Diante de cenário repleto de instabilidades e juros ainda elevados Abla prevê a aquisição de 620 mil veículos este ano
São Paulo – O ano passado foi mais difícil do que o esperado para as locadoras de veículos, tanto pela escalada da taxa básica de juros, que começou 2025 com 12,25% ao ano e terminou em 15% ao ano, quanto pelos preços dos 0 KM, cuja média investida subiu de R$ 105,9 mil para R$ 126 mil. Frente a isto a expectativa inicial da Abla, Associação Brasileira das Locadoras de Automóveis, de consumir 650 mil automóveis e comerciais leves, foi reduzida pa 628,9 mil unidades, 3,1% abaixo das 649,4 mil unidades de 2024. Em maio, durante apresentação no Fórum AutoData Perspectivas de Automóveis, o presidente da Abla, Marco Aurélio Nazaré, já havia baixado a expectativa para 600 mil a 620 mil carros diante do cenário que se apresentava e do menor apetite das locadoras.
Para 2026, enquanto os juros seguem em 15% com possibilidade de iniciar trajetória de queda de 0,25 ponto porcentual após nove meses neste patamar, em meio às incertezas trazidas pelo conflito no Oriente Médio e a disparada no custo do petróleo, a expectativa é que o volume fique um pouco abaixo do registrado no ano passado:
“É um ano bastante complicado, com Copa do Mundo, muitos feriados, eleição e, agora, com cenário um pouco mais conturbado diante da guerra no Irã. Por isto pretendemos manter o patamar de 620 mil veículos”, disse Paulo Miguel Júnior, vice-presidente da Abla, durante entrevista coletiva à imprensa na quarta-feira, 18.
Caso a perspectiva se comprove haverá, na melhor das hipóteses, estabilidade ou redução de 1,4% no volume. Refletem nesta conta também a Selic e as reticências inerentes à guerra e o reflexo nos combustíveis, que podem segurar a taxa mais elevada diante de eventual alta na inflação.
“Para 2027 esperavamos juros de 9% a 10%, agora 10,5% é um cenário mais favorável”, apontou o presidente Nazaré. “Imagino que em mais trinta dias a guerra deverá se resolver. Mas os estoques de combustíveis precisam ser repostos. E enquanto nosso governo gastar mais do que gera receita a inflação será pressionada e, com isto, aumenta o preço do carro e reduz o poder aquisitivo do consumidor e a intenção de investimentos.”
Miguel Jr. completou que o aumento no custo dos combustíveis pode influenciar na demanda pelo aluguel de veículos de consumidores na ponta mesmo nos feriados, por causa do reflexo no preço do serviço, ainda que, em muitos casos, os valores sejam parcelados em até dez vezes.
Do ponto de vista de motoristas de aplicativo que locam para trabalhar é possível que haja um aumento na busca por modelos eletrificados: “Já ouvi rumores de que, nos seminovos, cresceu a procura por híbridos e elétricos”.
Faturamento cresceu, mas preço do veículo também
Em 2025 o faturamento das locadoras de veículos somou R$ 61,7 bilhões, acréscimo de 16,6% com relação aos R$ 52,9 bilhões do ano anterior. De acordo com o vice-presidente isto se deveu tanto ao aumento da frota como à recomposição de tarifas e ao preço do carro.
Dados da Abla mostram que a incidência de impostos sobre a atividade cresceu 16,4%, para R$ 7,8 bilhões. Assim como o número de locadoras de veículos leves avançou 17,7%, totalizando 27,5 mil empresas, e o número de empregos diretos, com alta de 4%, aos 109,9 mil.
A frota total de automóveis e comerciais leves encerrou o ano passado com 1,7 milhão de unidades, 6,2% ou 100 mil a mais do que o 1,6 milhão de 2024. A idade média, no entanto, caiu de 17,5 meses para 16,4 meses.
As locadoras investiram em 2025 R$ 79,3 bilhões para a compra de unidades novas, 16% ou quase R$ 11 bilhões a mais que no ano anterior, também porque o aporte médio por carro cresceu 19%, de R$ 105,9 mil para R$ 126 mil. Como disse Nazaré “elevamos os gastos mesmo com aquisição de número menor de veículos”.
Os 629 mil carros adquiridos por locadoras em 2025 representaram 24,6% do total de 2,5 milhões emplacados no País – no ano anterior a fatia foi de 26,1% de 2,4 milhões e, historicamente, a média é de 25%, conforme os números da Abla.
Hatches pequenos e carros de entrada lideraram
Diferente das vendas no varejo, em que a participação de marcas chinesas está crescendo a galope e ocupando posições de destaque no ranking, na comercialização direta as montadoras tradicionais e os veículos a combustão ainda são maioria.
Fiat e Volkswagen lideraram as vendas para locadoras, com 182 mil e fatia de 28,9%, e 151,3 mil e participação de 24,1%, respectivamente. Quanto aos modelos mais emplacados o líder foi o Fiat Argo Drive, com 55,4 mil unidades – no ano anterior este posto coube ao Volkswagen Polo Track, com quase 65 mil unidades. Sem citar números o presidente da Abla ressaltou que picapes como Strada e Saveiro também tiveram grande saída.
Apesar de o aumento do tíquete médio dos carros dever-se também à inserção de elétricos nos portfólios das locadoras, ampliada em 160% em 2025, para 20,4 mil unidades, o investimento médio por veículo deverá ser beneficiado pela maior concorrência.
“A entrada dos chineses tem contribuído para que as montadoras que aqui estão façam ajustes e promovam realinhamento de preços tentando tornar-se mais competitivas, o que deverá reduzir os tíquetes médios em 2026.”
No ano passado 39% das aquisições, ou 248 mil unidades, foram de hatches pequenos e 11,8%, ou 74 mil, de carros de entrada, perfazendo 51,2%. Os SUVs representaram 21,7%, com 136,7 mil unidades.