Estudo em duas das atividades econômicas industriais que mais produzem CO₂ demonstra que empresas estatais são as maiores contribuintes do aquecimento global
O Carbon Marjors 2023, estudo que acumula o histórico das emissões dos setores de petróleo e cimento desde 1854, acabou de ser publicado e alerta para o aumento da produção de CO₂ das 180 empresas envolvidas. Foram 1,388 GtCO2e em 2023, o que quer dizer 1 trilhão e 388 bilhões de toneladas de CO₂e, medida que inclui outros gases além do CO₂. Este volume invisível e por isto mesmo impensável de gases que circulam na atmosfera representa 67,5% de todas as emissões no planeta no período.
Os dados, alarmantes, demonstram que estamos viciados nos combustíveis fósseis e no cimento como base para o desenvolvimento desta humanidade cada vez mais ameaçada pelos eventos extremos. E que não há um plano global estruturado para o presente e para o futuro a fim de virar a chavinha da energia fóssil para qualquer outra coisa que possa ser chamada de limpa.
A notícia mais contraditória do Carbon Majors é que a entidade que deveria estar cuidando para dar um fim às emissões, regulando os mercados em todos os setores, justamente é a maior vilã do planeta. Os países, por meio das suas empresas estatais, são os líderes em emissões: 22,5 GtCO₂e foram atribuídos pelo estudo a 68 estatais. Isso equivale a 52% das emissões dos setores de combustíveis fósseis e de cimento em 2023.
Analisando com atenção os dados pormenorizados percebe-se que – olha a boa notícia! – o petróleo convertido em energia para os veículos não é o principal ator no palco das emissões de CO₂. Em realidade, a indústria automotiva, que segue preocupada com a transição para evitar o combustível fóssil, é cinco vezes menos poluente que os protagonistas deste teatro dos horrores: o carvão, de longe, e o cimento.
Com 258 MtCO₂e, aumento de 1,9% sobre 2022, a indústria do carvão segue na liderança atiçando o fogo nas caldeiras da Ásia. A China e a Índia se destacam e demonstram com o aumento da utilização desse combustível fóssil, que não estão comprometidas, de fato, com a transição para o carbono zero.
Da lista das vinte empresas mais poluidoras do planeta a China é a que tem mais representantes, oito, e contabilizando 17,3% do total de emissões dos setores citados. Só a indústria do carvão tem sete na lista das vinte mais, incluindo seis chinesas e uma empresa da Índia, confirmando que a Ásia mantém o carvão como sua principal matriz energética.
Depois do carvão e do cimento vem o gás proveniente de fonte fóssil numa decrescente quando o tema é emissões – mas segue como o terceiro setor mais poluente com 164 Mt CO₂e, redução de 3,7% sobre 2022.
As cinco empresas privadas mais poluidoras são do setor do petróleo. Elas representaram 4,9% de todas as emissões de combustíveis – excluindo a indústria do cimento – com 2,2Gt CO₂e em 2023.
Lançado em 2013 por Richard Heede, do Instituto de Responsabilidade Climática, o Carbon Majors se tornou referência para estudos acadêmicos, decisões regulatórias em vários países como os Estados Unidos e também questões legais sobre violação dos direitos humanos por causa da poluição.
Especialistas em mudanças climáticas consultados ficaram ainda mais alarmados com a confirmação de que a sociedade em todos os continentes, mas especialmente na Ásia, não converte seus esforços em diminuir a pegada do carbono na atmosfera.
A economista Christiana Figueres, uma das maiores autoridades em mudanças climáticas, reforçou que as grandes empresas de carbono continuam mantendo o mundo viciado em combustíveis fósseis sem planos de desacelerar a produção. Ela também critica a decisão dos Estados “arrastarem os calcanhares em seus compromissos do Acordo de Paris” e o fato das empresas estatais ignorarem as necessidades desesperadas de seus cidadãos.
As prioridades são transparentes como a água com os números na mesa. Para um setor tão importante no jogo global como o automotivo cabe continuar liderando pelo exemplo do desenvolvimento de tecnologias e processos que reduzem a pegada de carbono mas, também, cabe aos líderes desta cadeia cobrar do Estado de outros setores contribuições mais relevantes na descarbonização. Carvão, cimento e empresas estatais, o foco precisa se voltar para eles. Carros elétricos são só uma distração.