Colaboração público-privada é uma constante para avançar tecnologicamente e descarbonização também está em pauta sem priorizar eletrificação
Taipé, Taiwan — A mobilidade em Taiwan é assunto sério. Embora a ilha seja pequena — com 36 mil km², um pouco maior do que o Estado de Alagoas, que tem 28,8 mil km² — sua preocupação com a segurança no trânsito, o uso de tecnologia e inteligência artificial nos veículos e a transição para meios de locomoção que poluam menos é enorme. E sua intenção não se resigna em apenas aplicar as soluções localmente, mas em também exportá-las mundo afora.
Com base no demonstrado durante o 360º Mobility Mega Show foi possível observar também que as empresas não caminham sozinhas nesta jornada. São diversas as iniciativas estabelecidas sob a forma de colaboração público-privada. O propósito é unir esforços para criar projetos que atinjam mais rapidamente o objetivo de promover mobilidade mais limpa e segura.
Em alguns casos o desenvolvimento é encabeçado por institutos tecnológicos ou centros de pesquisa junto a consórcio de empresas e, só então, o aprimoramento e a produção em escala fica por conta de empresas interessadas em comercializá-las.
Chamou atenção, a começar pelo tamanho do veículo estacionado no quarto andar do pavilhão do Taipei Nangang Exibition Center, o ônibus movido a célula de hidrogênio. Trata-se de protótipo desenvolvido pelo ITRI, Instituto de Pesquisa em Tecnologia Industrial, responsável pela pesquisa em tecnologia de integração de veículos de ônibus movidos a hidrogênio e também pelo apoio a empresas nacionais em seu crescimento nessa área.
Segundo Ming-Hao Wang projeto tem duração de dez anos com investimento anual de R$ 1,6 milhão, na conversão de dólares taiwaneses. Foto: Soraia Abreu Pedrozo.
Projeto de células de hidrogênio para ônibus urbanos tem ciclo de investimento de dez anos
Ming-Hao Wang, que trabalha no departamento de chassis e validação, integrante da divisão de tecnologia de mobilidade inteligente, laboratórios de pesquisa de sistemas mecânicos e mecatrônicos do ITRI, relatou que a iniciativa integra ciclo de desenvolvimento de dez anos. 2026 é o quarto, com a injeção anual de 10 milhões de dólares taiwaneses, o equivalente a R$ 1,6 milhão.
Wang contou que o ITRI mantém área dedicada à pesquisa de materiais químicos que atualmente está desenvolvendo células de combustível produzidas internamente — “Mas, por enquanto, temos apenas o desenvolvimento da solução, e não a sua produção”.
Diversas iniciativas de colaboração de empresas com institutos de pesquisa e testes pavimentam o futuro da mobilidade em Taiwan. Foto: Soraia Abreu Pedrozo.
IA a serviço da segurança no trânsito
Alex Chang, líder da divisão de novos negócios da Nutek Corporation, dedicada à segurança automotiva, partida remota do motor e indústria de eletrônica automotiva, apresentou sua empresa como uma das parceiras do ARTC, Centro de Pesquisa e Testes Automotivos, do Ministério de Assuntos Econômicos.
No estande havia o protótipo de um carro aberto, chamado de cabine inteligente, com quatro funções para serem demonstradas. Uma delas é o sistema de monitoramento do motorista com rastreamento ocular:
“Você pode ver que há um ponto vermelho aqui na tela. O radar é o sistema de identificação dos olhos, então o sistema embarcado no carro saberá se você está focada na condução, se não está identificando animais na pista ou qualquer obstáculo. Se estiver olhando para baixo, por exemplo, o piloto automático assumirá a direção”.
Outra funcionalidade é o status de alta velocidade e acionamento do freio: da mesma forma o sistema controlará o carro. Assim como se o motorista estiver sofrendo um ataque cardíaco, o que também será possível identificar, o piloto automático tirará o veículo da via e tratará de fazê-lo pará-lo em segurança: “Por enquanto isso ainda é um conceito. Mas, verdadeiramente, uma tendência”.
Simulador demonstra como algumas das funcionalidades propostas com o uso de IA acontecem na prática. Foto: Soraia Abreu Pedrozo.
Chang acredita que para este ano, ou no próximo, será possível fornecer o sistema a OEMs em Taiwan, inclusive a Foxconn. E, quem sabe, um próximo passo possa ser apresentá-lo à América Latina: “Em muitos locais, como Estados Unidos e Europa, as montadoras já lançaram este sistema, mas não em Taiwan”.
Gerente adjunto da equipe de tecnologia de percepção da divisão de pesquisa e desenvolvimento do ARTC, Centro de Pesquisa e Testes Automotivos, Chung-Yu Yeh reforçou que o foco é, realmente o trabalho colaborativo no desenvolvimento de tecnologias que usem a IA a seu favor rumo à condução autônoma.
Yeh contou que a ARTC já colaborou com a fabricante de ônibus Master, parceira do Paraguai, com quem Taiwan mantém acordo de cooperação econômica. E, independentemente da forma de propulsão do veículo, o importante é promover um trânsito mais seguro a partir da tecnologia: “Nosso foco está em sistemas de segurança”.
Drone ajuda veículos comerciais a trafegarem com mais segurança
Com um pouco mais de tempo de estrada, 43 anos, a E-lead Electronic desenvolveu, ao longo deste período, expertise em quatro principais áreas de produtos: displays head-up ou visor frontal de informações, sistemas de segurança do motorista, sistemas de infoentretenimento para o banco traseiro e acessórios automotivos relacionados ao carregamento.
Com orgulho o gerente de vendas Wayne Chen apresentava uma das soluções mais inovadoras na 360º Mobility: o sistema de drone de reconhecimento montado em veículo. Projetado especialmente para veículos comerciais de grande porte, nos quais os pontos cegos continuam sendo grande desafio de segurança durante manobras de marcha à ré, curvas e atracação, a solução conta com estação de atracação inteligente no teto, permitindo que o drone decole com um único toque a partir do interior do veículo.
“Uma vez no ar, ele fornece uma visão aérea em tempo real dos arredores do veículo, dando ao motorista o que descrevemos como um terceiro olho ou até mesmo uma visão panorâmica para uma consciência situacional muito melhor. Se o trânsito para, de repente, o drone pode averiguar o motivo, por exemplo, se foi acidente.”
Chen considerou o sistema particularmente valioso para caminhões e outros veículos grandes, nos quais espelhos e câmaras convencionais ainda podem ser insuficientes: “Em perspectiva aérea o sistema ajuda os condutores a compreenderem o ambiente ao redor de forma mais rápida e clara, melhorando tanto a segurança na direção quanto a eficiência operacional”.
Com apenas 249 gramas o drone tem este peso limitado porque, se ultrapassá-lo, terá de ser registrado e haverá áreas sobre as quais não poderá voar. Chen ressaltou que o equipamento não precisa ser operado manualmente. A ideia, segundo ele, é eliminar o erro da operação humana: “Então a saída é fixar onde o drone deve ir. Nós usamos a IA para determinar onde ele deve estar. Se quer ver o ponto cego do lado direito do carro é só pressionar um botão, e ele vai voar para a posição e altura certos”.
O drone ainda não está sendo produzido. A expectativa é que ainda este ano fique pronto, o que pode demorar um pouco mais, pois a tecnologia tem de ser integrada aos fabricantes de veículos.
Jeremy Liu contou que os produtos fabricados pela NHC estão livres de cobre, em uma ação da empresa para tornar o negócio mais sustentável. Foto: Soraia Abreu Pedrozo.
Fornecedores tradicionais também participam de eletromobilidade
No estande da NHC, tradicional fabricante de materiais de fricção, no mercado taiwanês desde 1961, o representante internacional de vendas Jeremy Liu demonstrou, ao saber da origem da reportagem, conhecer algumas informações sobre o Brasil, como a forte demanda por motocicletas no País, onde a empresa opera no mercado de reposição. Para tornar-se mais sustentável tem fabricado itens livres de cobre. Produz, principalmente, pastilhas de freio e outros componentes de frenagem para carros e motocicletas dos mercados de OEM e reposição, além de bicicletas e quadriciclos.
“Estamos sempre nos atualizando e, por isto, continuamente, temos produtos novos, uma vez que um veículo é lançado desenvolvemos itens que o atendam. Já temos pastilhas de freio até para Tesla.”