São Paulo – O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, finalmente obteve uma resposta positiva para algo que vinha cobrando há meses dos fabricantes de veículos: a volta do Salão do Automóvel. Em reunião na tarde desta terça-feira, 7, no Palácio do Planalto em Brasília, DF, representantes da Anfavea e presidentes das empresas associadas confirmaram a Lula que o evento voltará a ser realizado no fim do ano que vem.
Após quase quatro anos de intensas negociações com as empresas associada à Anfavea, decidiu-se que o Salão do Automóvel será realizado, de 22 de novembro a 1º de dezembro de 2025, no novo Anhembi – o espaço que abrigou a maior parte das edições do evento até 2014 e que foi completamente reformado no último ano.
O nome Salão do Automóvel foi mantido e o evento, como nos anteriores, estará aberto não só às associadas da Anfavea mas também às de outras entidades correlatas, como os importadores filiados à Abeifa e os fabricantes de veículos elétricos que estão na ABVE. Também está no foco trazer à exposição empresas e fornecedores do setor para mostrar suas tecnologias, especialmente as ligadas à mobilidade de baixa emissão de carbono.
Mudança de modelo
A ideia desta vez, segundo a Anfavea, é seguir exemplos já adotados por exposições similares em Pequim, Munique e Detroit, além do sempre cobiçado modelo da CES, a feira de tecnologia eletrônica de Las Vegas, que a cada ano recebe mais fabricantes de automóveis como expositores.
Atendendo aos pedidos de suas associadas a Anfavea pretende realizar um salão mais pé-no-chão, sem os estandes caros e espalhafatosos de edições anteriores, mais focado em tecnologias e produtos e com oferta de test drives.
Desde a última edição do Salão do Automóvel de São Paulo, realizado em 2018 pela segunda vez no SP Expo, alguns dos principais expositores vinham manifestando descontentamento com o evento, considerado muito caro e de baixo retorno, apesar de sempre atrair bom público – foram 740 mil visitantes em 2018.
No início de 2020, antes mesmo dos efeitos da pandemia de covid-19, o evento bianual que estava previsto para ser realizado naquele ano começou a sofrer com cancelamentos de participação, como Toyota, BMW e General Motors, e acabou sendo suspenso enquanto a Anfavea prometia estudar um novo modelo que agradasse mais. Contudo, com o avanço da pandemia, nada foi adiante e o salão foi cancelado de vez.
Com a covid sob controle o assunto voltou às discussões da Anfavea que, no começo de 2022, anunciou a morte do Salão do Automóvel e o nascimento do São Paulo Motor Experience, que seria realizado em agosto do mesmo ano no Autódromo de Interlagos, com a utilização dos boxes para exposição das montadoras e da pista para test drives, além de permitir venda de carros usados e a compra de novos no evento.
O evento, que chegou a ser dado como certo e chegou a reservar espaços para expositores, foi simplesmente esquecido sem explicações, mas o formato proposto foi aproveitado pelos organizadores do Festival Interlagos que vem sendo realizado anualmente.
Negociações difíceis
Internamente, a atual gestão da Anfavea, do presidente Márcio de Lima Leite, que assumiu em abril de 2022, sempre tentou retomar o Salão do Automóvel, mas muitas das associadas não quiseram voltar a ter um custo alto que já tinham deixado de ter e que consideravam desnecessário no contexto atual do mercado automotivo nacional.
Até certo ponto o cenário externo contribuiu para a desistência do salão brasileiro: alguns dos mais tradicionais salões do mundo, antes mesmo da pandemia, já sofriam com redução de expositores que consideravam o modelo ultrapassado e diziam que não mais participariam de mostras estáticas sem interações mais próximas com o público.
Na Alemanha o histórico Salão de Frankfurt foi cancelado, dando lugar a Munique em formado menor e mais dinâmico. Genebra, na Suíça, desistiu do evento após dois cancelamentos. Nos Estados Unidos a Capital da indústria, Detroit, também passou por grande decadência: mudou sua data para o Verão, não deu certo e voltará a ser realizado no gélido inverno de Michigan, em janeiro de 2025. Já o centenário Salão de Paris, após perda de brilho e várias mudanças, será realizado novamente neste outubro e está retomando sua força com a volta de vários expositores e a chegada de novos, principalmente chineses.
Olhando para esses movimentos, há cerca de um ano, a Anfavea reformulou a proposta do evento e chegou até a reservar o novo Anhembi para tentar convencer as associadas a fazer o salão em novembro deste ano. Nada feito.
Pressão presidencial
Em abril, durante a inauguração da nova sede da Anfavea, em São Paulo, o presidente Lula em pessoa foi enfático em cobrar a volta da realização do evento: “Eu adoro o Salão, o brasileiro adora o Salão do Automóvel. Não é possível que um país do tamanho do Brasil não tenha o seu Salão do Automóvel, ele atrai a atenção do brasileiro, de outros países. Por favor, presidente [Márcio de Lima Leite]: retomem o Salão do Automóvel!”.
E nos meses seguintes o presidente da República continuou cobrando o setor, tanto em mensagens que mandou por meio de entrevistas a diversos veículos de imprensa como em ligações diretas a Lima Leite, segundo relatam fontes. Mas as associadas não se comoveram e seguiram fazendo jogo duro.
Para Lula já era hora de as montadoras retomarem o salão, especialmente depois que seu governo concedeu a elas quase tudo que pediram, como o plano emergencial de compra de veículos com descontos patrocinados com créditos tributários do governo, que salvou a indústria de um resultado ruim em 2023, e a aprovação, este ano, do Mover, Programa Mobilidade Verde e Inovação, que pelas contas da Anfavea já atrai R$ 130 bilhões em investimentos.
O presidente da República sempre argumentou que uma indústria deste tamanho – em 2023 o Brasil foi o nono maior fabricante e sexto maior mercado de veículos do mundo – deveria retomar a tradição do salão que, por décadas, encantou o público brasileiro e chegou a ser o terceiro maior do mundo em número de visitantes.
Mesmo não sendo uma feira comercial de venda de carros o Salão do Automóvel sempre foi reconhecido como um impulsionador indireto do mercado, pois apresentava novidades que estimulavam a demanda por veículos.
Apesar da pressão presidencial as negociações internas na Anfavea andaram devagar: o modelo foi novamente refeito e apresentado para que o evento fosse realizado em março de 2025, já no fim da gestão de Lima Leite na presidência da entidade. Como era de se esperar ninguém topou a data.
Após alguns refinamentos na proposta e o agendamento da data para novembro de 2025 – período mais próximo de quando foram realizadas as outras edições – o salão será finalmente retomado.