Na Busworld o ônibus foi o menos importante

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Por José Carlos Secco*

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25/10/2019

Bruxelas, Bélgica – O ônibus como produto não foi o principal destaque dos expositores na Busworld Europe 2019, feira encerrada na quarta-feira, 23, em Bruxelas, Bélgica. Muitos modelos foram lançados ou apresentados, mas o discurso dos fabricantes se concentrou nas suas novas tecnologias – e as vantagens oferecidas – para uma solução completa de mobilidade.

 

O discurso adotado pelos fabricantes é de que eles não mais apenas produzem ônibus: mudaram de patamar, são os desenvolvedores da tecnologia que vai mudar a realidade da mobilidade urbana mundial. Cada um com a sua própria solução de powertrain de eletrificação ou hibridização, todos criaram empresas específicas e focadas na inovação ou se associaram a outras para não dependerem de nenhum fabricante de bateria ou motorização.

 

Todas as grandes empresas do setor apresentaram seus modelos 100% elétricos, híbridos, plug-in e recarregáveis em rede externa, mas os produtos foram apresentados como parte de um pacote muito maior e mais complexo, que vai direcionar toda a mobilidade urbana do futuro. O cliente não vai mais comprar ônibus apenas: ele vai receber um pacote completo no qual o ônibus é apenas um dos diferentes componentes, não necessariamente o mais importante.

 

Gestão da frota, tecnologias das baterias elétricas, gerenciamento total dos veículos, arquitetura de toda a infraestrutura necessária para atender o cliente, como comprimento da linha, volume de passageiros, requisitos de energia, para tornar o transporte coletivo urbano uma experiência muito mais agradável, confortável, eficiente, rápida e sustentável, com zero ou quase zero emissão.

 

Um a um dos fabricantes destacaram suas vantagens e porque suas tecnologias são as melhores e mais indicadas para o mercado, a mobilidade e a sustentabilidade das cidades. Mas nenhum apresentou elementos suficientes para que houvesse a possibilidade de comparações. A briga foi mostrar o quanto as novas tecnologias permitiam baterias menores, mais leves e com recarga mais rápida.

 

Os potenciais clientes também ganharam importância e relevância decisória. Não são mais apenas os operadores de transporte, mas sim os governos de cada cidade ou região. Por envolver muito mais do que um produto e estar diretamente ligada à sustentabilidade, à preservação ambiental e à qualidade de vidas nas cidades, os governantes estão de certa forma assumindo o controle – e são eles que vão decidir sobre qual solução será aplicada em sua cidade.

 

Com isso, o poder de negociação cresceu, assim como o tamanho das contas a serem atendidas. Uma vez escolhida determinada solução de um fabricante, toda a estrutura de transporte daquela cidade será desenhada para atender aquela arquitetura, o que envolverá muito mais do que somente o ônibus, quer ele seja elétrico, híbrido, a combustão ou qualquer outra forma de propulsão.

 

A realidade que está sendo proposta é completamente diferente do que vimos até hoje. Os novos ônibus eletrificados demandam tanta tecnologia de infraestrutura como de aplicativos e gestão. E os fabricantes querem participar de tudo isso ativamente. Para cada cidade, cliente ou sistema, uma solução sob medida, desde a tecnologia de propulsão até a infraestrutura viária, passando até pelo descarte ou reaproveitamento dos veículos no futuro.

 

O novo cenário da indústria mundial do ônibus, ainda terá muitos capítulos e deverá mudar muito, em velocidade cada vez maior. Será necessário acompanhar os próximos passos para se entender realmente para que lado tenderá e seguirá. Enquanto isso não se cristaliza, vários fabricantes anunciaram contratos de fornecimento para cidades da França, Bélgica, Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos, entre muitos outros. Cada um adotando uma tecnologia e solução diferente que não envolve apenas a entrega de veículos.

 

*colaboração para a Agência AutoData

 

Foto: Divulgação.