Pode até ter sido simples coincidência. Mas o mais provável é que seja bem mais que isso: de janeiro a maio, em confronto com o mesmo período do ano passado, enquanto as vendas de automóveis e comerciais leves novos caíram 281 mil unidades, 26,3%, as vendas dos chamados seminovos cresceram 300 mil unidades, 24,1%.
Consideram-se veículos seminovos aqueles com até três anos de utilização. Pois bem: na soma de novos e mais seminovos as vendas nos cinco primeiros meses deste ano alcançaram, segundo dados da Fenabrave e da Fenauto, 2 milhões 565 mil unidades, apenas e tão somente 0,7% menos do que as 2 milhões 584 mil comercializadas nos mesmos meses do ano passado.
Configura-se, assim, a real possibilidade de que o que está havendo, este ano, nada mais é do que a mera repetição do que já aconteceu em boa parte do ano passado: migração de parcela dos consumidores da base do segmento específico de novos para o topo da de usados.
O que, convenhamos, é bem diferente de um encolhimento puro e simples de um quarto do mercado. Sobretudo com relação ao futuro próximo.
Em termos bem práticos o universo de consumidores que trocou de carro neste período permaneceu quase o mesmo. Só que parte dele optou por gastar menos.
Ou seja: considerado o universo de novos e seminovos o volume de vendas permaneceu inalterado. Mas, efetivamente, com alguma redução de valor no tíquete médio.
No ano passado esta migração decorreu do fato de que, com a obrigatoriedade de airbag e freios ABS em todos os carros, a indústria teve que tirar do mercado os modelos de entrada, com preço inferior a R$ 30 mil. Desta vez são várias as macro razões que podem também estar na base da mudança.
O simples fato de a inflação ter permanecido elevada e concentrada nos gastos com alimentos e energia elétrica certamente reduziu a parte que deveria sobrar da renda familiar para arcar com a prestação do automóvel. Em muitos casos, além disso, a renda familiar pode ter diminuído pela perda do emprego de uma ou mais das pessoas que contribuíam para sua formação.
Simultaneamente o credito bancário ficou mais seletivo e os juros aumentaram substancialmente. Bem mais seletivo. E com juros maiores. Muito maiores.
Ensina a sabedoria popular que quem não tem cão caça com gato. Traduzido para o economês automotivo, quem não tem mais renda para comprar um carro zero quilômetro precisa contentar-se com um quase zero quilômetro. Como um seminovo.
A boa notícia é que, mesmo envolvido por cenário recheado de tanta negatividade, o consumidor manteve a decisão de compra, ainda que em outro formato – mudou dos novos para os seminovos.
Em qualquer outra época isto não teria a menor importância. Mas, na atual – conforme ficou evidenciado no painel dos sistemistas no Seminário Revisão das Perspectivas, promovido na segunda-feira, 13, pela AutoData Editora em São Paulo – trata-se de fator que poderá fazer toda a diferença com relação à velocidade de retomada das vendas de novos pelo setor.
Explica-se: o setor automotivo vive momento de radical mutação da geração dos automóveis que oferece ao mercado. Todos os novos lançamentos chegam muito mais conectados, além de equipados com motores com três cilindros, de alumínio e turbo. Coisas de fazer a geração anterior envelhecer cem anos em meia dúzia de minutos.
São predicados de sobra para animar os consumidores e arriscar um pouquinho mais, a comprometer um tiquinho a mais o orçamento doméstico com o valor da prestação do carro e… voltar para o mercado de novos, aquele mercado que gera produção e, por decorrência, empregos e investimentos em toda a cadeia automotiva.
Para isso, todavia, é fundamental que Brasília, DF, não nos atrapalhe. Aliás, que tal cobrir Brasília de terra e tocar a vida em frente a bordo de um destes carros – desses televisores, aparelhos de som, geladeiras, fogões, celulares, computadores – tudo de nova geração? São, todos, excelentes. Fazem parte do Brasil real. Real de fato. E que, por certo, somos. E merecemos.
Notícias Relacionadas
Últimas notícias