AutoData - O que aprendi sobre a indústria automotiva da América Latina
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08/08/2016

O que aprendi sobre a indústria automotiva da América Latina

Por Steve St.Angelo

- 08/08/2016

Algumas semanas depois que me mudei para o Brasil como o novo CEO da Toyota para a Região da América Latina e Caribe, em vez de um terno e gravata, eu vesti o uniforme dos funcionários da produção: uma camisa Toyota, calça azul e luvas brancas e fui trabalhar na linha, em nossa fábrica na cidade de Sorocaba-SP.

Enquanto eu caminhava para a entrada de funcionários, por um momento eu tinha novamente 18 anos, era como se estivesse em 1974, no meu primeiro dia de trabalho na linha de montagem em Fleetwood, uma fábrica da GM. Existe alguma coisa no cheiro do óleo de máquina, nos sons de soldagem e transportadores, e a visão de pessoas fazendo carros que entra na sua alma e permanece lá.

Mas primeiro, me deixe dizer o porquê eu fiz isso, e também explicar o que estava acontecendo no Brasil naquele momento, algo que servirá de pano de fundo para todo mundo entender onde eu quero chegar.

Meu primeiro emprego foi como um operário na linha de produção de Cadillacs, e naquela época eu fiz uma promessa para mim mesmo: eu nunca iria perder as minhas raízes. Além disso, eu sempre me cobro para lembrar de que não importa o cargo que eu esteja hoje, trabalhar na linha de montagem em uma indústria não foi uma tarefa fácil. Foi essa experiência que me ajudou a entender a importância de sempre saber o que está acontecendo no “gemba”, ou seja “o lugar onde o trabalho está sendo feito”. É isso que faz a cultura de uma indústria: como os membros da equipe pensam, como agem e o que está dentro de sua alma.

Naquela época, a economia do Brasil estava muito melhor do que agora, incentivos do governo encorajaram investidores e as pessoas ainda estavam gastando ativamente o seu dinheiro. Este também era o cenário no resto da América Latina, embora o ritmo de crescimento já demonstrasse sinal de desaceleração, impulsionados principalmente pela redução da demanda de compra interna.

Mas vamos adiantar essa linha do tempo para hoje, três anos mais tarde. Sabemos que existem muitos desafios econômicos, mas eu acredito ainda mais na capacidade e paixão do povo brasileiro, e no potencial deste país para ser um reduto de manufatura. E os outros países da região têm o mesmo potencial.

Enquanto outras empresas fecharam suas instalações ou mudaram-se para fora do Brasil, a Toyota investiu aqui. E, enquanto outras empresas demitiram trabalhadores reduzindo seu quadro de funcionários, a Toyota não demitiu um único empregado no Brasil, ou em qualquer outro lugar na região.

Ao contrário, eu tive a honra de inaugurar recentemente a nossa primeira fábrica de motores na região, localizada em Porto Feliz (SP). Essa é a planta de fabricação de motores com a tecnologia mais avançada da Toyota no mundo. Trazendo 320 empregos diretos e representando um investimento de R$ 580 milhões.

Mas o que eu sei e que as outras empresas não sabem? Por que a Toyota está crescendo, na contramão do mercado? Posso dizer que não há bola de cristal na minha mesa, nem tenho um sexto sentido especial. Eu olho para dados e previsões tanto quanto qualquer outro CEO da indústria automotiva. Talvez eu só esteja com uma inclinação a mais para o otimismo.

Mas meu otimismo não surge do nada. De qualquer maneira, existe uma grande quantidade de dados que me instigam a acreditar nas oportunidades da região. Aqui estão apenas alguns:

A América Latina ainda tem uma população crescente: é esperado um aumento de 625 milhões de habitantes em 2016, para 680 milhões em 2025. Esse aumento significa mais renda e mais consumidores e, por consequência, mais motoristas e uma maior necessidade de transporte pessoal.

Se você olhar para a relação entre o número de veículos por pessoas na Região da América Latina e Caribe, é uma das mais baixas dos mercados em desenvolvimento, com apenas 1,6 veículo para cada 10 pessoas. O número do Brasil é ligeiramente superior, mas ainda sim baixo: 1,9 veículo por 10 pessoas. Apenas para referência, a Malásia tem quatro; Coreia do Sul, seis; os EUA, oito.

Se você olhar para a dívida dos países com relação ao PIB, sempre um bom indicador da força de um país – há também um ponto positivo. Curiosamente, vários países da América Latina têm índices mais baixos de dívida externa em relação ao PIB, do que os países que normalmente são vistos como tendo economias fortes. Paraguai, Bolívia, Equador, Chile, Argentina, Uruguai, Venezuela e Brasil, todos têm dívidas em relação ao PIB mais baixas do que os Estados Unidos, Alemanha e Japão. As reservas do Brasil, no valor de US$ 360 bilhões, estão entre as maiores entre qualquer economia emergente do mundo.

Mas, além dos números, há muitas outras razões para investir no Brasil. É um grande país com recursos extraordinários, com pessoas capazes e apaixonadas. Os trabalhadores da Toyota e os funcionários dos nossos fornecedores brasileiros estão entre os melhores com quem eu já trabalhei durante os 42 anos da minha carreira. A qualidade dos veículos que estão sendo montados no Brasil é tão boa quanto qualquer outro feito no Japão, Estados Unidos ou em qualquer outra parte do mundo. Quando eu caminho nas fábricas, eu vejo muita paixão e amor pela Toyota.

E isso é exatamente o que eu experimentei durante meu dia de trabalho na linha de produção em Sorocaba. O time cuidou de mim, fizeram questão de colocar a minha segurança em primeiro lugar, me ensinaram todos os fundamentos do trabalho antes de me deixar executar qualquer tarefa e, ao final de cada etapa, validavam todas as peças dos carros em que eu trabalhei, assegurando que as normas de qualidade fossem impecavelmente cumpridas. Tudo o que os clientes Toyota esperam de nós.

Eu deixei a linha de montagem naquele dia sabendo que o Brasil é um lugar muito especial no mundo para construir carros. E que investir na indústria brasileira, e em toda América Latina, é uma aposta muito certa para todas as empresas.

Steve St.Angelo, CEO da Toyota para a Região da América Latina e Caribe 


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