São Paulo — A pressão crescente provocada pela alta do diesel segue em curso e o risco de tensão no transporte rodoviário está no radar, ainda que os caminhoneiros tenham, por ora, afastado o risco de entrar em greve, possibilidade que vinha sendo ventilada nos últimos dias. Segundo Lauro Valdívia, assessor técnico da NTC&Logística, a defasagem no repasse do combustível ao frete é o principal ponto de atenção do setor.
Em assembleia realizada no Sindicam na quinta-feira, 19, considerada representativa para a categoria, os caminhoneiros decidiram não iniciar paralisação neste momento. A mobilização foi adiada por sete dias, com nova avaliação marcada para 26 de março. Segundo o presidente da entidade, Luciano Santos, o cenário ainda é de negociação com o governo.
Para Valdívia a ausência de greve neste momento se justifica pelo estágio inicial da escalada de preços: “Ainda é muito recente. Não dá para afirmar que o aumento do diesel não está sendo repassado ao frete. Por isto não vejo motivo para paralisação agora”.
Apesar disso ele destacou que a pressão sobre as transportadoras já é relevante. O diesel representa cerca de um terço dos custos operacionais e, quando há aumento sem repasse imediato, o impacto é direto no caixa das empresas: “O problema não é o aumento em si mas a falta de repasse. Quando o diesel sobe e a receita não acompanha na mesma velocidade a pressão vai aumentando até estourar”, disse, ao citar como referência a greve dos caminhoneiros de 2018.
Hoje, segundo ele, há uma tentativa de diminuir este efeito com o piso mínimo do frete, que vem sendo reajustado conforme o diesel. Ainda assim o intervalo do aumento do combustível à revisão dos contratos, que pode levar de trinta a sessenta dias, mantém o setor sob pressão. Neste período empresas recorrem a caixa próprio e adiam investimentos: “Muita gente vai postergar a renovação de frota para bancar este aumento. Mas isto tem limite”.
Valdívia avaliou que não há, por ora, risco relevante de desabastecimento, apesar de relatos pontuais. O principal ponto de atenção continua sendo uma eventual paralisação com bloqueio de rodovias: “O setor está estruturado, mas depende da circulação. Se travar a estrada não adianta ter caminhão disponível”.
No campo político a expectativa se volta para as negociações com o governo federal. O ministro da Secretaria Geral da Presidência, Guilherme Boulos, deve se reunir com representantes da categoria nos próximos dias.
Para o executivo o cenário ainda é de incerteza, com risco de agravamento caso a alta do diesel persista sem repasse ao frete: “Por enquanto está sob controle, mas este equilíbrio é frágil.”