Esta nossa Agência Autodata de Notícias e um tradicional jornal de São Paulo deram grande ênfase, semana passada, para o fato de que, neste janeiro, as vendas de veículos no Brasil registraram queda de aproximadamente 30% e 20%, respectivamente, com relação a dezembro e janeiro do ano passado em números redondos.
E o que é pior: reportagens publicadas também chamaram a atenção para o fato de que, neste mesmo janeiro, as vendas de automóveis e comerciais leves, analisadas em particular, caíram quase 30% e 18% também diante de dezembro e janeiro de 2014. E que os caminhões, por sua vez, também caíram 45% e 23% na mesma base de comparação.
Não há necessidade de se rever com profundidade os volumes propriamente ditos, porque estes números, divulgados pelo Renavam, já foram publicados pela Agência AutoData e não são, portanto, mais novidade para ninguém. Só que existe uma urgente necessidade de entender que esta leitura da estatística pode ser perigosa em razão de esconder alguns pontos importantes que podem levar a distorções interessantes na realidade dos fatos.
Neste caso das vendas de janeiro, por exemplo, existem duas situações bastante diferentes que devem ser obrigatoriamente observadas e entendidas. Uma delas, a mais complicada, refere-se ao segmento de caminhões, que realmente está sofrendo grandes dificuldades neste início de ano. E a outra diz respeito aos automóveis e comerciais leves, cuja queda de vendas nos primeiros dias de 2015 deve ser vista de forma um pouco diferente.
Mesmo levando-se em consideração que os dois segmentos vivem problemas distintos o primeiro fato que deve ser sempre lembrado para que esta análise seja feita em base realista refere-se ao fato de que os dois meses de comparação, janeiro e dezembro de 2014, registraram, respectivamente, o maior e o segundo maior volume de vendas destes meses em toda a história do setor automotivo brasileiro.
Janeiro do ano passado foi, nunca é demais lembrar, o mês em que teve início a obrigatoriedade de air bags e freios ABS. E, no último dezembro, três razões explicaram o resultado bastante positivo: as promoções para zerar estoques, grandes volumes de vendas diretas por parte também das maiores montadoras com o objetivo de defender liderança de mercado e, talvez a mais importante, a crença – confirmada no início de janeiro – de que o novo governo retiraria todos os subsídios fiscais.
Ou seja: nos dois meses tivemos razões que levaram a uma teórica onda de antecipação de compras no segmento de automóveis, popularmente conhecida no setor automotivo como pre-buy. Segundo o dicionário da língua portuguesa assinado por Aurélio Buarque de Holanda, a definição da palavra antecipação é fazer ocorrer antes da hora, precipitar.
Portanto, se houve, segundo a análise do próprio mercado, um movimento de antecipação de compras de automóveis em dezembro as perguntas que ficam são simples: 1) qual é a novidade de uma queda de vendas neste janeiro?, 2) depois do pacote de maldades do governo em janeiro alguém duvidou que isto pudesse ter sido diferente?, 3) no frigir dos ovos a média não foi boa para os dois meses, dezembro de 2014 e janeiro de 2015?
Já a situação dos caminhões é muito diferente, com a indústria realmente sendo obrigada a conviver com mais um início de ano difícil. O roteiro, neste caso, é praticamente igual ao visto no começo do ano passado, com as vendas quase que paradas por causa do ajuste exagerado nas operações de financiamento do BNDES via PSI.
Neste segmento parece que o governo realmente pode ter exagerado na dose do remédio e os transportadores podem estar achando o sabor das novas regras de financiamento meio que amargo. Está certo que do jeito que estava antes era muito fácil para qualquer empresa comprar caminhões e renovar suas frotas. Mas do jeito que ficou agora complicou demais.
De qualquer forma a grande maioria dos executivos do setor automotivo permanece em compasso de observação. Os que trabalham com o segmento de caminhões, em particular, aguardam o fim do primeiro trimestre para tomar suas decisões. Já os ligados aos demais segmentos do setor automotivo esperam o fechamento do semestre.
Todos já esperavam desde o ano passado as medidas de ajuste do governo e, com antecedência, prepararam suas empresas para isto. E, agora, torcem para que os reflexos sejam positivos e possam levar o País a um novo ciclo de estabilidade já a partir de julho.
Só que, mesmo assim, duas dúvidas ainda pairam no ar. A primeira refere-se à forma como a população reagirá a estas medidas de ajuste fiscal. Os brasileiros acreditarão na volta da prosperidade e retornarão às compras ou se assustarão e se afastarão?
A segunda e, talvez, até mais importante dúvida refere-se ao fato de que o pacote de maldades já oficializado teria de vir necessariamente acompanhado de uma série de bondades para facilitar a necessária competitividade da indústria brasileira. Só que isto, infelizmente, mais uma vez, parece que ainda ninguém sabe, ainda ninguém viu…
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