Produção seriada da M-B em Iracemápolis começará em exatamente um ano

Ainda que atualmente o terreno da Mercedes-Benz em Iracemápolis, no Interior de São Paulo, a cerca de 200 quilômetros da Capital, não observe sequer um pilar erguido, a empresa pretende correr contra o tempo e iniciar a produção em série – ou seja, de veículos que efetivamente irão para as concessionárias aguardar compradores – na nova unidade em exatamente um ano, fevereiro de 2016.

O cronograma foi revelado por Philipp Schiemer, presidente da Mercedes-Benz do Brasil, após cerimônia de assentamento de pedra fundamental da unidade, realizada no fim da manhã da quinta-feira, 5, no terreno que atualmente está no estágio quase completo de terraplenagem.

“As primeiras unidades prontas para distribuição à rede sairão de Iracemápolis em fevereiro do ano que vem e, portanto, iniciaremos a produção pré-série ainda nos últimos meses deste ano.”

A produção começa com o Classe C e seis meses depois, ou agosto de 2016, entra o GLA.

A fábrica terá três áreas principais: montagem bruta, pintura e montagem final – está descartada, assim, estamparia em Iracemápolis ao menos em sua primeira fase. Para o executivo “o volume de produção, de 20 mil unidades ao ano, não justifica o investimento”. As partes estampadas de maior tamanho virão importadas da Alemanha, porém a pintura estará operando desde o início das atividades, ele assegurou. Garantiu também que “não se trata de processo CKD”.

Quanto aos fornecedores locais ficou evidente durante o evento certa contradição: enquanto o prefeito revelou, em discurso, construção de parque destinado a estas empresas na frente da enorme área da Mercedes-Benz, do outro lado da rodovia, Schiemer argumentou que a escolha pelo Estado de São Paulo se deu justamente pela quantidade de fornecedores já instalados na região e que assim, portanto, não há necessidade de um grande número de empresas de autopeças no entorno da fábrica, “apenas aquelas fundamentais, mais ligadas aos processos de logística”.

Mas é certo que uma empresa terceirizada cuidará do processo de montagem dos motores, que virão importados – a M-B não quis pormenorizar como funcionará exatamente esta etapa produtiva e se componentes locais serão agregados no powertrain. Ainda sobre os motores estes serão os primeiros flex fuel Mercedes-Benz do mundo e, assim como nos concorrentes nacionais de Audi e BMW, turboalimentados.

Schiemer também não quis revelar o índice de nacionalização dos futuros M-B nacionais, mas assegurou que “este crescerá conforme a rampa de produção evoluir, sempre respeitando as exigências do Inovar-Auto”. Para o primeiro ano de atividades o volume produtivo deve chegar a 10 mil unidades, alcançando o topo da fábrica, 20 mil/ano, já em 2017, quando o quadro de funcionários chegará a 1 mil – de início serão seiscentos.

A fabricante fala ainda em 3 mil empregos indiretos gerados a partir da unidade de Iracemápolis, mas inclui neste cálculo 2 mil da rede de distribuidores, que ganhará investimento específico de R$ 100 milhões para chegar a 63 casas até 2016 ante as 45 de hoje. Na fábrica, isoladamente, o aporte é de R$ 500 milhões.

A unidade faz parte de plano ambicioso da Mercedes-Benz de liderar as vendas de veículos premium no Brasil até 2020, segmento que, calcula, mais do que dobrará de volume até lá, chegando no total a 100 mil unidades. De seu próprio desempenho a montadora não tem do que reclamar: suas vendas de modelos de luxo importados cresceram mais de 200% no País de 2008 a 2014, saltando de 3,7 mil para o recorde de 12 mil no ano passado.

Também presente à cerimônia o governador do Estado prometeu entregar em um ano, ou junto ao início da produção, obra de recuperação da Rodovia Luís Ometto, a SP-306, “recapeada, com terceira faixa e construção de um trevo em frente à fábrica”. A rodovia, de pista simples, encontra-se em condições precárias de rodagem, com inúmeros remendos no asfalto.

A Prefeitura aguarda, ainda, a instalação de quartel do Corpo de Bombeiros e de unidade do Samu, Serviço de Atendimento Móvel de Urgência.

IPI perde o desconto e retorna ao patamar original de 2008

Dessa vez o governo cumpriu sua promessa e a alíquota do IPI para automóveis e comerciais leves 0 KM retornou à sua normalidade. Desde 1º de janeiro os carros faturados pelas montadoras às redes concessionárias têm incidência do imposto cheio – de 7% para os modelos flex com motor 1 litro até 13% para os modelos gasolina com motor até 2 litros.

Encerra-se assim um longo período de incentivo do governo para o consumo de veículos. No fim de 2008, em meio ao início da crise financeira global, as alíquotas foram reduzidas pela primeira vez e sofreram variações de alíquota desde então, com constantes prorrogações, reduções e aumentos escalonados.

Recordes de vendas foram quebrados: em agosto de 2012 foram licenciados 420,1 mil veículos no mercado nacional, barreira desde então não mais superada. No mesmo ano os brasileiros consumiram 3,8 milhões de veículos, volume histórico para o setor.

Em 2013, um ano após o recorde, a recomposição escalonada do IPI provocou retração no mercado e o primeiro trimestre encerrou com ritmo lento. No feriado da páscoa o ministro da Fazenda anunciou manutenção das alíquotas daquele período até o fim do ano. Um novo aumento, leve, ocorreu no começo do ano passado e se estendeu até o fim do primeiro semestre e depois até 31 de dezembro.

Pelos cálculos da Anfavea, divulgados no ano passado, cada ponto porcentual de aumento – ou retomada – da alíquota do IPI representa elevação de 1,1% no preço final do veículo ao consumidor.

Embora relevante e esperada por Anfavea, Fenabrave e boa parcela de executivos do setor, a recomposição total da alíquota não mereceu anúncio especial do governo. Apenas chegou, como chegou o novo ano. Mas seus efeitos não serão imediatos.

Isso porque todos os modelos faturados até 31 de dezembro de 2014 ainda trazem o IPI reduzido. E eles estão estocados nos pátios das concessionárias espalhadas pelo País. Como ocorreu das outras vezes em que o IPI foi recomposto – ou quando se esperava sua recomposição –, o rescaldo de estoque deverá promover um mês aquecido em vendas neste janeiro.

A reportagem entrou em contato com concessionárias da Região Metropolitana da Capital paulista e em todas havia modelos em oferta com preço mais baixo, ainda com IPI reduzido. O vendedor da Brasilwagen do bairro de Santo Amaro, da rede Volkswagen, afirmou existir poucas unidades do Gol, mas muitas do up! com preço antigo.

O mesmo ocorreu com os Fiat Uno e Palio na Fiat Amazonas do Tatuapé e Ford Ka e Fiesta na Sonnervig Raposo, da Ford, em Cotia. A Chevrolet Imigrantes, em Diadema, também afirmou ter bom estoque de Onix com o IPI reduzido.

Das concessionárias procuradas apenas a Chevrolet Nova de Pinheiros afirmou não contar com amplo leque de modelos com o IPI do ano passado. Do Onix, modelo mais vendido da marca, restavam apenas algumas unidades, porém já não havia muitas opções da cor, versão e motorização.

BNDES PSI: mudança no porcentual financiado preocupa mais que taxa de juros.

A indústria de caminhões, ônibus, implementos rodoviários e sua rede de distribuição começam 2015 refazendo contas e projeções. Nos últimos dias de dezembro o governo publicou a aguardada medida provisória que regulamenta o PSI, Programa de Sustentação do Investimento, no novo exercício. As alterações, porém, não agradaram.

A taxa de juros para aquisição de caminhões e ônibus para pequenas empresas passou de 6% para 9,5% ao ano, enquanto que para as grandes empresas o índice agora é de 10% ao ano. A modalidade de financiamento simplificada, entretanto, foi mantida.

A linha Procaminhoneiro teve elevação de 6% para 9% ao ano e a TJLP, Taxa de Juros de Longo Prazo, outra ferramenta importante no segmento, também subiu: de 5% para 5,5% ao ano.

No entanto, mesmo com alta nas taxas de juros, o porcentual financiado pelo PSI no exercício preocupa mais: pelas novas regras o BNDES deixa de financiar 100% do valor do veículo, passando a 50% para grandes empresas e 70% para as pequenas.

Segundo concessionários consultados pela Agência AutoData tanto as pequenas e médias quanto as grandes empresas têm dificuldade de renovar suas frotas pagando de 30% a 50% de entrada.

“É prática comum o concessionário financiar, com recursos de suas revendas, o porcentual de entrada. Chegamos a parcelar em até cinco vezes de 10% e 20% exigidos pelo Finame PSI em alguns meses no ano passado. Isso passa a ser impraticável pela nova regra, pois não temos capital de giro suficiente para 30% ou 50%, o que deve dificultar ainda mais os investimentos dos empresários”, considerou fonte ligada à rede de grande marca de caminhões e ônibus.

No entendimento dos revendedores o PSI pode tornar-se inviável: “É preferível a modalidade TJLP, com juros pós-fixados, que exige entrada de 10%”.

A Anfir, Associação Nacional dos Fabricantes de Implementos Rodoviários, considerou em nota que as medidas do governo devem reduzir as vendas do segmento, ao menos no primeiro trimestre. Alcides Braga, presidente da associação, comentou: “A indústria espera que os bancos comerciais entrem firmes no complemento do valor dos bens, com taxas competitivas para motivar os clientes e o mercado a fazer aquisições sem desembolso de capital de giro. O ano de 2014 não foi bom para a maioria dos negócios e por isso as empresas terão dificuldades em adquirir novos produtos ou mesmo renovar suas frotas”.

Fechamento do ano – Em 2014 foram emplacados 135 mil 546 caminhões, segundo dados preliminares do Renavam obtidos com exclusividade pela Agência AutoData. Para 2015 a estimativa de alta de 3% traçada em dezembro já pode ser considerada, segundo representantes da rede de distribuição, difícil de alcançar.

“Contávamos, sim, com a alta no PSI. Mas não com a entrada de até 50%, o que afeta o mercado, acenando para estabilidade ou, mais provável, queda.”

Os chassis de ônibus fecharam 2014 com 27 mil 540 emplacamentos e o viés é de alta neste ano mesmo com as novas regras, entende a fonte. “Há uma série de renovações de frota postergadas há anos. Com o reajuste de tarifas as compras deverão ocorrer e elevar o mercado em até 10%.”

BNDES concede financiamento de R$ 650 milhões à Fiat em Betim

O BNDES anunciou na segunda-feira, 5, aprovação de financiamento de R$ 650 milhões para a Fiat em Betim, MG. Segundo comunicado do banco público o montante será destinado para desenvolvimento de novos motores e veículos, além da reestilização do modelo Bravo e adequação de linhas de produção.

A conclusão dos investimentos está prevista para dezembro de 2016, informou o BNDES.

Ainda segundo a nota do banco “os investimentos em atividades de engenharia visam à incorporação de novas tecnologias para melhorar os veículos e motores, com maior potência, eficiência energética e redução de consumo de combustível”. O projeto prevê ainda aumento de índices de nacionalização de motores.

Também de acordo com a nota o investimento auxiliará a montadora a obter “uma maior independência em relação à matriz italiana no desenvolvimento de novos projetos”.

O financiamento aprovado pelo BNDES inclui ainda investimentos em obras civis, montagens e ampliação da capacidade produtiva.

Segundo o banco as obras compreendem ainda construção de galpões e de pátios para armazenamento de embalagens, instalação de novas máquinas, equipamentos e ferramentais.

Argentina afrouxa tributação adicional para veículos de luxo

Depois de anunciar forte aumento nos impostos para veículos de luxo no final de 2013, válido a partir do primeiro dia do ano passado – em iniciativa que ficou batizada localmente de maneira informal como Impuestazo – o governo argentino decidiu afrouxar as regras da tributação a partir de 1º. de janeiro de 2015. A nova tabela de tributação ampliou a base de valores com a menor taxação, que parte de 30%.

De acordo com determinação publicada no Diário Oficial do maior parceiro do Brasil no Mercosul os veículos com valor de tabela a partir de 195 mil pesos terão incidência de 30% de imposto. Já os veículos com valor acima de 241,5 pesos mil serão taxados em 50%.

De acordo com a norma anterior, que vigorou durante todo 2014, a taxa de 30% já valia para veículos com valor acima de 170 mil pesos e a de 50% para modelos a partir de 210 mil pesos.

Segundo nota da ministra da Indústria, Debora Giorgi, a nova regra será válida até 30 de junho. “O objetivo é preservar a produção doméstica e ao mesmo tempo incentivar o consumo de luxo.”

No comunicado o governo argentino considerou que em 2014 o imposto incidiu sobre 5 mil 440 unidades produzidas internamente, o equivalente a apenas 0,8% das unidades vendidas – projetando-se um mercado de 680 mil veículos em 2014.

Com a nova base de tributação o Ministério da Indústria local prevê que cerca de 2 mil 720 unidades, o equivalente a cerca de 0,4% do mercado, sejam tributadas no primeiro semestre.

O segmento premium de duas rodas também teve sua taxação revisada. De acordo com as novas normas serão taxadas em 30% as motocicletas com valor superior a 48,4 mil pesos – antes o valor partia de 34,5 mil pesos.

A alíquota de 50% será imposta para os veículos de duas rodas que custem acima de 112,6 mil pesos. Antes a taxação valia para motocicletas com preços de tabela já a partir de 91,6 mil pesos.

Palio vence batalha e termina 2014 como o modelo mais vendido

A batalha pelo posto de veículo mais vendido do Brasil em 2014 durou até o último instante: competindo carro a carro, venda a venda – seja no varejo ou direta –, Palio e Gol mantiveram suspense que durou até o fechamento dos resultados de todos os Detrans do País e que teve no Fiat o vencedor.

O mais justo, de fato, seria considerar o resultado como um empate técnico, vez que a diferença ficou abaixo de míseras quatrocentas unidades considerando a soma das vendas de todos os meses, de janeiro a dezembro – índice mais apertado da história recente.

Na frieza dos números, entretanto, é inquestionável a vitória do Palio, com 183 mil 748 emplacamentos ante 183 mil 367 do Gol, de acordo com índices preliminares do Renavam obtidos pela Agência AutoData. Os separaram, portanto, apenas 381 unidades, o que no universo da soma de licenciamentos dos dois modelos, 367 mil, representa impressionantes 0,1%.

O resultado final – que será oficial com a divulgação dos números da Fenabrave, que serão revelados na terça-feira, 6 – representa de forma perfeita como foi o ano passado no quesito modelos mais vendidos. O Gol iniciou o ano parecendo mais uma vez inabalável, mesmo com os emplacamentos das unidades da Geração 4, descontinuada no começo do ano pela exigência de air-bags e freios ABS, reduzindo-se mês a mês conforme o estoque das unidades produzidas até o fim de 2012 baixava na rede. Em fevereiro veio o Up!, substituto do G4, que poderia representar uma ameça interna, mas susto mesmo só em março, quando a Strada ponteou o ranking geral, puxada por vendas diretas. Mas em janeiro, fevereiro, abril e maio o Gol dava sinais de que 2014 seria mesmo seu vigésimo-oitavo ano consecutivo na liderança: sim, o VW dominava a lista desde 1986.

Entretanto o segundo semestre foi do Palio, sempre recordando que seus números somam as versões Fire – que se transformou no nacional mais barato do País com o fim do Mille e do próprio G4 – e novo Palio. O Fiat tomou a liderança mensal em junho e não perdeu mais até dezembro, recuperando a diferença mês a mês até assumir no acumulado do ano com o fechamento de novembro.

O Gol, entretanto, não entregou os pontos e no último mês do ano mostrou recuperação impressionante, em especial na segunda quinzena, vez que até o fim de novembro a diferença para o Palio já atingia 1,6 mil unidades e chegou ao ápice de 2,4 mil no dia 10 de dezembro, sempre considerando os números no acumulado. De lá para cá o VW na prática teve mais emplacamentos que o Palio – no dia 17, por exemplo a vantagem do Fiat já fora reduzida para 861 unidades –, mas não o suficiente para tirar a diferença.

Em dezembro, isoladamente, o Gol fechou com 24 mil 160 licenciamentos para 22 mil 964 do Palio. A média diária, assim, considerando-se vinte dias úteis, foi de 1 mil 208 do VW e de 1 mil 148 do Fiat: respeitando-se este ritmo, o Gol precisaria de mais sete dias úteis em dezembro para retomar a liderança.

Para Ford, resultado de janeiro foi pior que o previsto

A Ford, por meio de seu vice-presidente de assuntos corporativos para América do Sul, Rogelio Golfarb, recebeu com preocupação o resultado das vendas de veículos em janeiro. Segundo o executivo a queda de 18,8% na comparação anual, de acordo com dados da Fenabrave, foi “pior do que o previsto”.

O fato do mês passado apresentar um dia útil a menos na comparação anual não justifica a queda, na avaliação de Golfarb. Para ele, apesar de janeiro tradicionalmente ser um mês mais fraco de vendas devido às férias e às tradicionais contas do início do ano, havia uma expectativa por um resultado positivo.

“Achávamos que o estoque de unidades que ainda não tiveram o IPI reajustado atrairia os consumidores, mas não foi o que aconteceu.”

De acordo com o executivo do estoque total da indústria automotiva em dezembro, de 351 mil unidades, 277 mil foram faturadas antes do reajuste do IPI, em 1º. de janeiro. “Acreditamos que isso aqueceria o mercado neste começo do ano.”

Uma possível antecipação de licenciamentos em dezembro, combinada com o aumento dos custos de financiamentos, seletividade do crédito e queda de confiança do consumidor foram citados pelo vice-presidente para justificar os números de janeiro.

Apesar do resultado fraco Golfard afirmou que não se pode definir o restante do ano com base nos resultados de apenas um mês. “Isso seria prematuro. Não é possível estimar a queda, porém o viés de baixa deve perdurar até o fim do ano.”

O vice-presidente ressaltou que as recentes medidas anunciadas pela nova equipe econômica do governo federal foram bem recebidas pela indústria. “Para que as montadoras possam investir é necessário haver solidez na macroeconomia, assim fica possível planejar a médio e longo prazo.”

Contudo, Golfarb admitiu que inicialmente os efeitos – que incluem aumento de custos – serão negativos: “Toda mudança requer um sacrifício. Apesar das medidas sinalizarem retomada da solidez, sabemos que afetam toda a economia em um primeiro momento. Precisamos compreender que vivemos um período de ajuste e isso é necessário para retomarmos um ciclo de crescimento sustentável”.

O executivo afirmou ainda que a lei que facilita a retomada de veículos em menor tempo é “uma ferramenta importante, mas não deverá fomentar a indústria”. Em seu entendimento “os bancos vão continuar a deixar de oferecer crédito para aqueles que julguem não ter condição de cumprir os pagamentos, independentemente de recuperar o veículo mais rápido do que antes”.

Comparar alhos a bugalhos pode não ser muito boa ideia

Esta nossa Agência Autodata de Notícias e um tradicional jornal de São Paulo deram grande ênfase, semana passada, para o fato de que, neste janeiro, as vendas de veículos no Brasil registraram queda de aproximadamente 30% e 20%, respectivamente, com relação a dezembro e janeiro do ano passado em números redondos.

E o que é pior: reportagens publicadas também chamaram a atenção para o fato de que, neste mesmo janeiro, as vendas de automóveis e comerciais leves, analisadas em particular, caíram quase 30% e 18% também diante de dezembro e janeiro de 2014. E que os caminhões, por sua vez, também caíram 45% e 23% na mesma base de comparação.

Não há necessidade de se rever com profundidade os volumes propriamente ditos, porque estes números, divulgados pelo Renavam, já foram publicados pela Agência AutoData e não são, portanto, mais novidade para ninguém. Só que existe uma urgente necessidade de entender que esta leitura da estatística pode ser perigosa em razão de esconder alguns pontos importantes que podem levar a distorções interessantes na realidade dos fatos.

Neste caso das vendas de janeiro, por exemplo, existem duas situações bastante diferentes que devem ser obrigatoriamente observadas e entendidas. Uma delas, a mais complicada, refere-se ao segmento de caminhões, que realmente está sofrendo grandes dificuldades neste início de ano. E a outra diz respeito aos automóveis e comerciais leves, cuja queda de vendas nos primeiros dias de 2015 deve ser vista de forma um pouco diferente.

Mesmo levando-se em consideração que os dois segmentos vivem problemas distintos o primeiro fato que deve ser sempre lembrado para que esta análise seja feita em base realista refere-se ao fato de que os dois meses de comparação, janeiro e dezembro de 2014, registraram, respectivamente, o maior e o segundo maior volume de vendas destes meses em toda a história do setor automotivo brasileiro.

Janeiro do ano passado foi, nunca é demais lembrar, o mês em que teve início a obrigatoriedade de air bags e freios ABS. E, no último dezembro, três razões explicaram o resultado bastante positivo: as promoções para zerar estoques, grandes volumes de vendas diretas por parte também das maiores montadoras com o objetivo de defender liderança de mercado e, talvez a mais importante, a crença – confirmada no início de janeiro – de que o novo governo retiraria todos os subsídios fiscais.

Ou seja: nos dois meses tivemos razões que levaram a uma teórica onda de antecipação de compras no segmento de automóveis, popularmente conhecida no setor automotivo como pre-buy. Segundo o dicionário da língua portuguesa assinado por Aurélio Buarque de Holanda, a definição da palavra antecipação é fazer ocorrer antes da hora, precipitar.

Portanto, se houve, segundo a análise do próprio mercado, um movimento de antecipação de compras de automóveis em dezembro as perguntas que ficam são simples: 1) qual é a novidade de uma queda de vendas neste janeiro?, 2) depois do pacote de maldades do governo em janeiro alguém duvidou que isto pudesse ter sido diferente?, 3) no frigir dos ovos a média não foi boa para os dois meses, dezembro de 2014 e janeiro de 2015?

Já a situação dos caminhões é muito diferente, com a indústria realmente sendo obrigada a conviver com mais um início de ano difícil. O roteiro, neste caso, é praticamente igual ao visto no começo do ano passado, com as vendas quase que paradas por causa do ajuste exagerado nas operações de financiamento do BNDES via PSI.

Neste segmento parece que o governo realmente pode ter exagerado na dose do remédio e os transportadores podem estar achando o sabor das novas regras de financiamento meio que amargo. Está certo que do jeito que estava antes era muito fácil para qualquer empresa comprar caminhões e renovar suas frotas. Mas do jeito que ficou agora complicou demais.

De qualquer forma a grande maioria dos executivos do setor automotivo permanece em compasso de observação. Os que trabalham com o segmento de caminhões, em particular, aguardam o fim do primeiro trimestre para tomar suas decisões. Já os ligados aos demais segmentos do setor automotivo esperam o fechamento do semestre.
Todos já esperavam desde o ano passado as medidas de ajuste do governo e, com antecedência, prepararam suas empresas para isto. E, agora, torcem para que os reflexos sejam positivos e possam levar o País a um novo ciclo de estabilidade já a partir de julho.

Só que, mesmo assim, duas dúvidas ainda pairam no ar. A primeira refere-se à forma como a população reagirá a estas medidas de ajuste fiscal. Os brasileiros acreditarão na volta da prosperidade e retornarão às compras ou se assustarão e se afastarão?

A segunda e, talvez, até mais importante dúvida refere-se ao fato de que o pacote de maldades já oficializado teria de vir necessariamente acompanhado de uma série de bondades para facilitar a necessária competitividade da indústria brasileira. Só que isto, infelizmente, mais uma vez, parece que ainda ninguém sabe, ainda ninguém viu…

Janeiro deve fechar pouco acima de 250 mil unidades vendidas

O mercado brasileiro de autoveículos – automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus – registrou até a quinta-feira, 29, quase 239 mil emplacamentos de acordo com dados preliminares do Renavam obtidos pela Agência AutoData. Resta adicionar ao índice apenas mais um dia útil, a sexta-feira, 30, para obtenção do resultado final de janeiro.

A expectativa do varejo é de manutenção da média diária registrada até agora, muito próxima de 12 mil unidades, no último dia do mês, o que levaria o total para pouco além de 250 mil unidades.

Fonte do varejo se mostrou surpresa com o comportamento do mercado na última semana: geralmente as vendas aceleram no período, mas neste mês o movimento não se repetiu e apenas a média registrada nas semanas anteriores se manteve, sempre ao redor de 12 mil unidades/dia ou pouco abaixo.

Se confirmado resultado próximo das 250 mil unidades este janeiro representará queda ao redor de 20% ante mesmo mês de 2014, de 312,6 mil licenciamentos – melhor resultado para o mês da história, puxado por estoques de veículos oferecidos com desconto por não possuírem freios ABS e air bags, obrigatórios na linha de produção a partir daquele momento. Ante dezembro do ano passado, 370 mil unidades comercializadas, a retração seria ainda mais aprofundada, na faixa de 32%.

O número certamente é inferior ao esperado, vez que a expectativa inicial para o mês era de números um pouco mais animados pelo estoque de veículos faturados no ano passado, ainda com IPI reduzido, disponível na rede.

Caso o volume final próximo de 250 mil licenciamentos de autoveículos se confirme este será o janeiro mais fraco em vendas desde 2011, quando o mês fechou com 245 mil unidades. 2012 respondeu por 268 mil e 2013 por 311 mil, além de 2014 com suas 312 mil.

Os resultados oficiais do mês devem ser divulgados pela Fenabrave na segunda-feira, 2 de fevereiro.

CAMINHÕES – Os números prévios do Renavam indicam ainda licenciamento de 6,9 mil caminhões até a quarta-feira, 28. Somando-se mais dois úteis e caso mantida a média diária de até então, 362 unidades, o mês fecharia muito perto de 7,6 mil unidades do segmento emplacadas.

Este volume representaria baixa de cerca de 29,5% ante janeiro de 2014, de 10,8 mil caminhões vendidos, e de 44,5% na comparação com dezembro, 13,7 mil – disparado o melhor mês para o segmento no ano passado, devido à antecipação de compras pela expectativa de reajuste nas regras do Finame PSI para 2015.

Nos ônibus a preliminar do Renavam até quarta-feira, 28, indica 1,7 mil emplacamentos, o que projeta quase 1,9 mil unidades vendidas no total de janeiro. Com isso o segmento se destacaria no mês, com índice em crescimento de aproximadamente 8% ante janeiro de 2014, de 1,7 mil licenciamentos, ainda que em queda de cerca de 17% na comparação com dezembro, de 2,3 mil.

MAIS VENDIDOS – O Palio deverá iniciar o ano mantendo a liderança de vendas por modelo, conquistada em 2014. Até a quinta-feira, 29, de acordo com os dados do Renavam, o Fiat acumulava 13,4 mil emplacamentos, seguido pelo Chevrolet Onix, com 12,8 mil. A picape Strada fecha o pódio do período com 10,5 mil licenciamentos.

Chama a atenção a queda do Gol, apenas o oitavo em janeiro após o duro embate com o Palio pela liderança geral de 2014, em dezembro. O VW registra apenas 7,6 mil unidades licenciadas e, com isso, neste período está atrás, pela ordem, de Hyundai HB20, Fiat Uno, 8 mil, VW Fox e Ford Ka, ambos com 7,7 mil. Completam o top-10 faltando um dia para o fechamento definitivo do mês o Chevrolet Prisma, 7,3 mil, e Fiat Siena, 6,8 mil.

Caminhões tentam contornar mais um início de ano difícil

Enquanto as tesourarias e os departamentos de TI dos bancos trabalham para adequar seus sistemas às novas regras do PSI Finame algumas montadoras estão tomando iniciativas próprias para acelerar as vendas neste início de ano, que está se mostrando difícil para o segmento, assim como ocorreu em 2014 – ainda que por diferentes razões.

A Mercedes-Benz, por exemplo, decidiu oferecer rápida alternativa aos clientes por meio de seu banco: nova modalidade de financiamento mesclada com recursos do BNDES e do Banco M-B estará disponível a partir da quarta-feira, 28, para atender compradores que não podem esperar a chamada compatibilização dos sistemas – algo que ainda pode levar bastante tempo, estimada por fontes do mercado em pelo menos mais 40 dias.

Embora publicadas desde o fim do ano passado, as regras do Finame PSI para 2015 ganharam um remendo no acender das luzes do ano. O porcentual de financiamento do veículo foi elevado, porém de forma diferente da usual: pequenas empresas podem financiar 70% do valor do caminhão pelo BNDES, com taxas de 9,5% ao ano, enquanto as grandes ficam com no máximo 50% do valor a 10% ao ano.

Os outros 20% a 40% – os 10% de entrada exigidos pelas regras de 2015 foram mantidos – também podem ser financiados pelo banco de fomento, porém com taxas de juros que variam de acordo com a Selic ou uma cesta de moedas, 99% baseada no dólar e 1% no iene.

Roberto Leoncini, vice-presidente de marketing e vendas da M-B, explica que a nova modalidade gera dois boletos para o cliente: um com valor fixo, com a taxa de 9,5% ou 10%, e um com valor variável, com base na outra taxa.

Para tornar esse remendo operacional, considerando os sistemas do BNDES e dos bancos, adaptações internas são necessárias. Levar essas mudanças ao mercado, porém, tomará o tempo que a Mercedes-Benz não quer esperar. Por isso, revelou Leoncini, a modalidade adicional chegará ao mercado como alternativa ao cliente até que os financiamentos do PSI e do BNDES para 2015 se tornem efetivamente operacionais.

“Vamos oferecer a linha com os recursos do BNDES no fixo e o variável com base no capital de giro do cliente, com fundos do Banco Mercedes-Benz. Esperamos com isso movimentar o mercado, que está um pouco estagnado. Não há ninguém operando Finame.”

Leoncini admitiu que as vendas de caminhões estão fracas no primeiro mês do ano, devido principalmente à migração de sistemas do PSI. “Há o CDC, o leasing… o mercado não parou. Mas grande parte das vendas ocorre por meio do Finame.”

De acordo com dados preliminares do Renavam obtidos com exclusividade pela Agência AutoData os emplacamentos de caminhões acima de 3,5 toneladas registraram apenas 6 mil 87 unidades até segunda-feira, 26.

Este resultado, que equivale aos dezessete primeiros dias úteis do ano, aponta média diária de 358 caminhões, queda de 26% ante 489 registrada no total de janeiro de 2014. Se mantido esse ritmo o primeiro mês deste ano deverá fechar com 7,5 mil emplacamentos, o que representaria baixa de 30% ante os 10 mil 773 de janeiro do ano passado.

Além das atualizações de sistema, o VP da Mercedes-Benz espera pela regulamentação do Finame convencional, atrelado à TJLP. Essa modalidade ficou indisponível há cerca de duas semanas, afirma. “O PSI está no ar, a TJLP ainda não. A Anfavea está trabalhando para acelerar esse processo, mas nós só podemos aguardar e oferecer essas alternativas por meio do Banco M-B.”

Coexistência – Outra fonte do segmento confirma o cenário e acrescenta que o BNDES, na prática, cancelou as operações do Finame convencional, conhecido informalmente como TJLP, ao estabelecer data-limite para protocolos da modalidade até a terça-feira, 13 de janeiro.

A aposta do mercado era de que os clientes preferissem essa linha ao Finame PSI, que iniciou operações com as novas regras na segunda-feira, 19, porém apenas na modalidade convencional – ou seja, sem a simplificada.

De acordo com a fonte, “a aposta era pela coexistência das linhas e que a maioria dos financiamentos passassem a ser feitos pela TJLP, mais atrativa que o Finame PSI depois das taxas majoradas e maior porcentual de entrada. Contudo, o BNDES argumentou que o Banco Central não teria aporte suficiente para as duas linhas”.

Este cenário, entende a fonte, atrasará a recuperação do mercado em 2015, repetindo a dificuldade registrada no início do ano passado: “Pelo PSI na modalidade convencional todo o processo é mais demorado que na simplificada, desde o protocolo até o faturamento. Este cenário está sendo agravado pela necessidade de espera da adequação dos sistemas bancários. Esperamos um início de reação apenas após a segunda metade de fevereiro”.

Outro executivo do segmento acrescenta que a baixa neste início de ano também pode ser explicada, em parte, pela forte antecipação de compra ocorrida em novembro, quando os clientes já aguardavam pela majoração das taxas do Finame PSI para 2015 – tanto que os emplacamentos realizados em dezembro alcançaram o maior volume de 2014, com 13 mil 695 unidades.

Leoncini, de qualquer forma, segue projetando mercado de caminhões de tamanho similar ao do ano passado, com características parecidas: primeiro bimestre mais lento, prejudicado pela readequação dos financiamentos do BNDES, e aceleração a partir daí. O executivo citou outros pontos que podem prejudicar as vendas, como as medidas tomadas pelo novo ministro da Fazenda Joaquim Levy e as mudanças no frete, mas evitou rebaixar as expectativas.