Confiabilidade, organização e qualidade criam possibilidades de comércio exterior
Taipei, Taiwan – Característica onipresente nos expositores taiwaneses participantes do 360º Mega Show, que reuniu as feiras automotivas Taipei Ampa, e-Mobility Taiwan e Autotronics Taipei de 14 a 17 de abril, é a confiabilidade. Ao menos é o que eles fazem questão de deixar claro por, em muitos casos, acumularem dezenas de anos de experiência de fornecimento. Outro ponto é sua expertise, inerente à cultura, em componentes eletrônicos e demonstrações constantes de novos desenvolvimentos tecnológicos, principalmente envolvendo soluções de inteligência artificial e automação. O que nem sempre está relacionado ao melhor preço mas, sim, à qualidade superior.
Estas características têm atraído empresários brasileiros do setor automotivo, que por intermédio do Taitra, Conselho de Desenvolvimento do Comércio Exterior de Taiwan, vieram a Taipei, capital de Taiwan. Pela primeira vez na ilha, e no evento sediado no Taipei Nangang Exibition Center, João Ozório, fundador e CEO da Yak, fabricante de tratores elétricos, logo de cara viu a chance de selar negócios com Taiwan, primordialmente, por dois motivos: buscar opções a fornecedores do continente, a China, em busca de reduzir inseguranças e embarcar itens com a qualidade pela qual as empresas locais são conhecidas.
Além de baterias, conectores, carregadores e cabos, Ozório interessou-se pela oferta do setor de autopeças quanto a parafusos especiais para mobilidade, que realizam a fixação com enxerto. “Logo de cara o que me chamou a atenção foi o fato de muitas empresas terem bastante tempo de estrada, 60, 70 anos. Inspira confiabilidade, o que é necessário para fechar negócio com fornecedor, além de escala, preço e qualidade”.
A Yak passou recentemente por duas situações complicadas envolvendo a China, pois adquiria conversores de uma empresa que, segundo ele, simplesmente desapareceu. “Não sabemos se fechou as portas, o que houve. Não conseguimos mais contato. Sorte que não existia mais contrato vigente e que temos a peça em estoque, mas precisamos encontrar um substituto o quanto antes.”
Outra questão é encomenda de bateria que está retida há quatro meses no porto e o fornecedor, inclusive, está vendo meios de embarcar o insumo por meio de unidade em Hong Kong e, depois, para Joinville, SC, onde está sediada a fabricante. “Não dá para trabalhar com essas incertezas. A China é imbatível no preço, mas está dando muito problema.”
Ozório identificou ainda a possibilidade de negociar com algum fornecedor de BMS, Battery Management System, que tem a função de proteger e otimizar o desempenho das baterias. O produto hoje é adquirido dos Estados Unidos, conforme o empresário, de excelente qualidade, porém com custo elevado. “O objetivo é reduzir em 50% o custo. E Taiwan pode estar no meio do caminho da China aos Estados Unidos.”
Há dez anos no mercado, a outrora startup Yak hoje está presente em pontos turísticos como o Bondinho do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro, e tem como clientes WEG, New Holland e Heli.
Fabricante de som automotivo já tem parceiros na ilha
Pela terceira vez em Taiwan e na 360º Mobility Show, Luis Fernando Brandão Lourenço, gerente estratégico de negócios da Stetsom, fabricante de som e acessórios automotivos de Presidente Prudente, SP, há 36 anos no mercado, destacou como ponto positivo a realização de rodada de negócios, na qual fez sua estreia.
A Stetsom já mantém relacionamento com dois fornecedores na ilha, um de conector USB e outro de capacitor, ambos fruto de participações anteriores no evento. Tanto que, um dia antes de a feira começar, Lourenço aproveitou para visitá-los.
“A verdade é que temos muito o que aprender com os taiwaneses. Nunca vi nada tão bem organizado, principalmente a mesa de rodada das negociações. Achei fora do comum. Sem falar na quantidade de oportunidades. Vi muitos potenciais fornecedores e espero que daqui nasçam novas parcerias”.
Isto reforça a intenção de Taiwan de reduzir a dependência de suas exportações para os Estados Unidos, para onde embarcam mais de 50% de seus produtos, a fim de expandir e diversificar seus negócios.
A Stetsom tem importante fluxo de comércio exterior pelo fato de importar 100% de seus componentes eletrônicos, uma vez que não há oferta no Brasil, o que inclui mais de 2 mil itens. Ao mesmo tempo, por meio de diversos canais de venda, exporta para mais de sessenta países.
“Como somos fabricantes identifiquei algumas opções interessantes de fornecedores de componentes como potenciômetro, chaves e chicotes, dentre outros. Encontrei até possíveis fornecedores de brindes e materiais promocionais.”
De acordo com Lourenço, como os produtos são específicos ou até mesmo customizados, ainda não foi possível estabelecer cotação real para avaliar os custos. Porém, reforçou que sua prioridade é buscar, em primeiro lugar, a qualidade e, depois, tentar colocar o custo dentro do que podem trabalhar.
Comércio exterior de Taiwan com o Brasil vem crescendo
E, o que tudo indica, baseado no termômetro da feira, Taiwan está de portas abertas para ampliar suas relações comerciais do outro lado do globo com o Brasil. De fato é o que vem ocorrendo ao longo dos últimos cinco anos, conforme dados do Sindipeças.
Em 2025 o Brasil importou US$ 91,7 milhões de Taiwan, ao passo que no ano anterior foram US$ 83,8 milhões e, em 2021, para se ter ideia, US$ 69,6 milhões.
Quanto às exportações para a ilha, em 2025 foram US$ 4 milhões, expressiva alta frente a 2024, que somou US$ 54,2 mil. Porém, quando se compara a 2021, a queda é brusca, uma vez que, à época, as cifras alcançaram US$ 13,9 milhões. No saldo, excluindo pneumáticos da estatística do Sindipeças, a balança comercial ficou negativa em US$ 87,6 milhões no ano passado.