São Paulo – Pneus fabricados no Brasil têm, em média, sobrevida 16% maior no processo de reforma do que itens importados. É o que aponta estudo inédito da Junsoft, empresa de tecnologia para o segmento de recapagem com base nos dados de seu sistema, presente em 20% das 1,3 mil reformadoras certificadas pelo Inmetro.
A análise considerou 709 mil pneus de caminhões e ônibus, de quatrocentas marcas, processados em seu sistema de janeiro de 2025 a maio deste ano, o que representa 15% do universo nacional de todos os pneus dos segmentos recapados. Segundo a Junsoft o mercado de recapagem no país movimenta R$ 7 bilhões por ano.
O estudo apontou que itens fabricados localmente apresentam, em média, maior potencial de reforma. Enquanto a quantidade média de vidas de um pneu local é de 1,94, praticamente duas reformas ao longo de sua trajetória, a média dos importados cai para 1,78.
A maior diferença aparece ao fim da primeira vida do pneu, quando a carcaça chega à reformadora para a primeira avaliação do seu potencial de recapagem: nesta etapa, de acordo com a Junsoft, os importados registram taxa de rejeição e descarte de 21,6%, contra 16,9% dos nacionais. Na prática isto significa que de um a cada cinco pneus importados é rejeitado logo na primeira tentativa de reforma.
Maior variedade embute menor qualidade
Guilherme Gazzoni, CEO da Junsoft, ressaltou que há pneus importados de excelente qualidade, com capacidade de superar quatro vidas, o que significa pelo menos três recapagens. A questão, segundo ele, é a alta variedade de marcas chegando ao mercado brasileiro com padrões de qualidade e propósitos de uso muito distintos, combinada com compra orientada apenas pelo preço inicial – sem considerar o custo total de uso.
“O mercado passou a conviver com uma oferta muito ampla de marcas e padrões de qualidade. Há importados excelentes, mas também há pneus com carcaças que não resistem nem à primeira tentativa de reforma. Já no pneu nacional a variabilidade é menor, embora também haja diferenças”, afirmou Gazzoni. “Quando o consumidor olha apenas para o preço de prateleira pode pagar mais caro no longo prazo, porque precisa substituir o pneu com mais frequência.”
O levantamento da Junsoft chama atenção ao fato de que, para transportadores e frotistas, o pneu de menor preço inicial pode perder atratividade quando analisado pelo custo por quilômetro. E, como a recapagem custa uma fração do valor de um pneu novo, uma carcaça com baixo potencial de reforma obriga a compra de pneus zero com mais frequência, anulando parte da economia obtida na aquisição.
Desafio de maior descarte é realidade
E este impacto se multiplica no meio ambiente. Segundo Gazzoni o Brasil tem a segunda maior indústria de recapagem de pneus do mundo, atividade que contribui para reduzir o descarte de borracha e aço. Quando pneus com menor potencial de reforma entram em circulação em grande volume cresce, também, o desafio de destinação adequada dos resíduos.
“Estamos falando de toneladas de matérias-primas. Se um caminhão utiliza pneus de alto desempenho ao longo de vinte anos, capazes de serem reformados três vezes, gera determinado volume de sucata. Se opta sempre por pneus com apenas uma possibilidade de recapagem o volume de descarte pode ser o dobro, estimado em mais de 6 toneladas por caminhão ao longo dessas duas décadas.”
Segundo o CEO o estudo também oferece às reformadoras uma base objetiva para orientar seus clientes. Ao demonstrar, por meio de dados, quais tipos de pneus apresentam maior potencial de reaproveitamento, as empresas do setor conseguem apoiar frotistas na escolha de modelos que combinem segurança, eficiência operacional, economia e menor impacto ambiental.
O dado ganha relevância em um momento de mudança acelerada no mercado brasileiro de pneus. O produto nacional, que respondia por 73% das vendas ao mercado doméstico em 2020, caiu para participação de 41% em 2025, de acordo com dados da Anip, Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos, porcentual que baixou para 31% no primeiro quadrimestr e deste ano. Neste período a crescente presença das marcas, apesar de ter ampliado a variedade, passou a reunir desde produtos de alto desempenho até itens com menor potencial de reaproveitamento.








