Aporte será partilhado entre novas linhas de produção de motores elétricos para levantadores de vidros, veículos comerciais e ECUs, além de baterias para ferramentas elétricas em Campinas, SP
São Paulo – Após um resultado positivo em 2025, que manteve o ritmo de crescimento dos últimos cinco anos, embora um pouco abaixo dos dois dígitos, o faturamento da Bosch na América Latina cresceu 7,6%, para R$ 11,6 bilhões, sendo que 80% desses recursos foram gerados no Brasil, R$ 9,4 bilhões, dos quais 20% são oriundos de exportações.
Em entrevista exclusiva à Agencia AutoData, Gastón Diaz Perez, CEO e presidente da Robert Bosch na América Latina, enfatizou a necessidade de se manter continuamente investindo na empresa, principalmente nos talentos dos profissionais e na área digital. “Isto melhora significativamente a nossa competitividade, o que nos traz dois efeitos, um deles o crescimento, uma vez que ganhamos mais espaço no mercado, e o outro são mais investimentos. É como se fosse um prêmio obtido por meio da competitividade.”
O novo aporte de R$ 1 bilhão começará a ser injetado ainda no segundo trimestre e finalizado até outubro. Segundo Perez, será partilhado em três terços, sendo um deles aplicado em pesquisa de desenvolvimento, uma vez que o Brasil é o centro de competências global da Bosch para biocombustíveis e também para o desenvolvimento de negócios para o agro, anunciado no começo do ano passado.
Exemplos de inovação que usufruem do ciclo anterior de investimentos combinado com o atual são sistema para plantadeiras inteligentes com câmeras que usam inteligência artificial e conseguem identificar, a 20 km/h, o que é uma erva daninha e o que é soja, para aplicar o agroquímico de forma assertiva.
A Bosch agora estádesenvolvendo opções para flex de motores diesel especialmente para mineração e para agro, em que, por exemplo, motores de colheitadeira podem ser transformados em híbrido flex,em que é possível usar também etanol.
A aposta na hibridização também reside em soluções para automóveis. “Serão lançados muitos carros híbridos flex e, por isso, estamos desenvolvendo e fabricando a primeira VCU, Vehicle Control Unit, unidade de computador que controla os dois motores, um elétrico e outro a combustão flex. Trata-se da primeira VCU para veículos flex aqui no Brasil”, assinalou.
Busca por contratos de motores elétricos para veículos comerciais já começou
O executivo prosseguiu dizendo que a companhia continuará neste caminho de investimentos, até porque o resultado do avanço da competitividade permitiu trazer ao Brasil linhas, por meio deste aporte, o segundo terço. Um deles é para motores elétricos de baixa voltagem, que são os comfort actuators ou atuadores de conforto que há no carro, tanto para os assentos quanto para levantar os vidros.
“Estamos quase dobrando nossa capacidade produtiva na planta de Campinas e também trazendo investimentos para motores elétricos de alta voltagem. Já para os motores elétricos dos carros serão injetados recursos em uma linha flexível de muita tecnologia para veículos comerciais, que nos permitirá produzir uma série baixa a mediana, que é o que nós temos nos veículos comerciais no Brasil.”
Trata-se de mercado novo, por isto Perez contou que estão trazendo linha de produção bastante flexível que abrigará também a fabricação de motores elétricos e de seus componentes em séries baixas e médias, que é o que existe no mercado local, para poder começar a oferecer soluções para os clientes no Brasil e na América Latina também. “Hoje esses componentes são todos importados, em geral, e ter um alto conteúdo local é o nosso desafio.”
Ele pontuou que este processo ocorre de forma gradativa, pois, como são produtos novos, no começo há mais componentes de fora. Mas a ideia da Bosch é começar a integrar à medida em que ganham experiência e conhecimento do item.
O executivo contou que a empresa já está em contato com potenciais clientes e parceiros, mas, como ainda tudo está ainda no começo, não é possível abrir nomes, até porque não estão fechados os contratos. “Mas, sim, claramente existe um interesse muito grande no mercado.”
Empresa já é fornecedora de tecnologias para novos veículos híbrido-flex, produzidos no Brasil. Foto: Divulgação.
Capacidade de produção de ECUs será dobrada
Quanto às linhas de eletrônica, também serão dobradas a capacidade de fabricação de ECUs, de Electronic Control Units, que são os computadores que controlam os diferentes módulos do carro. “É um investimento importantíssimo, porque você sabe que além de partes mecânicas, o carro cada vez tem mais eletrônica, cada vez tem mais software dentro, e para uma empresa como a Bosch, localizar no Brasil cada vez mais eletrônica é muito importante.”
Outra novidade inserida no aporte é a nova linha de produção de baterias para ferramentas elétricas de 18 volts, amplamente utilizadas pelo setor automotivo. O início da fabricação das baterias, hoje importadas e com forte demanda por serem mais fáceis de usar do que as que utilizam cabo, é aguardado para meados deste ano. A célula de bateria, no entanto, é produzida fora, mas toda a montagem e eletrônica será feita aqui no Brasil.
Ainda, a pista de teste também será ampliada, passando a contar com infraestrutura de garagens.
Formação de mão-de-obra também integra aporte
O terceiro terço do investimento é em digitalização. A Bosch vem trabalhando há cerca de cinco anos no desenvolvimento do talento digital. “Temos diferentes acessos a talentos na região, nas universidades, mas Campinas é um verdadeiro celeiro. Estamos investindo em um conceito que se chama Digital Talent Academy, em que desenvolvemos jovens talentos de 16 a 19 anos em formação dual, como a que existe na Alemanha, mas que historicamente, fizemos para mecatrônicos.”
Hoje a empresa contabiliza quatrocentos jovens formados ou sendo graduados no processo. O plano é passar de mil na área digital. “Vamos chegar a 1,3 mil pessoas. Para se ter ideia, para esses quatrocentos que temos hoje recebemos uns 20 mil currículos.”
Fazemos um teste de coeficiente intelectual com eles, que vêm de regiões vulneráveis, no entorno de Campinas, e desenvolvemos suas habilidades durante dois anos em um programa onde tem bolsa, salário, seguro de saúde. Em torno de 95% deles ficam na empresa, que emprega mais de 1,3 mil funcionários no segmento digital.
“Hoje nós já nos consolidamos como o terceiro hub da Bosch para a área digital, atrás da Índia e da Polônia. De 70% a 80% deste trabalho é para exportação, para suportar projetos da Bosch Global. Por isto, a empresa está desenvolvendo plataformas de inteligência artificial.”