São Paulo — O comércio global de veículos usados é gigantesco e uma ameaça não apenas à sustentabilidade da cadeia automotiva mas, sobretudo, à vida das pessoas e ao meio ambiente. Foi esta última razão que levou o PNUMA, Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, a preparar relatório que demonstra os impactos da importação de veículos usados nos países em desenvolvimento, o depósito global desses modelos vindos da União Européia, do Japão e dos Estados Unidos.
Segundo o relatório apresentado esta semana de 2015 a 2018 foram exportados 14 milhões de veículos usados no mundo. A União Européia é responsável por 54% desse fluxo, enviando seus usados a vários países do Norte da África, da Ásia e da América do Sul. O Japão exportou 27% do total para outros países nas mesmas regiões como Angola, Rússia e Paraguai. E os Estados Unidos despejam 18% desse volume principalmente no México, na América Central e no Oriente Médio.
Mas qual a razão da preocupação com o mercado de usados? Alguns podem argumentar que são muito mais baratos do que os 0 KM e nos países em desenvolvimento é o preço que influencia o mercado.
Não é bem assim: em primeiro lugar muitos desses modelos são incapazes de obter permissão para rodar no seu próprio país de origem. São automóveis, picapes, minivans, SUVs, caminhões leves e até ônibus com três ou mais de quinze anos de uso, com a manutenção atrasada, faltando equipamentos, inseguros e, principalmente, na ótica do PNUMA, poluentes.
A frota global de veículos é responsável por quase um quarto das emissões globais de gases de efeito estufa, como o CO2 e o NOx. No caso dos usados com sistemas de pós-tratamento que não passaram por manutenção, se é que existem nos modelos mais antigos, a contribuição nas emissões é muito superior a qualquer veículo em bom estado de conservação ou zero quilômetro.
Considerando que até 2050 a frota global de veículos dobre, com 90% desse crescimento acontecendo em países que não são classificados como desenvolvidos, as emissões automotivas passarão a um terço do total. Seria o maior incremento dentre todas as atividades econômicas que causam impacto direto no aquecimento global. Aí está a principal razão do PNUMA ao se debruçar no comércio global de veículos usados.
Para se ter uma ideia da ameaça aos negócios: no mesmo período pesquisado pelo relatório das Nações Unidas foram vendidos no Brasil pouco mais de 12 milhões de veículos novos, incluindo automóveis, comerciais leves, camihões e ônibus.
Boa parte desses veículos que atravessam os mares para serem vendidos no Peru, na Bolívia e no Paraguai, onde 90% das vendas são de modelos usados, poderia ser substituída por veículos novos produzidos no Brasil. Isso para ficar aqui no continente sul-americado e não contabilizar o potencial dos modelos brasileiros em muitos países africanos que também são invadidos pelos usados europeus e japoneses. Na África mais de 60% dos veículos adicionados à frota circulante anualmente são usados importados.
Dos 146 países avaliados no relatório do PNUMA apenas dezoito baniram a importação de veículos usados. O Brasil é um deles, assim como Argentina, Chile, Uruguai, Colômbia, Equador e Venezuela.
A organização das Nações Unidas faz uma série de recomendações para regular o comércio global de veículos usados. Deveria ser criada em nível regional ou em comum acordo com todos os países regulamentações para a exportação e importação desses modelos. Assim os veículos obsoletos, inseguros e defeituosos deixariam de ser vendidos, abrindo espaço para modelos mais novos, ou seminovos. Essas regras deveriam conter medidas para garantir que os veículos usados estejam em condições de contribuir para a mobilidade de forma limpa, segura e acessível.
Fotos: PNUMA e Fotos Públicas.