São Paulo — A escalada do preço do diesel, provocada pelos ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, ganhou intensidade e já anula, na prática, os efeitos das medidas adotadas pelo governo federal para conter a alta. Dados do IBPT, Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação, mostram que gasolina acumula aumento superior a 19% no mês e levantamento da Veloe/Fipe indicam que o litro já chegou a R$ 7,17.
O movimento ocorre mesmo após a isenção de PIS/Cofins e a criação de uma subvenção para produtores e importadores. Segundo o Ministério da Fazenda o pacote poderia reduzir o preço em até R$ 0,64 por litro. Na prática, porém, o efeito foi neutralizado poucos dias depois com o reajuste promovido pela Petrobras para as distribuidoras.
Em entrevista à Agência AutoData, Vinícios Fernandes, diretor de unidades de negócio da Edenred Mobilidade, avaliou que os dois movimentos tendem a se compensar no curto prazo: “A desoneração deveria gerar uma redução de cerca de 32 centavos, mas o reajuste da Petrobras, mesmo não chegando integralmente à bomba, acaba praticamente anulando este efeito”.
Além disso há um intervalo que separa os anúncios do impacto efetivo nos postos: “Não é imediato. Existe o tempo de repasse das distribuidoras, então esses efeitos acabam se equilibrando ao longo dos dias”.
Pressão internacional
A alta recente está diretamente ligada ao cenário externo com a escalada da guerra dos Estados Unidos e Israel com o Irã. O conflito elevou o preço do petróleo e aumentou a volatilidade global, com reflexos imediatos no Brasil. Segundo o IBPT o avanço deixou de ser pontual e passou a ganhar tração ao longo do mês, com aumentos mais disseminados, inclusive acima de 20% em regiões como Centro-Oeste e Nordeste.
Fernandes reforçou que o ambiente externo tem sido determinante: “Desde o começo do conflito o diesel já acumula alta próxima de 20%. O Brent subiu muito e o câmbio também segue pressionado”.
Outro fator é a dependência de importações. De acordo com o analista de 20% a 25% do diesel consumido no País vem do Exterior, o que amplia a exposição às oscilações internacionais.
Medidas perdem força
Diante da alta o governo federal tentou ampliar o pacote de contenção e propôs que estados e o Distrito Federal zerassem temporariamente o ICMS sobre a importação do diesel, com compensação de 50% das perdas de arrecadação pela União. A medida surgiu após resistência inicial dos governadores em reduzir o imposto, que representa cerca de 20% do preço final do combustível.
Mesmo com as iniciativas os preços seguem em alta. Levantamento da ANP aponta que o diesel subiu mais de 11% em apenas uma semana, evidenciando a dificuldade de conter o avanço. Na avaliação de Marcelo Rodrigues, presidente da Setcesp, o efeito das ações é limitado.
“São medidas paliativas. O gesto do governo é importante, mas não tem eficácia neste momento porque o preço disparou.”
Para ele uma solução mais efetiva dependeria de atuação direta sobre o preço: “Se houvesse a possibilidade de subsidiar parte do diesel, principalmente considerando a participação da Petrobras, poderia ser uma medida mais eficaz”.
Impacto direto no transporte
Como o diesel é o principal custo do transporte rodoviário o movimento já pressiona toda a cadeia logística. De acordo com Fernandes, da Edenred, o combustível representa de 35% a 45% dos custos operacionais de uma transportadora: “Se o aumento não for repassado ele impacta diretamente a margem, ou pode levar a prejuízo”.
Já Marcelo Rodrigues pontuou que o impacto é imediato na operação: “A velocidade de reajuste na bomba é muito mais rápida do que a atualização dos contratos. Existe um prazo até que o transportador consiga repassar este custo”.
Ele também apontou preocupação adicional com o abastecimento: “Além do preço o que preocupa é uma eventual falta de diesel, que impactaria diretamente a operação”.
Na prática as empresas buscam renegociar contratos com clientes, mas o processo não é imediato. Em operações sem contratos estruturados, especialmente no mercado spot, há casos em que transportadores optam por não rodar: “Houve relatos de empresas recusando cargas por não conseguirem repassar o custo do frete”.
A volatilidade também já levou a ajustes regulatórios. A ANTT realizou recentemente uma revisão extraordinária do piso mínimo do frete após variação superior a 5% no diesel.
O impacto, segundo o presidente da Setcesp, é imediato para transportadores autônomos e para pequenas empresas, que não contam com contratos atrelados ao diesel nem com estruturas de abastecimento próprias: “Eles sentem muito mais rápido. Têm menor poder de negociação e abastecem diretamente no preço do posto”.
Já grandes frotistas conseguem amortecer parte da volatilidade com contratos e gestão de abastecimento.
Efeito na economia e risco inflacionário
Com cerca de 65% das cargas transportadas por rodovias no Brasil a alta do diesel tende a se espalhar pela economia. O aumento do frete eleva o custo dos produtos e pode pressionar a inflação. De acordo com o diretor de unidades de negócio na Edenred Mobilidade o impacto é mais intenso em setores de menor valor agregado, como o agronegócio, onde o frete pode representar até 25% do custo final. Em segmentos como eletrônicos e farmacêuticos esse peso varia de 5% a 10%.
Rodrigues, da Setcesp, afirmou que o repasse ao consumidor é inevitável, embora não imediato: “Este aumento chegará ao consumidor final. No setor alimentício o impacto tende a aparecer mais rápido”.
Segundo o IBPT o avanço dos preços dos combustíveis em março já deve se refletir no índice de preços do mês.
Tendência incerta
Apesar das medidas em discussão o cenário segue indefinido. A evolução do conflito no Oriente Médio, a variação do câmbio e eventuais mudanças tributárias continuam sendo os principais fatores de influência, segundo Fernandes: “Ainda é muito difícil prever. Temos variáveis externas muito fortes e possíveis movimentos internos, como mudanças no ICMS”.
Do lado das transportadoras o cenário é de cautela, apontou Rodrigues: “Estamos aplicando reajustes, mas não vemos uma luz clara no curto prazo”.
Ele também apontou que empresas têm buscado alternativas para reduzir impactos, como diversificação de fornecedores de combustível, diante de um ambiente de forte volatilidade. Além disso o setor acompanha com preocupação o risco de paralisações.
“Há um risco iminente de mobilização de caminhoneiros autônomos. Qualquer interrupção pode trazer impactos relevantes para a logística.”