A eletrificação já revela limites práticos e abre espaço para sistemas com híbridos. Avaliação é de Carlos Delich, da ZF, para o Linha de Montagem.
São Paulo – A transição global da indústria automotiva para a eletrificação começa a revelar seus limites práticos e abre espaço para projetos mais equilibrados, nos quais a hibridização ganha protagonismo. A avaliação é de Carlos Delich, presidente da ZF América do Sul, que participou do programa Linha de Montagem deste mês, abril, de AutoData.
Segundo a avaliação de Delich a experiência recente da Europa ilustra os riscos de uma transição acelerada e excessivamente concentrada em veículos elétricos puros. A combinação de infraestrutura insuficiente, custos elevados e desafios logísticos levou as montadoras a revisarem recentemente seus planos, com impactos diretos em volumes e resultados financeiros.
“Ao longo do tempo vimos decisões técnicas sendo influenciadas por políticas públicas e uma velocidade de transição que não foi acompanhada pela infraestrutura necessária”, indicou o presidente da ZF, ao destacar que este movimento tem impulsionado o interesse por soluções híbridas como alternativa mais viável no curto e médio prazo também na Europa.
Neste contexto a ZF tem adotado planos diversificados, com investimentos simultâneos em eletrificação, sistemas híbridos, chassis e software. Mas as transmissões, historicamente um dos pilares da companhia, seguem como elemento central neste novo cenário, especialmente diante da relevância crescente dos powertrains híbridos.
A leitura da empresa é a de que diferentes tecnologias de propulsão deverão conviver por um longo período: “A eletrificação avançará mas motores a combustão e soluções híbridas continuarão relevantes, especialmente em países com características como as do Brasil.
Dos principais desafios para a expansão dos veículos elétricos o executivo cita a necessidade de ampliação da infraestrutura de recarga e questões relacionadas à autonomia, custo e valor residual das baterias.
No caso brasileiro a avaliação é a de que o País reúne condições particulares que podem favorecer o desenvolvimento de soluções híbridas. O uso consolidado do etanol, aliado à existência de uma cadeia produtiva local estruturada, cria oportunidades para a construção de alternativas tecnológicas competitivas, inclusive com potencial exportador.
A operação local da ZF, segundo Delich, já desempenha papel relevante neste processo. A engenharia brasileira é responsável por adaptações técnicas de veículos às condições regionais e, em alguns casos, presta suporte a projetos globais. A localização de componentes, no entanto, segue condicionada ao volume de demanda, o que reforça a importância da escala para decisões industriais.
Apesar das oportunidades o ambiente de negócios ainda impõe obstáculos relevantes. O custo Brasil, que envolve tributação elevada e desafios logísticos, além da diferença de escala com relação à China na aquisição de insumos, como aço, afeta diretamente a competitividade da produção nacional.
Ainda assim Carlos Delich ressalta que, em áreas como meio ambiente e segurança do trabalho a operação brasileira está alinhada e, em alguns casos, até supera padrões internacionais, reduzindo barreiras neste campo.
Para o presidente da ZF a indústria automotiva seguirá como um dos pilares do desenvolvimento econômico e social, pela sua capacidade de geração de emprego e de efeito multiplicador sobre a cadeia produtiva. Neste cenário a manutenção e o fortalecimento da produção local serão determinantes, especialmente diante de um ambiente global mais competitivo e da consolidação de acordos comerciais, como o do Mercosul com a União Europeia.