Buenos Aires, Argentina – Em novembro de 2019 acompanhei, sem saber, o último salão internacional de automóvel dentro da “velha normalidade”. Foi o Los Angeles Auto Show, em Los Angeles, Califórnia, Estados Unidos – a cobertura do Autoblog foi publicada aqui.
Em 2020 tudo mudou. Em janeiro já sabíamos que estava suspensa a tradicional mostra que, em todos os anos, dava a largada do calendário automotivo: não foi culpa da pandemia, o Salão de Detroit, em Detroit, Michigan, Estados Unidos, tinha mudado de data, para junho, em pleno verão do Hemisfério Norte, com o objetivo de descongelar uma exposição que perdia relevância edição atrás de edição.
Depois sim: chegou a covid-19 e cancelaram, em cascata, todos os salões programados para 2020: Genebra, em março, Pequim, em abril, Nova York, em Maio, Detroit, em junho, Paris, em setembro, e Los Angeles, em novembro. Com a Europa afetada por quarentanas a exposição de Genebra, na Suíça, voltou a ser cancelada em 2021 e a empresa organizadora tem dúvida se voltará a ocorrer mais uma vez.
Os salões de automóvel pareciam condenados à morte. O problema não era só a complexidade de organizar um evento com portas fechadas, com milhares de espectadores circulando por pavilhões sem controle algum. Os salões já sentiam golpes antes da pandemia, por serem muito custosos para as marcas, e perderam sua função original de aproximar as principais novidades da indústria aos clientes. Hoje novas tecnologias permitem comunicar esses lançamentos de maneira instantânea, com custos muito mais baixos: a internet e as redes sociais cortaram as distâncias.
Mas os salões não parecem estar condenados por completos. Na segunda-feira, 19, o Auto Xangai 2021, a maior exposição de automóveis do continente asiático, abriu as portas para os profissionais de imprensa. É a primeira desde o começo da pandemia.
No país onde, tudo indica, surgiu o novo coronavírus, é anfitrião de uma mostra que abrigará estandes de mais de 1 mil empresas da indústria automotiva, reunidas em doze pavilhões em área total de 360 mil m², coberta.
E, embora a China ainda não superara a pandemia e a maioria da população usa máscaras nas ruas, os organizadores do salão de Xangai anunciaram que estas não serão obrigatórias dentro da mostra.
Como conseguiram isso?
O truque está nos controles prévios: todos os visitantes deverão ter ativado o QR Health, um código de segurança sanitária que apresenta os resultados de testes de covid-19 da pessoa, obrigatórios em Xangai ao menos uma vez por mês para toda a população, o registro das vacinas aplicadas e informações sobre viagens e contatos com pessoas que testaram positivo nos últimos meses.
O Salão de Xangai 2021 é um evento internacional por causa das novidades que está apresentando, mas em termos práticos será uma exposição com público local. Não haverá presença de convidados, executivos ou jornalistas estrangeiros devido às regras locais de quarentena de quinze dias ao chegar na China. Até as viagens de Xangai à Capital Pequim estão muito restritas – em Pequim as exigências são ainda mais rigorosas, por ser sede do governo chinês e das principais delegações diplomáticas.
Na segunda-feira, 19, e terça-feira, 20, serão os dias de imprensa. As portas abrem aos profissionais da indústria de 21 a 23 de abril, com três dias exclusivos para negócios. O público geral terá cinco dias para visitar o Salão de Pequim, de 24 a 28 de abril.
Apesar das restrições as principais companhias automotivas estão apresentando novidades em Xangai. A economia chinesa registrou a maior recuperação do consumo e na demanda por veículos desde o início da pandemia. O sonho do transporte individual não é mais apenas uma questão de status econômico, é também uma necessidade para a saúde e proteção contra o vírus.
No primeiro trimestre de 2021 as vendas de automóveis na China aumentaram 75,6%, embora sobre os meses mais duros da pandemia naquele país em 2020. Em todo o mundo números positivos serão vistos na comparação ano a ano, mas com valores mais modestos – nos Estados Unidos e na Europa as vendas também estão crescendo, mas a uma taxa de 9%.
Além disso foram vendidos nos primeiros três meses do ano 515 mil carros elétricos na China, 300% a mais do que no mesmo período de 2020, volume que coloca o país asiático como comprador de 50% dos carros elétricos fabricados no mundo.
Portanto o foco dos lançamentos do Salão de Xangai de 2021 são veículos movidos a bateria. A maior parte dessas novidades pertencem a uma nova geração de carros que serão vendidos em vários países, mas que foram desenvolvidos, projetados e fabricados na China com o objetivo principal de conquistar clientes naquele país, e só mais tarde no resto do mundo.
A pandemia de covid-19 deixará a China melhor posicionada do que nunca como novo centro global da indústria automotiva. Um poder tão grande que permitiu até o milagre da ressurreição dos salões do automóvel.
Este texto foi escrito por Carlos Cristófalo e publicado originalmente no Autoblog, parceiro editorial da Agência AutoData na Argentina, e traduzida pela equipe da Redação AutoData. A cobertura do Autoblog do Salão de Xangai 2021 está disponível neste link.
Fotos: Divulgação.