Há vida após a recuperação judicial

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Foto Jornalista Bruno de OliveiraJornalista sem foto

Por Bruno de Oliveira

e André Barros

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06/05/2019

São Paulo – Em 24 de abril a Sabó, uma das mais tradicionais fabricantes de autopeças brasileira, entrou com pedido de recuperação judicial. É mais um exemplo de empresa do setor a pedir ajuda após a crise que derrubou os volumes da indústria brasileira na última década – e atingiu, especialmente, a cadeia de fornecedores.

 

“O pedido foi requerido para ajudar a enfrentar os desafios que se apresentam desde 2008 e evitar que as operações e o atendimento aos clientes sejam afetados, em um mercado atualmente em pleno crescimento”, afirmou, em nota, a Sabó. No ano passado faturou R$ 400 milhões e emprega 1,1 mil funcionários.

 

A boa notícia é que as empresas que entraram em recuperação judicial estão conseguindo se sair bem. As que conseguiram sobreviver e ter plano de recuperação aprovado por credores têm em comum o fato de passarem por mudanças estruturais profundas na gestão. Mas, antes disso, tiveram de vencer o fantasma que ganha vida no mercado quando é anunciada uma recuperação judicial.

 

Segundo Gildásio Pedrosa, especialista em direito empresarial e sócio do escritório Veloso de Melo, há uma série de equívocos em torno do tema que são resultado de uma questão cultural: “A recuperação judicial ainda é incompreendida e traduzida de forma equivocada no mercado como concordata, que antecipa a falência. Ao contrário, a recuperação judicial foi criada para que seja mantida a atividade da empresa, foi criada para não criar instabilidade no mercado de fornecedores e dos outros elos da cadeia produtiva”.

 

Em linhas gerais, contou Pedrosa, a recuperação judicial nada mais é do que um tempo extra que a empresa ganha para poder traçar um planejamento de recuperação sem a pressão dos credores batendo à porta ou da Justiça executando ativos para cobrar dívidas A companhia tem prazo de sessenta dias para apresentar o plano, e mais 180 para desenvolvê-lo. Ao longo do processo credores se reúnem em assembleias para decidir se o plano apresentado segue ou se é pedido à Justiça a falência da companhia.

 

É recorrente a aprovação dos planos de recuperação judicial no País, disse o advogado, mas ter um planejamento aprovado não significa que a empresa conseguirá se recuperar: “Nos 180 dias em que é preciso tornar viável o planejamento apresentado algumas empresas constatam que não há recursos para poder seguir com pagamentos, demissões, dentre outras medidas. E então a falência é decretada”.

 

Mas há aquelas que conseguem sobreviver ao fim do processo sem interromper as atividades – e essas companhias geralmente surgem renovadas no mercado. Arteb e Mangels são dois exemplos de empresas que apresentaram planos bem sucedidos, mudaram o modo de conduzir o negócio e ajudaram a fortalecer sua posição no mercado.

 

No caso da Mangels, que passou quatro ano em recuperação judicial, o caminho foi profissionalizar o conselho de administração com funcionários do mercado e mesclar uma gestão que, antes, era concentrada nas mãos da família que dá nome à produtora de rodas para linha leve no OEM. Em determinado ponto foi verificado que a companhia estava alavancada e que algumas unidades de negócios davam prejuízo. Durante a recuperação a operação ficou mais enxuta e foi possível ter margem financeira para renegociar dívidas.

 

É cenário similar ao da Arteb, que entrou com pedido de recuperação depois de 82 anos em operação no País. Foi nomeado um CEO para conduzir um negócio familiar, houve reorganização na produção, na gestão e aplicado processo de capacitação de novos talentos. Houve, ainda, reorganização do parque fabril. A companhia tinha operações em São Bernardo do Campo e Diadema, SP, Camaçari, BA, e Gravataí, PR, que atendiam Ford e General Motors. Os gestores decidiram encerrar as unidades de Diadema e Gravataí e transferir a produção para São Bernardo. Com a mudança enxugou os custos e manteve a capacidade de produção.

 

Outra que está com o plano quase pronto, aguardando homologação e em vias de ser apresentado aos credores, é a Keko. A fabricante de acessório de Flores da Cunha, RS, entrou com pedido de recuperação judicial em setembro: “Estamos aguardando o agendamento da assembleia”, disse o presidente Leandro Mantovani. “Fornecedores e clientes aceitaram bem o plano”.

 

No caso da Keko o pedido de recuperação judicial antecedeu a uma possível crise. Segundo Mantovani um investimento muito grande foi feito esperando um mercado que não veio, trazendo um desbalanço às operações: “No fim sairemos da recuperação judicial fortalecidos. E continuaremos inovando”.

 

A Keko emprega 430 trabalhadores em Flores da Cunha.

 

A Sabó tem confiança de que também terá êxito em seu plano. A consultoria Deloitte foi contratada para auxiliar no projeto. Em nota a empresa garantiu possuir “todas as condições, em operação e ativos, de apresentar a seus credores um plano de recuperação robusto e certamente sairá fortalecida e melhor estruturada desse processo”.

 

Foto: Shopify Partners.