São Paulo – Aos 69 anos de idade Sérgio L Carvalho, ex-CEO e presidente da Randoncorp, conseguiu, após duas tentativas frustradas, pendurar as chuteiras. Carioca que viveu até a fase universitária com idas e vindas de Rio de Janeiro a São Paulo, graduou-se em física na Universidade de São Paulo – embora desde cedo trabalhasse na área técnica, como engenheiro, o curso não estava disponível no horário noturno, então optou por algo que tivesse a matemática mais presente e que pudesse fazer cálculo de resistência dos materiais.
A digital de internacionalização deixada por Carvalho na Randoncorp é moldada por jornada profissional iniciada nos anos 1980. Tudo começou quando fez estágio no Grupo Braseixos, em Osasco, SP, pertencente à família Vidigal, à qual ele traça paralelo com a Randon, “tão influente quanto, só que em São Paulo”. Com a aquisição das ações pelo conglomerado Rockwell Automotive, dos Estados Unidos, no mês seguinte o executivo foi transferido para lá.
Quis o destino, portanto, que ele desenvolvesse sua carreira fora do Brasil. Permaneceu por três décadas na Rockwell, que depois tornou-se ArvinMeritor, Meritor e, mais para a frente, foi adquirida pela Cummins.
Em descontraída conversa com a Agência AutoData Carvalho rememorou trajetória composta por passagens em outras empresas, o que incluiu a ida para a China desenvolver gigantesco complexo industrial: “Esta foi uma das minhas grandes realizações na vida, um projeto de dez anos que fizemos em três”, disse, ao lembrar que em meio à crise imobiliária de 2008 nos Estados Unidos, após conseguir o refinanciamento da Sypress Technology, da qual era presidente, aceitou a proposta de desenvolver o negócio em Guangdong, Sul da China.
“Havia a edificação e mais nada. Não tinha produto, não tinha gente, não tinha equipamento para usinar. Então, criamos equipe com 27 ocidentais, a maioria dos Estados Unidos, três brasileiros e quatro europeus. Todos de cabelo grisalho ou com poucos fios de cabelos, ou seja, pessoas com experiência para melhorar a assertividade por causa do tempo escasso de execução.”
A Trax Americas, criada pelo próprio Carvalho e contratada pela chinesa Fuwa Heavy Industries, então desenvolveu linha de eixos dianteiros, suspensões para caminhões e freios em complexo industrial de doze fábricas verticalizadas com mais de 1 milhão de m² de área construída, que ao término dos três anos somava 4 mil funcionários.
“Aprendi muito também sobre a importância da velocidade na China, de acreditar em alguns propósitos e colocar a capacidade produtiva antes do mercado, mas também deu para ensinar bastante e criar um mínimo de rotina.”
Carvalho brincou dizendo que falhou duas vezes na vida quando tentou aposentar-se: “A primeira foi ao vender minha empresa e, dois meses depois, estava de volta ajudando um amigo e, aos poucos, voltei aos negócios”.
Ele se refere à fabricante de eixos e suspensões Trax Mechanical System, rebatizada de AXN Heavy Duty, que formou com a esposa e a filha que atualmente mora em Portugal, e que em janeiro foi adquirida pela subsidiária indireta da Randoncorp nos Estados Unidos, a Randon Auto Parts.
A segunda foi quando teve de mudar-se de Kentucky para Wisconsin para o trabalho em empresa de private equity, que também pesava contra o fato de ser uma área mais árida, então ele decidiu parar: “Mas falhei de novo porque recebi uma ligação de um headhunter que eu não ia atender, durante o feriado de ação de graças. Minha filha mais velha disse: ‘Pai, você tem de falar’. Ela atendeu e me repassou o telefone. Era um headhunter em nome da Randon”.
A empresa era sua velha conhecida, uma vez que foi conselheiro da fabricante de freios para veículos pesados Master, joint venture da Empresas Randon e da Meritor, pelo lado estadunidense, por duas décadas: “Quando foi criada a Suspensys eu que negociei e tirei do papel na parte dos Estados Unidos. O primeiro contrato de fornecimento da Frasle para o país tinha minha assinatura também”.
Carvalho então voltou ao Brasil para contribuir por três anos – o que se estendeu por quase nove.
“Agora tenho minha terceira e última tentativa de me aposentar”, disse, aos risos. “Mas que fique claro: estou me aposentando, não estou parando de trabalhar.”
Residente em Chicago o executivo continua nos conselhos de administração do qual faz parte e se dedica a dar mentoria a executivos que estão sendo preparados para o futuro da Randoncorp.
“Você chega em uma fase em que transmitir aquilo que aprendeu a outras pessoas é algo que passa a ser prioritário. Agora não é mais preciso provar nada a ninguém, já foi provado, está satisfeito”, afirmou. Ele não descarta também a possibilidade de dar aulas, ainda que seja em universidades no Brasil.
Pai de três filhas, uma arquiteta que mora na mesma cidade, outra enfermeira que mora em Nova York, e a terceira, arqueóloga e que mora em Portugal – com quem fundou a AXN –, agora Carvalho terá mais tempo para curtir a família e dedicar-se ao seu mais recente hobby: navegar com seu barco no Lago Michigan com seu neto Pasquale, 4 anos, que em um par de horas poderá visitar o avô.