Para a ABVE, o conceito de descarbonização na ilha é encarado de forma mais ampla, envolvendo dados dos veículos e na integração com a infraestrutura de tráfego
Taipé, Taiwan – Apesar do intenso fluxo de veículos pelas largas ruas de Taipé, o ambiente é surpreendentemente silencioso. Seja pela educação dos condutores, o que contribui, sem dúvida, para que o trânsito seja mais organizado, seguro e com menos ruídos, ou pela idade média da frota. Curiosamente, no entanto, a presença de carros a bateria não é maciça, apesar da primeira impressão provocada pelo baixo ruído. A propósito, durante quase uma semana na ilha, a reportagem não avistou nenhum carro de origem chinesa – trazido do continente – nas vias. Situação diametralmente oposta à que acontece no Brasil.
No entanto é fato que existe movimento crescente de veículos elétricos de outras origens. Chama a atenção o desfile de automóveis da marca Tesla pela Capital taiwanesa – a estatística só comprova o que é evidente aos olhos de qualquer visitante curioso. No ano passado foram emplacados 32,6 mil veículos elétricos em Taiwan, queda de 14,5% em relação a 2024, o que é justificado pela desaceleração global deste mercado e pelo encolhimento das vendas gerais de veículos de passageiros e cargas 0 KM deste segmento, que totalizaram 414,8 mil unidades, das quais os elétricos representaram 8,1%.
Foi o que apontou relatório da ARTC, Centro de Pesquisa e Testes Automotivos criado pelo Ministério de Assuntos Econômicos, juntamente com o Ministério dos Transportes e Comunicações, a Administração de Proteção Ambiental e representantes de empresas, com base na Política de Desenvolvimento da Indústria Automotiva.
Desta forma o ano passado encerrou com frota de 128,6 mil unidades de BEVs, ainda assim 33,4% acima de 2024, com taxa de penetração de cerca de 1,5% frente aos registros de 8,4 milhões de veículos de passageiros e de carga – destes, quase a metade, 4,1 milhões, têm menos de dez anos. Quanto aos híbridos PHEVs, existem 14,5 mil unidades em circulação, indicando que os BEVs ainda representam quase 90% do mercado taiwanês de veículos eletrificados, totalizado em 143,1 mil unidades.
Ainda assim, impulsionado por incentivos governamentais, como a isenção de impostos sobre o consumo e licença para veículos a bateria até 2030, e pela ampliação da infraestrutura de recarga, este mercado está expandindo e hoje representa 16,3% das vendas domésticas, que totalizaram 199,1 mil unidades em 2025, conforme dados da TTVMA, entidade que representa as montadoras locais.
Para ABVE foco está na segurança e conectividade antes da eletrificação
Presente nos quatro dias de evento da 360º Mobility Mega Show, realizado no Taipei Nangang Exhibition Center de 14 a 17 de abril, a ABVE, Associação Brasileira do Veículo Elétrico, foi representada pelo diretor coordenador do Grupo Temático de Componentes, Rodrigo Vicentini, também CEO para as Américas da consultoria Time & Place Brasil e diretor da CharIN eV, associação internacional de eletromobilidade, no Brasil.
Para Vicentini algumas questões foram suscitadas após percorrer por quatro dias os quatro andares do evento, acompanhar diversas apresentações do fórum, conversar com expositores e com visitantes de outros países em busca de fechar negócios em Taiwan e, claro, observar o movimento nas ruas.
“E se a eletromobilidade deixasse de ser vista apenas como a substituição de veículos movidos a combustíveis fósseis por modelos híbridos ou a bateria? E se ela passasse a ser entendida de forma mais ampla, como o uso combinado de diferentes tecnologias para reduzir a pegada de carbono, aumentar a eficiência e melhorar a produtividade?”
Chamou a atenção do representante da ABVE o fato de que, mais do que uma feira muito bem organizada pelo Taitra, Conselho de Desenvolvimento do Comércio Exterior de Taiwan, com fabricantes e desenvolvedores locais claramente distribuídos por áreas e evidenciando a capacidade da indústria taiwanesa de exportar tecnologia, o 360º Mobility divulgou, de fato, uma visão abrangente da mobilidade.
“A feira mostrou diversidade de soluções e forte vocação industrial. Mas o ponto mais interessante foi perceber que o evento não se limitou à exposição de produtos”, apontou, referindo-se ao fato de que havia uma área dedicada à conexão de política industrial, desenvolvimento tecnológico e descarbonização.
Para Rodrigo Vicentini, diretor da ABVE, eletromobilidade em Taiwan não representa apenas uma mudança de produto mas uma plataforma de transformação industrial e econômica. Foto: Soraia Abreu Pedrozo.
Política pública, pesquisa aplicada e tecnologia calcam transição para mobilidade de baixo carbono
Foi onde se destacou o trabalho do Doit, órgão do governo de Taiwan dedicado ao desenvolvimento industrial e tecnológico e à apresentação dos resultados do ARTC: “A combinação de política pública, pesquisa aplicada e demonstração tecnológica transmitiu mensagem clara: a transição para uma mobilidade de baixo carbono depende da coordenação da indústria com a tecnologia e com a estratégia nacional”.
Neste cenário a descarbonização apareceu não apenas como troca de powertrain, mas como uma agenda mais ampla, envolvendo semicondutores, inteligência artificial, computação veicular, direção autônoma, novas arquiteturas para veículos eletrificados e até soluções para veículos pesados movidos a hidrogênio: “O ponto mais estimulante foi justamente esse olhar integrado”.
E o congresso reforçou tal percepção: “As apresentações e debates foram além das pautas já conhecidas de ESG e descarbonização, trazendo discussões mais concretas sobre o uso da inteligência artificial e de tecnologias digitais na automação industrial, na melhoria dos processos produtivos, no tratamento de dados dos veículos e na integração com a infraestrutura de tráfego”.
Pelas ruas de Taipei o fluxo é intenso, mas organizado, e relativamente silencioso. Há alguns elétricos circulando mas a maioria, é a combustão. Foto: Soraia Abreu Pedrozo.
Eletromobilidade como plataforma de transformação industrial e econômica
Para Rodrigo Vicentini ficou clara, também, importante mensagem: na nova competição global por veículos de maior conteúdo tecnológico o diferencial não estará apenas no hardware ou na eletrificação mas também na excelência em software, integração de sistemas e qualidade dos processos industriais.
Sobre a principal lição que fica, inclusive para a ABVE, Vicentini observou que a descarbonização não deve ser entendida apenas como a troca do sistema de propulsão de um veículo e, sim, “precisa ser tratada como um projeto mais amplo de eficiência, competitividade e produtividade, apoiado pelo uso intensivo de tecnologia e por políticas públicas que reconheçam seus benefícios para a sociedade”.
Se levada à prática esta visão taiwanesa faz da eletromobilidade não apenas uma mudança de produto mas uma plataforma de transformação industrial e econômica.