Colocadas as cartas na mesa, é hora, agora, de por a casa minimamente em ordem. E como as cartas não são nada boas, não há, desta vez, como fazer deste um processo indolor, ainda
que alguns sinais de relativa estabilidade do mercado comecem a jogar luz no fim do túnel.O que se tem como certo é que não há mais como evitar, neste ano, nova queda de vendas de veículos. E, mais uma vez, com índice de dois dígitos. Talvez, até, novamente acima de 20%.
Do front externo as notícias também não são boas: o dólar insiste em se manter na faixa de R$ 3,15, com duros reflexos na capacidade de competição internacional de qualquer produto fabricado aqui. E as projeções para o encerramento do ano não vão muito além de R$ 3,30. Se tanto.
Trata-se de situação bem mais complexa do que a enfrentada pelo setor neste mesmo período do ano passado.
Tal como agora, no início do segundo semestre de 2015 a indústria automotiva ainda vivia a surpresa gerada por acentuada e inesperada queda de vendas na primeira metade do ano. Cinco vezes maior do que a inicialmente projetada.
Havia, porém, a certeza de que a retomada era questão de alguns poucos meses à frente. E o PPE – Programa de Proteção ao Emprego, que então acabara de ser delineado, garantia a folga necessária para esperar sem grandes traumas por esses tempos melhores.
Na pior das hipóteses, o câmbio, em trajetória favorável, no rumo dos R$ 4, abriria as condições para, via exportações, compensar alguma nova dificuldade doméstica.
Na pratica, todavia, a tão esperada retomada não aconteceu. Bem ao contrário, o mercado caiu ainda mais no primeiro semestre deste ano e a saída da exportação acabou prejudicada pela inversão completa da relação cambial.
Daí vem a principal diferença da situação deste ano para o quadro de 2015. No ano passado, afinal, o problema a ser equacionado era queda de vendas de 20% em um ano, com projeção de retomada em seis a doze meses e retorno ao patamar anterior em, no máximo, dois anos.
Desta vez, porém, são quase 50% de redução – resultado de dois anos seguidos com queda na faixa de 20% –, alguma possibilidade de início da retomada alguns poucos meses adiante mas, agora, sem qualquer ideia de quanto tempo seria necessário para o retorno ao patamar anterior.
Ou seja: se em 2015, com alguma ajuda do PPE, lay-off ou redução da jornada de trabalho era até possível acomodar alguma ociosidade temporária dentro das linhas de montagem, neste ano a margem de manobra desapareceu e, agora, não há mais como postergar o ajuste da estrutura à nova realidade do mercado.
Nesta altura ninguém mais tem dúvida de que o setor mudou mesmo de patamar. Para baixo. E duas vezes, uma em 2015 e outra neste ano.
Em termos concretos, o setor automotivo voltou aos números de meados da década passada. Perdeu dez anos. Com o agravante de que agora há muito mais montadoras tentando conquistar o coração dos mesmos clientes.
Já em curso, o ajuste a ser feito é, portanto, grande, envolve todos os elos da corrente e exigirá muita disposição ao diálogo. Numa situação tão crítica como a atual, quanto mais negociadas, melhores e mais equilibradas tenderão a ser as soluções.
Neste contexto, o recente acordo da Volkswagen com seus funcionários pode ser bom exemplo: o ajuste do custo da estrutura foi buscado por meio de vários mecanismos simultâneos – redução de salários inclusive, ainda que de maneira indireta, via transformação em abono do reajuste a ser concedido em 2017. Mas as demissões em massa foram evitadas e a estabilidade garantida até 2021.
Notícias Relacionadas
Últimas notícias