São Paulo – Em um momento em que diversas fabricantes de origem chinesa estão vindo ao Brasil e algumas delas, a exemplo de BYD e GWM, estão iniciando seu processo de montagem no País, e outras tantas estão buscando fábricas para também nacionalizar seus modelos, fica o desafio à cadeia de suprimento local conquistá-las.
É o caso da Bosch, conforme contou em entrevista exclusiva à AutoData, Gastón Diaz Perez, CEO e presidente da Robert Bosch na América Latina. Isto porque esses carros que hoje são importados têm bastante conteúdo da Bosch, afirmou o executivo:
“Isso não é ruim, porque a Bosch é muito forte na China, muito competitiva e avançada tecnologicamente, mas fica a missão de como transformar este conteúdo em brasileiro. Queremos que esses veículos tenham um conteúdo local importante sem que haja retrocesso nesta mudança tecnológica”.
Hoje, segundo Perez, praticamente 90% do que é comercializado no Brasil é fabricado por aqui. Existem linhas de produção em Campinas que têm de 40% a 60% de nacionalização, enquanto em outras, o índice chega a 70%. “Mas em todas as linhas que falamos de localização temos um conteúdo local acima de 50% ou perto de 50%.”
O executivo defendeu que são nacionalizações com uma verticalização importante. Não se trata de simplesmente montar um CKD e, por isso, se faz muito importante a manutenção dos investimentos ano a ano para continuar atualizando e ampliando a oferta da linha local.
“Temos uma forte integração, porque realmente nossas localizações não são de montagem superior. Seja CKD ou SKD são realmente integrações reais. Nós trazemos a linha, temos uma rede de fornecedores importante na região, máquinas, mão de obra e grande parte dos componentes vão ser nacionais.”
Brasil sabe tirar vantagem das instabilidades
Conforme balanço divulgado pela companhia na quinta-feira, 23, o resultado positivo de 2025, com alta de 7,6%, para R$ 11,6 bilhões na América Latina foi impulsionado pelo setor automotivo, majoritariamente, e pela relevância do Brasil, o que fez o país responder por fatia de 80% do faturamento, equivalente a R$ 9,4 bilhões.
Na região a Bosch está presente, ao todo, em dez países, como Argentina, Chile, Peru, Colômbia, Equador, Uruguai e Paraguai, de onde vêm os outros 20%, com operações de aftermarket, ferramentas elétricas, produtos industriais e mais a parte de home & comfort, de ar-condicionado.
Segundo Perez, o cenário econômico marcado por desafios e instabilidades, uma vez que a persistente alta dos juros agora segue de mãos dadas com as instabilidades geopolíticas, é algo com o que já está acostumado a trabalhar.
“Nós antes achávamos que a instabilidade, a crise, eram exceções, mas hoje já podemos afirmar – e falo globalmente, não na América Latina, onde foi sempre assim –, que as permanentes incertezas, tensões e crises, que vão se modificando, sejam as tarifas, as guerras, as incertezas em torno dos componentes, mas estão sempre ali, é algo permanente. A instabilidade virou estrutural.”
Desta forma, o fato de o latino-americano já estar acostumado a ambientes de alta volatilidade traz oportunidades. Então, mesmo com as novas pressões provocadas pela alta do petróleo, sobre os custos dos combustíveis, dos fretes, dos plásticos e dos materiais não-ferrosos, é possível manter a competitividade e gerenciar bem esses problemas nas cadeias de suprimentos.
Dito isto, para 2026 o alvo são dois dígitos, ainda que seja um ano marcado por eleição e com as incertezas herdadas dos doze meses anteriores. “Esperamos avançar pelo menos 10%, assim como nos últimos quatro ou cinco anos.”
Tarifaço e guerra no Irã impactam, mas não demandam grandes mudanças
Sobre o tarifaço de Donald Trump, a operação brasileira da Bosch exporta cerca de 20% de tudo o que produz e, um terço disso, vai para os Estados Unidos, principal destino. Para o presidente da companhia, o vai-e-vém das alíquotas dificulta as decisões de investimento.
“Esta situação nos deixa menos competitivos, mas, por outro lado, também implica decisões de transformação. Temos travado várias brigas para converter o Brasil na fábrica para as Américas, com determinados componentes feitos aqui, e isto claramente afeta esse tipo de decisão, por causa da falta de previsibilidade.”
Porém, Perez afirmou que não necessariamente está perdendo volume, até porque diversos países foram afetados, e se não comprarem da Bosch no Brasil vai adquirir de outro lugar que também tem uma tarifa extra.
“Acho que hoje tomar decisões por causa das tarifas, para brigar por melhores condições de fornecimento, não está fácil. Só se conseguir localizar o fornecedor nos Estados Unidos e tomar a decisão de instalar fábrica, que é um investimento de longo prazo, com todos os esforços financeiros e de tempo que envolvem, sem saber se o regime é estável. Mas eu acho que ninguém vai colocar uma fábrica só por uma situação que você não sabe se é permanente ou quanto vai durar.”
Sobre a guerra no Irã o posicionamento é o mesmo. “Difícil falar quanto tempo ele vai durar porque depende do conflito, que a cada vez que você entra na internet está com uma trégua ou recomeça tudo de novo”, disse, ao afirmar que, “claramente, está tendo um impacto, especialmente nos transportes e nos materiais derivados do petróleo, em toda a indústria”.