brasil Eletrificação e Descarbonização, realizado por AutoData de forma online na terça-feira, 20.
Durante o painel realizado para analisar os rumos do desmonte veicular, da remanufatura de autopeças e do uso de sucata Maiara Castro assinalou que o reaproveitamento de componentes e a reutilização de materiais são as principais alavancas para agregar valor econômico imediato e estender a jornada do consumidor com garantias de fábrica:
“O projeto da Stellantis foi desenhado para que possamos acompanhar toda jornada do consumidor. Quando inserimos a economia circular é como se a montadora estivesse criando possibilidades de entregar peças utilizadas com qualidade, garantia e rastreabilidade”.
Os componentes, que custam de 30% a 40% menos do que um novo, hoje são remanufaturados por empresas parceiras. E o plano é, em breve, assumir a reforma destas peças usadas.
Durante o primeiro ano de funcionamento da Circular Autopeças, centro de desmontagem veicular da Stellantis, Castro contabilizou 860 toneladas de sucata vendidas em aço e alumínio: “Este volume é bem relevante e nós estamos apenas começando”.
Aço verde e potencial de reciclagem
A reciclagem de sucata ferrosa surge como pilar indispensável para os objetivos de descarbonização da siderurgia. Segundo a ArcelorMittal, maior produtora de aço do País e principal recicladora de sucata ferrosa nacional, o uso do material reduz de 70% a 80% as emissões de CO2 e economiza até 70% de energia na produção industrial.
Dos 10 milhões de toneladas de sucata gerados anualmente no Brasil cerca de 50% vêm do ecossistema automotivo, sendo 20% gerados por processo produtivo das montadoras e estamparias e 30% de veículos ao fim da vida útil.
Bernardo Rosenthal destacou que o aço tem a vantagem de ser infinitamente reciclável sem a perda de propriedades, tornando a sucata o caminho mais rápido para a produção de aço de baixa pegada de carbono:
“Se eu penso em reciclagem e penso no carro, o que gera mais valor econômico, sem dúvida nenhuma é o reaproveitamento das peças. Mas se focarmos no volume o que dará maior escala e receita é a recuperação dos materiais, que é a reciclagem em si”.
De acordo com Rosenthal embora o uso de sucata esteja crescendo e figure como uma das principais frentes para o processo de descarbonização, apenas 2% dos veículos no fim de vida útil, hoje, são reciclados no Brasil, ao passo que, mundialmente, este porcentual vai a 80%: “Há, portanto, um campo extremamente fértil para que possamos evoluir”.
Gargalos regulatórios e o papel do Mover
Apesar do potencial os executivos enfatizaram que a operação esbarra na ainda inexpressiva taxa de descarte formal no Brasil. A desburocratização da baixa definitiva de veículos junto aos Detran e a regulamentação do programa Mover são apontadas como chaves para destravar o setor.
A expectativa da Stellantis e da ArcelorMittal, que, inclusive, são parceiras neste processo, é que o Mover estabeleça diretrizes rígidas de rastreabilidade e incentivos fiscais e operacionais que permitam estruturar a coleta e o desmonte seguro em escala nacional, contribuindo, ao mesmo tempo, para a redução de problemas de saúde pública, contaminação ambiental e segurança viária gerados por veículos abandonados em pátios.























