Opinião
Ainda que tenha registrado pequena queda em julho, a participação das vendas diretas no total comercializado de automóveis e comerciais leves alcançou 36,2% no mês, nada menos do que 54,2% acima dos 23,4% que eram registrados em janeiro.
Foram seis meses de crescimento constante desta modalidade de vendas que envolve, com frequência, descontos generosos e baixa rentabilidade. E que, além de tudo, quando englobam locadoras de veículos, representam ainda risco da concorrência de seminovos com baixo preço apenas alguns poucos meses à frente.
Fica evidente que, ao menos no primeiro semestre, o mercado de varejo não mostrou vigor suficiente para manter firmes e estáveis as vendas neste segmento, ainda que num patamar quase 25% menor que o verificado no mesmo período do ano passado, tal como o registrado.
Dados divulgados nesta semana pela Fenabrave mostram que desde o começo do ano, a cada mês foram necessários doses maiores de vendas diretas para conseguir manter a tão propalada estabilidade de vendas nos últimos meses – a mesma que vem sendo interpretada como sinal de que, desta vez, o fundo do poço já teria sido, enfim, alcançado.
Ainda segundo os dados da Fenabrave, se considerado apenas o mercado de varejo, as vendas de automóveis e comerciais leves somaram 968 mil unidades nos sete primeiros meses deste ano, 29,4% menos que 1 milhão 084 mil unidades registrada no mesmo período do ano passado – quase cinco pontos porcentuais acima dos 24,3% de queda verificados no mesmo período quando se consideram também as vendas no atacado.
A leve queda de 1,4 ponto porcentual de participação das vendas diretas em julho em relação ao mês anterior, vale ressaltar, ficou restrita ao mercado específico de automóveis.
No segmento de comercias leves, tomado em particular, a fatia continuou subindo e fechou o sétimo mês do ano na faixa de 60,6%, quase o dobro dos 31,5% anotados nos automóveis.
Em tempos de mercado normal, as vendas diretas – que envolvem grandes volumes e tem este nome porque são realizadas diretamente pelas montadoras para locadoras, demais empresas e/ou governos – costumam representar de 20% a 25% do total negociado. É o suficiente para manter os clientes e gerar escala sem correr o risco de alimentar concorrência predadora no futuro.
Nos últimos dois a três anos, todavia, com bastante frequência este canal acabou tendo de ser utilizado para acomodar erros de projeções de vendas que desembocaram em excessos de produção e em pátios lotados.
O primeiro semestre deste ano representou um momento típico desta fase: tinha-se como certo que o fundo do poço havia sido atingido no segundo semestre do ano passado e, assim, parecia lícito projetar que as vendas se manteriam, neste ano, pelo menos no patamar registado entre julho e dezembro do ano passado.
Desagradável e quase inacreditável surpresa: o ano abriu com nova queda de vendas. E outra vez na faixa superior a 20% em relação ao mesmo período a 2015.
A solução, mais uma vez, passou pelas vendas diretas. E foi assim que depois de ter aberto o ano respondendo por comportados 23,45% do total de automóveis e comerciais leves comercializados pelo setor, o peso desta modalidade passou a crescer mês após mês durante todo o primeiro semestre.
De forma geral, todas as montadoras aumentaram a participação das vendas diretas em seu faturamento em julho deste ano, em comparação com o mesmo mês do ano passado. Entre as maiores, a única exceção ficou por conta da Volkswagen, que a reduziu de 39,4% para 35,1%, possivelmente em decorrência dos problemas de produção que enfrentou e ainda enfrenta.
Mas pelo menos duas delas – Fiat e Renault – fecharam o sétimo mês deste ano dividindo praticamente meio a meio suas vendas entre o varejo e o atacado. Meio a meio!
A italiana com um grande numero de negócios diretos na área específica de comerciais leves. E a francesa – que há algum tempo faz aposta firme no vigor desta modalidade mesmo em tempos normais – com uma ação mais generalizada em toda a linha.
Na sequência vem Ford e General Motors, ambas na faixa de 32%, com a diferença que enquanto para a primeira isto representou permanecer praticamente no mesmo lugar em relação a julho do ano passado, para a outra implicou um salto para cima de quase 5 pontos porcentuais, muito provavelmente em defesa de sua posição de liderança de mercado.
As asiáticas, como seriam de se imaginar, são as únicas que se mantiveram relativamente próximas do chamado padrão ideal. Toyota e Hyundai também aumentaram em cerca de 5 pontos porcentuais o peso de suas áreas de vendas diretas. Mas, mesmo assim, mantiveram-se dentro da chamada zona admitida pelas redes de distribuição como politicamente correta: 20,1% e 23,7%, respectivamente.
A outra asiática, a Honda, representou um caso à parte em todo o setor: fechou julho com vendas diretas de apenas 10,1% de seu volume total licenciado, menos da metade dos 26,9% anotados há um ano.
Resta, agora, acompanhar de perto, bem de perto, o comportamento do mercado de automóveis e comerciais leves nas próximas semanas. Neste agosto, as vendas diretas vão mostrar, melhor do que qualquer outro termômetro, se a queda verificada em julho foi mero soluço ou, na outra ponta, firme indicativo de que, desta vez, de fato, o pior já passou e nova fase se inicia.
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