No desembrulhar do seu Rise of the Robots [Basic Books, 2015], recém-lançado em português também, Martin Ford, empreendedor do Vale do Silício, nos Estados Unidos, toma emprestado matéria do Washington Post de 2 de janeiro de 2010 para destacar ter sido a primeira década do século 21 a primeira, desde o fim da segunda guerra mundial, a apresentar zero de crescimento na criação de empregos naquele país.
E mais: também foi a primeira desde a grande depressão dos anos 20 a apresentar menos de 20% no crescimento dos postos de trabalho. Mais adiante, refere-se Ford ao fato da robótica e o avanço da tecnologia estarem crescentemente impactando todos os setores da economia, eliminando as atividades menos remuneradas e de baixa exigência em escolaridade, ao mesmo tempo em que já alcança aquelas ocupadas por profissionais com alta educação e altos salários, sendo este o novo alvo das máquinas avassaladoras, ‘inteligentes’ ou não, risco antes não assumido.
Em terra tupiniquins, conforme matéria de O Estado de S Paulo deste 14 de maio, Desemprego Castiga os mais Qualificados, a razia já se faz presente, embora na esteira da crise econômica que nos vitima.
Como sempre, no Brasil e em países a ele assemelhados, essa realidade é colocada sob o crivo de uma avaliação secundária e sectária, nos quais o emprego e a inserção dele numa economia, ainda que em permanente mutação, tem de ser necessariamente resultado da combinação nunca virtuosa, mas viciosa, da ação subsistente do Estado provedor, associada a estrutura econômica que avulta a importância estratégica de uma mão de obra envilecida e pouco contributiva em conhecimento, inovação e auto-desenvolvimento.
Somos uma sociedade trabalhadora que, via de regra, julga que a empregabilidade é fator associado ao empregador, unicamente, e, nunca, à capacidade individual no esforço de construí-la e expandi-la e, por aí, tê-la sempre ajustada à Lei de Darwin do ambiente profissional.
Dessa doença não escapam as transnacionais automotivas, as únicas donas do mercado, as quais se utilizam à exaustão da mesma e secular bovina leniência com que nossos índios acolheram os portugueses, lá atrás, no quilômetro zero do século 16. De certa forma porque padecem, mesmo em suas origens, sendo um oligopólio que é em estado puro, da insanável moléstia de que podem tudo e tudo podem na construção do que gera dependência do mercado, a mesma que vai vitimar muitas delas ao confrontarem os gigantes atuais e até mesmo os nascituros da área da tecnologia.
Se os auto-proclamados arautos do interesse da rotulada classe trabalhadora lessem um pouco que fosse do que essa avalanche dos novos e incontroláveis tempos vai provocar no seu discurso de emprego a qualquer custo, e se os governos que os ouvem ouvissem mais os tambores da realidade, a estatística fatal citada por Martin Ford poderia ter uma relação menos deletéria da população – mesmo em lenta regressão – que anualmente busca emprego com os postos de trabalho que se lhes apresentam como disponíveis.
Pensar dá trabalho… mas é, infelizmente, necessário..!
Luiz Carlos Mello é ex-presidente da Ford Brasil
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