Dias atrás, em entrevista a jornal de cobertura nacional, Stefan Ketter, alto executivo da FCA na América latina, expressou sua opinião contrária à concessão de subsídios à indústria automobilística, indicando que esta careceria – e se bastaria! – antes de uma política governamental estável e de longo prazo.
Sempre a quererem transcender em clarividência e capacidade perceptiva únicas – traços de cultura empresarial que eventualmente sugerem que nos faltariam em boa medida –, outros generais de igual graduação, mais precisamente o presidente da Mercedes-Benz do Brasil, Philipp Schiemer, e o mundial da Volvo, Martin Lundstedt, despejaram caçambas de sabedoria e visão em outras duas matérias jornalísticas.
Aquele, a exortar o governo atual a “não perder a chance histórica de recuperar a confiança e fazer o Brasil mostrar ao mundo que é um país sério, com as contas em ordem e que pode cumprir compromissos”, e este a sugerir que “os políticos brasileiros deveriam ter em mente que o
País pode atuar na arena global ao invés de tentar proteger demais a economia”.
A considerar que essas afirmações foram expressas sem que os entrevistadores as temperassem com algum respeitoso contraponto, fica-se sem saber se esses galonados executivos teriam sido igualmente tão acres a respeito de nossa capacidade de discernimento quando se enfatuaram com dispensáveis subsídios mascarados de medidas contracíclicas, em 2009, quando se beneficiaram de inesperada extensão do Regime Automotivo do Nordeste de 2004 e se, para citar apenas essas inflexões no histórico recente de nossa política automotiva, teriam recusado o beneplácito de ostensiva proteção que lhes trouxe o Inovar-Auto!
Que pena que esses cândidos pedidos de maior esclarecimento não tenham sido feitos!
Briosos e fieis à doutrina mercantilista que continua a permear suas estratégicas de presença onde quer que atuem e certamente sob a proteção do guarda-chuva que só abriga algo como treze fabricantes realmente globais, diriam que, diferentemente do que a economia de livre mercado propõe, a indústria automobilística, mesmo não sendo estritamente nacional, está rigorosamente alinhada com o interesse nacional dos países que a abriga e, por isso, merece a proteção destes.
Diriam, com não menos ênfase, que para a indústria o sol nunca se põe e que, portanto, excesso de capacidade e o seu custo são diluídos no lucro corporativo que amealha em ambos os hemisférios e se anulam em face do potencial de países como o nosso (a ameaça de Schiemer de que “a indústria brasileira poderá sumir” rescende qualquer coisa menos um sincero estímulo a novas e virtuosas políticas que se venha a adotar por aqui).
Finalmente, entre outras tantas obviedades, reconheceriam que nunca, em nenhuma circunstância, deixariam o Brasil.
Luiz Carlos Mello, consultor e ex-presidente da Ford Brasil
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