São Paulo — Primeiro vieram os carros. Há poucos anos, automóveis de marcas chinesas ainda eram vistos com desconfiança por boa parte dos consumidores brasileiros. Mas empresas como BYD e GWM, atualmente, disputam espaço com fabricantes tradicionais, acumulam recordes de vendas e obrigam rivais históricos a rever estratégias.
Movimento semelhante começa a ganhar força em outro segmento da indústria automotiva brasileira: o mercado de motocicletas. Fabricantes como CFMoto e Voge anunciaram, recentemente, o início das operações no País, com uma estratégia parecida com a dos automóveis. As novas marcas chinesas apostam em motocicletas mais
modernas, bem equipadas e com preço competitivo frente às concorrentes japonesas e europeias.
A chegada das novas marcas chinesas acontece justamente quando o mercado brasileiro de motocicletas vive um dos seus melhores momentos. Já acumula cinco anos de crescimento consistente e fechou 2025 com alta de 17,1% nos emplacamentos de motos em relação a 2024, atingindo o recorde histórico de 2 milhões 190 mil unidades vendidas no ano passado.
Ao mesmo tempo, os novos consumidores demonstram cada vez mais interesse por motos equipadas com eletrônica embarcada, conectividade e melhor relação custo-benefício. É justamente nesse espaço que as novas fabricantes tentam se posicionar.
Mais estruturadas
Além de aproveitarem a boa fase do mercado, as novas marcas chinesas chegam mais bem estruturadas, com montagem local, estoque de peças e uma estrutura de pós-venda que busca não repetir os erros de outras empresas chinesas no passado.
No caso da CFMoto, a operação brasileira foi estruturada com o Grupo Unique, de Piracicaba, SP, que já representa a marca no segmento de
quadriciclos e UTVs há mais de uma década. As motocicletas passaram a ser montadas em Manaus, AM, aproveitando uma estrutura que já existia antes mesmo da chegada das motos ao país.
A CFMoto desembarca com quatro motos em seu line-up, com modelos que vão de 450cc a 700cc, ou seja, apostando no segmento de média cilindrada, um dos que mais cresce no País nos últimos anos. Seus modelos, como a trail Ibex 450, se diferenciam por oferecer um bom pacote eletrônico, com modos de pilotagem e controle de tração, equipamentos antes vistos apenas em modelos maiores e mais caros. Parceira de longa data da Yamaha e da austríaca KTM no mercado chinês, a empresa de Hangzhou soube aproveitar o know-how adquirido em seus produtos.
O preço final de R$ 36 mil na Ibex 450, divulgado no final de maio, também surpreendeu os consumidores e a concorrência. O valor é o mesmo praticado para a Honda Sahara 300, que tem preço sugerido de R$ 32 mil 750, mas traz apenas freios ABS e um motor de um cilindro e menos potente.
“Desde o início, nosso compromisso foi estruturar uma operação que entregasse valor real. Comunicar o portfólio foi parte do processo, mas
trabalhar para chegar a preços que refletissem a realidade do mercado brasileiro e ao mesmo tempo elevassem a experiência foi uma prioridade estratégica. Hoje, colocamos nas ruas motocicletas com tecnologia avançada, posicionamento premium e acessibilidade concreta”, afirmou Gabriel Maschietto, CEO do Grupo Unique, durante a live de lançamento dos modelos nas redes sociais da marca.
A CFMoto iniciou suas vendas em 30 de maio, com a abertura de oito concessionárias em Caxias do Sul, RS, Curitiba, PR, Florianópolis, SC, Porto Alegre, RS, Piracicaba, SP, São Paulo e Rio de Janeiro, nos bairros da Barra da Tijuca e Madureira. Contempla, desta forma, mercados-chave nas regiões Sul e Sudeste.
Contudo, já existe um plano de expansão para novas praças estratégicas, incluindo cidades como Campinas, SP, além de Capitais no Centro-Oeste, Nordeste e Norte do País.
Além da rede de concessionárias estrategicamente distribuída pelo País, estoque de 35 mil itens de peças e revisões a preço fixo fazem parte do pacote para mitigar um dos principais receios do motociclista brasileiro: o pós-venda deficitário. Um problema que contribuiu para o insucesso de outras marcas chinesas no passado.
Voge aposta em posicionamento premium
Marca premium pertencente ao grupo chinês Loncin, a Voge também irá montar suas motos no Polo Industrial de Manaus em parceria com a Dafra. A empresa confirmou quatro motocicletas para a primeira fase de lançamento: as aventureiras DS900X e DS525X, além dos scooters SR4 Max e SR3. Os preços anunciados variam de aproximadamente R$ 35 mil a R$ 79 mil, posicionando a marca em uma faixa intermediária entre modelos japoneses tradicionais e algumas opções europeias.

Outro diferencial está na estratégia de posicionamento. Em vez de disputar mercado exclusivamente pelo menor preço, a Voge tenta construir uma imagem premium. A empresa destaca componentes de fornecedores globais reconhecidos, eletrônica embarcada e uma garantia de cinco anos para os modelos vendidos no Brasil, repetindo uma estratégia já vista nos fabricantes chineses de automóveis.
“A garantia de cinco anos é a materialização da nossa confiança na qualidade superior dos nossos produtos, nos componentes premium que utilizamos e na excelência da montagem local” afirmou o gerente geral da Voge Brasil, Rodrigo Moutinho.
Desafio pela frente
As novas fabricantes chinesas de motos chegam ao Brasil em um momento bastante propício. O consumidor está mais aberto a experimentar novas marcas e já viu a indústria chinesa conquistar espaço no segmento automotivo.
Mas ainda têm um enorme desafio pela frente. No mercado de motocicletas, uma robusta rede de concessionárias e disponibilidade de peças são fatores fundamentais para ganhar a confiança do consumidor.
Por isso, o futuro dessas marcas não será definido pelas motos que estão chegando às lojas agora, mas pela capacidade de continuar atendendo seus clientes daqui a cinco ou dez anos. Foi assim que os carros chineses conquistaram seu espaço. E parece ser esse o caminho que as motos chinesas tentam seguir agora.





