AutoData - Umicore: falta de previsibilidade diminui relevância do mercado brasileiro.
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31/01/2017

Umicore: falta de previsibilidade diminui relevância do mercado brasileiro.

Por Michele Loureiro

- 31/01/2017

A fabricante de catalisadores Umicore acompanhou a retração do mercado automotivo e registrou queda de dois dígitos no faturamento em 2016. Com um produto vendido a cada veículo comercializado, a empresa acabou refém do cenário ruim vivido pelas montadoras. Em conversa exclusiva com a Agência AutoData, Stephan Blumrich, vice-presidente e diretor da Umicore Brasil, afirmou que a falta de uma legislação mais clara e previsível torna difícil a situação com a matriz e que o Brasil vem perdendo relevância no mercado global. Para ele, o cenário pode ficar mais favorável com a divulgação da nova fase do Inovar-Auto e com a melhora gradativa da economia do país. Confira:

Em 2016, a Umicore comemorou 25 anos de presença no Brasil. Como foi o ano para a empresa?

Foi um misto de comemoração e situação difícil. Como fabricante de catalisadores, nossa preocupação com a sustentabilidade ganhou destaque nas comemorações dos 25 anos, que coincidiram com os 30 anos do Proconve, Programa de Controle de Poluição do Ar Veículos Automotores. Produzimos um livro sobre a evolução do transporte no país para celebrar o marco de 47 milhões de catalisadores fabricados no período. Para se ter uma ideia, há 30 anos cada veículo leve emitia, em média, 35 g/km rodado de monóxido de carbono, CO, gás resultante da queima do combustível. Hoje, a emissão é de 0,3 g/km rodado. Mesmo com a melhora nos índices, ainda há muito trabalho pela frente. Mas o momento não foi só de celebração. Nosso produto é alinhado ao volume comercializado no mercado. Não temos a opção de instalar mais de um catalisador por veículo. Por isso, como o mercado teve uma queda de dois dígitos, nós também tivemos. Não conseguimos fazer milagre e desde 2014 os volumes caem de forma expressiva.

Todo o mercado fala em necessidade da redução das emissões e de atualização das tecnologias. De alguma forma a restrição econômica postergou o desenvolvimento de novos produtos?
Esse trabalho é constante. O desenvolvimento de novos produtos nunca pode parar. Nosso produto ganhou ainda mais relevância com a primeira fase do Inovar-Auto e desde então somos cobrados a participar desse cenário de eficiência energética. Essa foi uma das partes positivas do programa. Fez com que nosso tempo de resposta ficasse mais rápido. No ano passado, mesmo com as vendas menores, participamos de concorrências para novos motores. Há uma tendência de propulsores menores e tivemos de adaptar nossos produtos. Não posso revelar os contratos novos, mas posso dizer que nosso centro de desenvolvimento que possibilita testes e fornece estatísticas para as montadoras foi um grande diferencial para conquistar novos contratos. Atualmente, calculamos que a nossa participação do mercado brasileiro supera os 50%.

Como as regras da nova fase do Inovar-Auto podem influenciar os negócios da Umicore?
Só consigo avaliar essa questão positivamente. Existe um movimento muito forte dentro da comunidade automotiva para que as regras sejam de longo prazo e tragam previsibilidade ao mercado. Caso isso se comprove, estamos falando em 10 ou 15 anos de planejamento. Isso ajudaria muito a questão da competitividade no Brasil. Afinal, essa falta de previsibilidade afeta nossa relevância global. É delicado explicar para matriz que o plano mudou, que não há estabilidade, que a regra vez ou outra é quebrada. Mas além de uma política industrial de médio a longo prazo, precisamos de definições de legislações. Órgãos como Ibama e Conama precisam ditar as regras do Proconve o quanto antes. Já estamos entregando informações para essas instituições com dados sobre a qualidade do ar e saúde da população para tentar agilizar o processo. Mas o fato é que estamos ficando para trás. A China, por exemplo, sempre esteve atrás do Brasil quando o assunto é emissão. Porém, eles já vão para o Euro 6 nos próximos anos. Nós estamos parados. Isso sem contar que a discussão está limitada a emissões de CO2, quando deveria estar pensando na saúde da população e nos gastos com tratamentos de saúde pública. Mais do que o CO2 que impacta no efeito estufa, temos de ampliar a discussão para os monóxidos e hidrocarbonetos que saem dos escapamentos e fazem a população respirar um ar impróprio. É fato que estamos atrasados.

Vocês realizam exportações?
Exportamos 4% da produção para Ásia, mas isso não é muito relevante. Como estamos falando de uma empresa global, há fábricas em todas as regiões e o esforço logístico acaba inibindo as remessas. Além disso, nossa mão-de-obra cara e o câmbio não fazem do Brasil um cenário atrativo para o mercado global. Mas isso já foi diferente, de 2000 a 2005 exportávamos cerca de 15% da produção brasileira. Infelizmente as condições mudaram e isso não é mais viável.

Qual a relevância do Brasil nos negócios globais?
Dentro da área de catalisadores a Umicore Brasil responde por cerca de 3% a 4% no negócio mundial, mas esse índice já foi bem maior. As vendas para a China reconfiguraram os mercados da empresa. Há 20 anos, sem a China, o Brasil representava cerca de 15% dos negócios, mas com as vendas absurdas dos chineses acabamos perdendo relevância. Estamos trabalhando para melhorar isso, mas é fato que temos mais potencial do que realidade. Todo mundo fala que o Brasil tem potencial para ser um dos maiores mercados do mundo, mas precisamos provar isso. As pessoas precisam ter condições de comprar carros, precisam de crédito, juros acessíveis e de emprego. Não estamos falando em formas artificiais de vender carros, como aconteceu de 2008 a 2010 com a redução dos impostos e financiamentos a perder de vista. Precisamos ter uma economia sólida que dê condições reais de aquisição de um carro. A nossa esperança é que esse novo governo conduza o país para caminhos assertivos.

O que a Umicore projeta para 2017?
Temos a impressão que já chegamos ao fundo do poço e que agora as coisas só podem melhorar. Mas é triste imaginar que também pensamos isso no final de 2014 e 2015, e mesmo assim piorou. Precisamos torcer para que a economia volte aos eixos. Mas a expectativa é uma estabilidade ou crescimento modesto de 2% a 3%. Não acreditamos em uma retomada rápida e até torcemos para que isso não aconteça de forma brusca. Afinal, essas bolhas de crescimento sempre cobram o preço mais para frente. A nossa expectativa é que haja políticas claras de longo prazo e que as legislações, como Inovar-Auto e Proconve, sejam anunciadas. As empresas perderam a credibilidade das matrizes e precisam de um cenário estável para reconquistar isso e justificar investimentos no Brasil.


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