Setembro não trouxe a aguardada primavera para a indústria automotiva brasileira. Ao contrário, com 170,8 mil unidades fabricadas, o mês prorrogou o já longo inverno das montadoras e gerou até mais uma pequena nuvem cinza. O resultado mensal foi 3,9% inferior ao de agosto e 2,2% abaixo do alcançado em setembro do ano passado, aponta levantamento da Anfavea. É o menor número para o mês desde 2003, quando saíram das linhas de montagem 155 mil unidades.
A produção acumulada ao longo dos nove primeiros meses do ano, com isso, ficou em 1,55 milhão de veículos, 18,5% inferior a de igual período de 2015 e fez com que o presidente da entidade, Antonio Megale, colocasse em dúvida, pela primeira vez, sua própria projeção, divulgada em junho, de que o Brasil fabricará 2,296 milhões de veículos durante 2016 – o que já configuraria queda de 5,5% sobre o ano passado.
“Ainda preferimos manter nossas projeções, mas, para ser transparente, há, sim, risco de ficarmos aquém desse volume”, disse o executivo em sua apresentação durante divulgação do desempenho do setor na quinta-feira, 6, em São Paulo.
Setembro foi o quarto pior mês do ano –, supera apenas as produções registradas em janeiro e fevereiro, historicamente meses de linhas de montagem em ritmo mais lento, e a de abril por apenas 1 mil unidades.
Megale, contudo, acredita que o resultado de setembro é pontual, não indica necessariamente uma nova tendência declinante e aponta a interrupção da produção nas fábricas da Volkswagen por falta de peças como fator determinante do volume. Pelo contrário, o executivo fala até em ritmo bem mais forte neste último trimestre, com eventual produção acima de 200 mil unidades em alguns dos três meses.
Um bom termômetro de que os ares poderão ser outros, no entender do presidente da Anfavea, é a drástica queda do número de trabalhadores em regime de lay-off ou enquadrados no PPE, Programa de Proteção ao Empregos. Se em agosto o contingente superava 22,3 mil pessoas, em setembro reunia pouco mais de 7,3 mil – 5,3 mil deles dentro do PPE.
É certo, reconhece o presidente da entidade, que uma parte dessa redução se deveu às adesões aos programas de demissões voluntárias e algumas demissões no período – o quadro total caiu 1,1% e encerrou setembro com 124,6 mil pessoas. Megale, porém, destaca que a retirada de funcionários do PPE sugere que as fabricantes de veículos já vislumbram produção mais aquecida nos próximos meses.
Se a produção não teve seus melhores dias no mês, com dois dias úteis a menos as vendas também não animaram o setor. Foram emplacados no mês passado 160 mil veículos, 13% abaixo de agosto e 20,1% a menos que em setembro de 2015. Nos nove primeiros meses, o mercado interno ficou em 1,508 milhão, recuo de 22,8 %, segundo a Anfavea.
Neste caso, além da falta de produtos da linha Volkswagen – cujas vendas ficaram abaixo de 12 mil veículos, queda de 50% com relação a agosto e apenas a 7ª colocação no ranking de automóveis e comerciais leves –, a justificativa para a queda estaria ainda na greve dos bancários, que dificultou a aprovação de financiamentos. Somente 51,9% das vendas foram financiadas em setembro, um dos menores índices registrados pela entidade.
Apesar disso, os estoques se mantiveram estabilizados e fecharam o mês com 212,5 mil veículos nos pátios das fabricantes e a grande maioria, 160,4 mil, nas redes de concessionárias.
