AutoData - Argentina incentiva autopeças. Mas isto pode não ser bom para o Mercosul.
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10/02/2017

Argentina incentiva autopeças. Mas isto pode não ser bom para o Mercosul.

Por Ana Paula Machado

- 10/02/2017

A nova legislação para estimular a indústria de autopeças na Argentina tem tirado o sono de executivos do setor automotivo aqui no Brasil. Isso porque, pela nova regra, o governo daquele país dará benefícios fiscais para compras de produtos produzidos localmente. Esse desconto pode chegar a 15%, caso o conteúdo local dos carros fabricados na Argentina chegue a 50%. Hoje, o porcentual é de 35% a 40% para as picapes e em automóveis essa relação alcança 35%.

Gonzalo Dalmasso, especialista no setor automotivo da Argentina, contou que a intenção do presidente daquele país é reduzir os custos de produção quando comparados aos do Brasil. Segundo ele uma peça fabricada em unidades argentinas é 35% mais cara do que a mesma produzida aqui: “A medida compensará essa assimetria, e isto pode vir a estimular a indústria de autopeças da Argentina”.

Antônio Megale, presidente da Anfavea, defende simetria de posturas:

“Entendo a legitimidade de qualquer medida para incentivar a indústria de autopeças argentina, que foi sucateada nos últimos anos. Mas, acredito que, para o bem do acordo automotivo, os componentes fabricados no Brasil devem ter o mesmo tratamento tributário”.

A Argentina é atualmente o maior parceiro comercial das autopeças brasileiras, responsável por 28% das vendas externas. No ano passado foram exportados US$ 1 bilhão 84 milhões para as fabricantes e para as sistemistas instaladas naquele país, segundo dados do Sindipeças. Esse volume foi 25% menor no comparativo com 2015, em razão da queda de vendas de veículos dos mercados brasileiro e argentino.

Marcos Zavanella, presidente da Schaefller para a América do Sul, disse que somente as vendas de veículos no mercado argentino não suportariam investimento mais robusto em unidade produtiva. Segundo ele, no primeiro momento, a empresa está aplicando recursos para aumento da capacidade de estoque de peças no escritório local e em logística:

“Se o setor for fortalecido com essas medidas e pudermos ter uma sinalização clara da política do governo, podemos pensar em investimentos, mas ainda é muito precoce. Na verdade, as empresas não devem transferir para lá toda a linha de produtos, pois o volume é baixo”.

A empresa tem na Argentina o seu segundo maior mercado em reposição de peças na América do Sul. Toda a operação da companhia naquele país se concentra no aftermarketing, observou o gerente geral da empresa na Argentina, Carlos Gyorgy, que não revelou o volume exportado pela fábrica brasileira, para lá:

“Desde 2014 somos isentos do imposto de importação, por causa do acordo automotivo”.
Para Letícia Costa, sócia da Prada Assessoria, a nova legislação, de forma geral, é prejudicial para a indústria automotiva no Mercosul, pois não incentivará a melhora da competitividade da região:

“Qualquer medida que priorize um lado somente pode ser cobrada lá na frente pelo outro lado. O Brasil fez isso com o Inovar-Auto e não vimos melhora da competitividade brasileira nos últimos anos. Os investimentos no parque de autopeças na Argentina dependerão da estratégia de cada empresa, mas não há escala. O segmento nunca será forte na Argentina”.


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