São Paulo – Durante décadas, a competitividade no transporte rodoviário de cargas esteve associada a fatores como frota, eficiência operacional, capilaridade e capacidade de atendimento. Agora um novo componente começa a ganhar peso nas decisões de embarcadores, investidores e operadores logísticos: a sustentabilidade.
Mas poucas empresas conseguiram transformar a agenda ESG em um projeto de negócios tão abrangente quanto a TransJordano. Com mais de 27 anos de atuação no transporte de produtos químicos, combustíveis e cargas industriais, a companhia acaba de dar um passo que pode redefinir sua trajetória de crescimento: tornou-se a primeira transportadora brasileira a obter financiamento do Fundo Clima, do BNDES, em uma operação de R$ 140 milhões destinada à aquisição de 109 caminhões Scania movidos a biometano e à implantação de uma rede própria de abastecimento por meio da expansão da GarageLog.
Mais do que um investimento em tecnologia o projeto marca uma mudança de posicionamento. A TransJordano passa a ocupar um espaço até então reservado a grandes grupos de energia, indústria e infraestrutura: o de protagonista da transição energética.
A criação de uma diretoria para acelerar a transformação
A dimensão do projeto ajudou a acelerar uma mudança organizacional dentro da própria companhia. Recentemente foi criada a diretoria de ESG e relações institucionais, posição assumida por Joyce Bessa, executiva com mais de duas décadas de atuação na TransJordano e uma das principais responsáveis pela estruturação da estratégia sustentável da companhia.
Segundo ela, a criação da área surgiu da necessidade de organizar uma agenda que deixou de ser complementar para se tornar estratégica.
“Quando mergulhamos nesse projeto percebemos que precisávamos estruturar uma diretoria específica. Os temas ligados a ESG ainda são relativamente novos para boa parte do mercado. Existe muito aprendizado acontecendo ao mesmo tempo e a empresa precisava de uma área dedicada a conduzir essa transformação”.
Na prática, a mudança consolida um trabalho que já vinha sendo desenvolvido internamente. Joyce liderou a construção do relatório de sustentabilidade da empresa, participou das negociações institucionais do projeto e passou a atuar diretamente na integração entre estratégia corporativa, sustentabilidade e relacionamento com stakeholders.
Os 109 caminhões são apenas o começo
A compra dos 109 caminhões Scania representa uma das maiores iniciativas privadas de adoção de biometano no transporte rodoviário brasileiro. Os primeiros veículos começam a chegar em agosto e serão incorporados à frota da companhia, que atualmente opera cerca de setecentos conjuntos, dentre cavalos mecânicos e implementos.
Os novos caminhões utilizarão cilindros adicionais para ampliar a autonomia operacional, permitindo percursos próximos de 600 quilômetros entre abastecimentos. A escolha da Scania ocorreu após análises envolvendo desempenho, confiabilidade operacional, disponibilidade da tecnologia e custo total de propriedade.
Mas, para Joyce, o investimento não se resume à renovação da frota: “Estamos falando de uma transformação completa do modelo operacional. Não basta comprar caminhões sustentáveis. É preciso criar condições para que eles operem, cresçam e façam sentido economicamente para todo o ecossistema.”
O nascimento dos corredores verdes
Foi justamente dessa visão que nasceu o conceito dos corredores verdes da TransJordano. O projeto prevê a implantação de novas unidades da GarageLog em Sumaré e Ribeirão Preto, SP, ampliando um modelo que já funciona em Cubatão, SP.
A proposta vai muito além de um simples posto de abastecimento: as novas estruturas oferecerão biometano, diesel, áreas de apoio aos motoristas, lavanderia, espaços de convivência, serviços operacionais e infraestrutura de segurança patrimonial.

O diferencial está na abertura da operação para terceiros. Enquanto boa parte dos projetos de abastecimento alternativo no transporte brasileiro nasce para atender exclusivamente frotas próprias, a TransJordano decidiu abrir suas instalações para outras transportadoras.
“Se cada empresa construir seu próprio ponto de abastecimento, a expansão do biometano será muito mais lenta. Nós entendemos que precisávamos contribuir para a formação de um ecossistema”.
A expectativa inicial é atender os 109 caminhões da própria operação e receber de 20 a 30 veículos de terceiros em cada região logo nos primeiros meses.
Contudo, a capacidade instalada será significativamente superior. Em Sumaré a infraestrutura poderá movimentar cerca de 450 veículos por dia. Já em Ribeirão Preto, o potencial chega a aproximadamente 350 veículos diariamente.
Quando ESG gera negócios
A aposta na sustentabilidade já começa a produzir efeitos comerciais concretos. Segundo Joyce Bessa a TransJordano passou a participar de negociações e processos de contratação que antes não estavam acessíveis à companhia.
O motivo é simples: cada vez mais embarcadores precisam reduzir suas emissões indiretas, conhecidas como emissões de Escopo 3, aquelas geradas ao longo da cadeia logística. Empresas listadas em bolsa, multinacionais e grandes grupos industriais passaram a buscar parceiros capazes de contribuir para suas metas ambientais.
“Hoje estamos sentando em mesas onde não sentávamos antes. Os clientes querem entender quanto carbono deixarão de emitir, qual será o impacto ambiental da operação e como isso contribui para suas metas de descarbonização.”
Esse movimento abre espaço para a entrada da TransJordano em novos segmentos de mercado além dos setores onde já possui forte atuação, como combustíveis, químicos e agronegócio.
O biometano como aposta estratégica
Embora o transporte pesado acompanhe diversas rotas tecnológicas de descarbonização, a TransJordano acredita que o biometano reúne características únicas para a realidade brasileira. O combustível pode ser produzido a partir de resíduos da agroindústria, aterros sanitários e atividades pecuárias, transformando passivos ambientais em energia renovável.
Além disso, apresenta potencial de redução de até 95% das emissões de CO₂ quando comparado ao diesel. Para Joyce Bessa o Brasil oferece vantagens competitivas difíceis de replicar em outros mercados.
“O País tem enorme disponibilidade de resíduos agrícolas e sucroenergéticos. Existe uma oportunidade de criar uma economia circular extremamente eficiente, gerando combustível renovável, reduzindo emissões e criando novas cadeias de valor.”
O fornecimento inicial de biometano para os corredores verdes será realizado pela Ultragaz.
O desafio humano da transformação
Se a tecnologia representa uma das bases do projeto, as pessoas seguem ocupando papel central na estratégia. A expansão da frota exigirá a contratação de aproximadamente 130 novos motoristas. Parte desse esforço estará concentrada no aumento da participação feminina na operação.
Hoje, a empresa trabalha para ampliar a presença de mulheres na condução de veículos de nove eixos, um dos segmentos mais desafiadores da atividade. A meta prevê que pelo menos seis ou sete das novas contratações sejam mulheres, número considerado ousado diante da escassez de profissionais qualificadas no mercado.
Segundo Joyce Bessa o principal desafio não está na atração, mas na formação. “Não faltam candidatas. O que falta é experiência. Muitas vezes precisamos investir meses de treinamento até que essas profissionais estejam prontas para atuar de forma totalmente independente.”
A executiva também destaca que a valorização dos motoristas faz parte da cultura da empresa. Programas de reconhecimento, comunicação interna, premiações e iniciativas voltadas à conscientização ambiental ajudam a aproximar os profissionais da estratégia corporativa.
Uma delas converte indicadores de economia de combustível em benefícios ambientais tangíveis, permitindo que os motoristas visualizem quantas árvores deixaram de ser impactadas por suas práticas de condução.
Uma nova fase para uma empresa familiar
O movimento liderado pela TransJordano também reflete uma transformação mais ampla no universo das empresas familiares brasileiras. Embora representem cerca de 90% dos negócios do País, poucas conseguem atravessar ciclos de crescimento mantendo competitividade diante das novas demandas do mercado.
Para Joyce Bessa preservar o legado não significa resistir às mudanças: “Existe uma tendência de associar legado à manutenção de tudo como sempre foi. Mas preservar um legado significa garantir que a empresa continue relevante, preparada e competitiva diante das transformações que estão acontecendo.”
A visão ajuda a explicar por que uma transportadora fundada no Interior paulista decidiu investir simultaneamente em biometano, infraestrutura energética, governança, desenvolvimento de pessoas e novas oportunidades de mercado.
Mais do que acompanhar uma tendência, a TransJordano busca ocupar uma posição de liderança em um setor que começa a redefinir seus próprios modelos de crescimento. E, se os planos avançarem como previsto, os 109 caminhões que começam a chegar em agosto podem representar apenas o primeiro capítulo de uma transformação muito maior.




