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10/10/2016

Rumo a um novo ciclo

Por S. Stéfani

- 10/10/2016

Depois de dois anos seguidos de grandes quedas nas vendas, que não estavam no radar de qualquer empresa e derrubaram a produção do setor praticamente pela metade, as projeções para 2017 naturalmente chegam cercadas de condicionantes e com muitas variações.

No centro das projeções e de comum entre elas há a quase certeza de que neste ano, ao contrário do que aconteceu no passado, o fundo do poço já foi, enfim, alcançado. E que, assim, está efetivamente aberta a possibilidade de alguma estabilidade e, na sequência, o início de um novo ciclo de retomada.

Tal raciocínio apoia-se no fato de que desde abril a média diária de vendas se manteve em torno de 8 mil unidades. Com exceção de setembro, em princípio por razões especificas do mês paralisação da produção da Volkswagen em decorrência da falta de componentes e greve bancária.

Se mantida no último trimestre essa média de 8 mil unidades diárias, o setor encerrará este ano com cerca de 2 milhões de veículos comercializados, queda de 20% em relação a 2015. Será, assim, o segundo ano consecutivo com decréscimo na faixa dos 20% e o quarto ano seguido de retração. Um desastre de bom tamanho quando comparado aos 3,8 milhões de veículos emplacados em 2012. Com ênfase particular na área de caminhões, cujas vendas neste ano não deverão ir além de 55 mil unidades, apenas um terço dos 168 mil que chegaram a ser vendidos em 2011.

Para 2015 executivos do setor projetavam queda não superior a 5% e para este ano empate técnico com o anterior, talvez até algum pequeno crescimento. Daí a prudência desta vez na hora de fazer novas estimativas. De forma geral, tanto para automóveis quando para caminhões e ônibus, as projeções indicam equilíbrio até o final deste ano, início da retomada em 2017 e, a partir de 2018, abertura de um novo ciclo de crescimento constante e mais acentuado.

O que muda de empresa para empresa, de entidade para entidade, é a graduação de como esta retomada se dará e, por decorrência, de quanto tempo será necessário para que o Brasil volte a estar entre os cinco maiores mercados do mundo.
Não há mais consenso nem mesmo sobre o real tamanho do mercado brasileiro de automóveis e de veículos comerciais. A partir da baixa relação carro por habitante, bem menor que a da Argentina e do México, por exemplo, há a certeza de que é grande a possibilidade de crescimento em relação aos números que estão sendo registrados neste ano. Mas qual seria, hoje, o porte efetivo deste mercado?

Alarico Assumpção Jr., presidente da Fenabrave, crava 3 milhões de automóveis e 100 mil caminhões por ano em 2019 ou mais provavelmente 2020. O mercado automotivo real seria, então, cerca de 20% abaixo do recorde de 2012, mas mais de 50% acima do deste ano.

Ritmo da retomada projetada por Assumpção Jr: 5% de crescimento em 2017 e, a partir daí, cerca de 10% a 15% ao ano. Nos caminhões, em particular, que registram queda mais acentuada, os dois dígitos de crescimento chegariam já em 2017.

Barry Engle, presidente da General Motors na América do Sul, é mais otimista. Projeta 2,15 milhões neste ano e 2,4 milhões em 2017, de maneira a abrir o caminho para, em cinco anos, chegar a 3,4 milhões.

Na outra ponta, Dan Ioschpe, presidente do Sindipeças, é mais conservador: estima alta de 3% dos leves em 2017, seguida de 5% em 2018, 4% em 2019 e 3% nos dois anos seguintes. Nos caminhões, cuja base está muito baixa, o crescimento em 2017 seria, nas contas da Fenabrave, de 8% e, na sequência, ano a ano, 9%, 10%, 9% e 5%.

Leticia Costa, da Prada Consultoria, fica no meio termo. A exemplo do Sindipeças também prefere apostar em crescimento de apenas um dígito no período de 2018 em diante. “Mas um dígito alto, já bem perto de dois dígitos”, especifica. Em compensação, para 2017 projeta algo abaixo de 5%, “bem próximo de zero”.

A Anfavea, tal como sempre faz, deixa sua projeção oficial mais para o final do ano. Mas Antonio Megale, presidente da entidade não esconde que também considera que o pior já ficou para trás e que, em princípio, 2017 deverá marcar o início da retomada. Crescimento ainda de um dígito. “Mas um dígito parrudo”, aposta.

Para os caminhões, em particular, Megale concorda com as projeções feitas pelos principais executivos das montadoras: crescimento de dois dígitos muito provavelmente já a partir de 2017. “A base, neste caso, está muito baixa”, justifica.

O que derrubou o mercado em 2016, concordam os executivos, foi mais a instabilidade política e a consequente insegurança dos consumidores em relação ao futuro. O quadro político agora, porém, está mais bem definido e há a expectativa de um nova política econômica e, sobretudo, de que as reformas estruturais – fiscal, previdenciária e trabalhista, sobretudo – estão a caminho.

Permanecem dúvidas em relação ao tempo que o novo governo consumirá até conseguir a maioria para a aprovação de novas legislações nestas áreas, tidas como fundamentais para tirar o País da recessão.

O setor automotivo que agora já se anima a projetar um novo ciclo de crescimento apresenta pontos de fragilidade que, se não forem convenientemente resolvidos, podem comprometer a retomada mais acentuada da produção.

Se os sistemistas, todos financeiramente amparados por grande grupos globais, conseguiram compensar a queda das encomendas das montadoras com o aumento das exportações e da reposição, os fornecedores de autopeças dos níveis 2 e 3, espremidos entre a queda da demanda e a falta de crédito bancário, certamente terão muita dificuldade para bancar o aumento de capital de giro sem o qual não há como promover qualquer aumento da produção.

É esse segmento que congrega a maior parte das 58 empresas filiadas ao Sindipeças que estão em recuperação judicial. “Muitos fornecedores não têm dinheiro nem interesse em investir, o que é preocupante”, afirma David Powels, presidente da Volkswagen. “Sem resolver a situação dos Tier 2 e 3, teremos muito dificuldade para qualquer aumento da produção”, complementa Philipp Schiemer, presidente da Mercedes-Benz do Brasil.


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