A crise econômica que abala o Brasil não tem data para acabar e o pior momento pode ainda não ter passado. “O ponto de inflexão ainda não chegou”, diz Letícia Costa, sócia-diretora da consultoria Prada, uma das palestrantes do Congresso AutoData Perspectivas 2017, realizado na sede da Amcham, Câmara Americana de Comércio, em São Paulo, na segunda-feira, 17.
Para Letícia, apesar de caminhar para uma melhora, o cenário ainda é nebuloso. “Temos três frentes principais para analisar: política, econômica e de confiança das empresas e consumidores”, afirma. “Acredito que o Brasil só volte a ter superávit em 2019. A recuperação será gradual e lenta”.
Segundo ela, no âmbito político, a chegada de Michel Temer à presidência ainda não é motivo para se acreditar que o pior momento político já passou. A consultora acredita que o apoio do Congresso ao novo governo pode acelerar a tomada de medidas necessárias, o que estava estagnado com Dilma Rousseff no comando. “Porém, esse governo ainda terá de se provar efetivo. É fato que as medidas anunciadas, inclusive pouco populares, acenam para uma política mais próxima com as necessidades do País. Mas ainda não dá para afirmar que tudo está resolvido”, afirma.
Outra vertente política que deve ser observada com atenção é o andamento da Operação Lava Jato. Letícia destaca que o cenário pode ganhar contornos dramáticos caso Odebrecht e OAS decidam fazer delações premiadas. “Metade do Congresso estaria envolvido e isso aprofundaria a crise política”, analisa.
Já na frente econômica, ela destaca que os números não dão conta de uma retomada. “A cada prévia de PIB há uma nova decepção. Estamos esperando que os números voltem a ser positivos, mas a verdade é que ainda não há esses índices”, afirma. Ela acredita que o Brasil deva ter um PIB estável ou até 0,5% maior em 2017, ante o resultado deste ano. “Sou cautelosamente otimista, mas não acredito na previsão do Focus, que estima alta acima de 1%”, afirma.
A taxa de desemprego também preocupa quando as frentes econômicas são observadas. De acordo com Letícia, o pico de desemprego deve chegar até 14 milhões de pessoas para só então começar a ser reduzido de forma gradual.
Outra preocupação no âmbito econômico é a falta de capacidade de investimento da indústria. “A verdade é que a indústria perdeu a solvência no Brasil. Muitas empresas não têm como investir com juros tão altos, e as que podem, não pretendem fazer necessariamente”, diz. Para ela, soma-se a isso a falta de dinheiro do governo para conceder estímulos. “O déficit só cresce e as medidas caminham justamente para o caminho oposto, de redução dos gastos”. Letícia acredita que um caminho para amenizar a situação é apostar no programa de concessões, como já foi sinalizado pelo atual governo. “Neste momento, o capital estrangeiro ganha papel ainda mais fundamental para auxiliar na recuperação”, acredita.
Para a Letícia Costa, a única boa notícia concreta até o momento é a questão da confiança dos consumidores. “Apesar de não ter retomado a média histórica, há um avanço nos índices. Isso se deve muito mais ao otimismo com o que pode acontecer do que com base na situação deste momento”, avalia. “É um fator mais psicológico do que real”.
Indústria automotiva – Para Letícia, a indústria automotiva tem um desafio enorme nos próximos anos. “Este é o momento de definirmos se queremos realmente ser uma indústria competitiva e tomar as medidas necessárias para isso”, diz. Contrariando as previsões da Anfavea, que prevê alta de 8% a 9% no volume de vendas em 2017, Letícia acredita que o volume deva permanecer estável ou crescer até 5% no próximo ano.
Questões como os acordos comerciais do Mercosul, o Inovar-Auto e as exportações devem dominar a agenda do setor no próximo ano. “São pontos cruciais para definir a nossa participação na indústria global”, finaliza.
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