A discussão sobre o valor da segunda parcela da PLR, Participação nos Lucros e Resultados, que será paga pela General Motors aos trabalhadores da fábrica de São José dos Campos, SP, virou mais um capítulo da longa disputa do sindicato dos metalúrgicos local com a montadora. Acusações de um lado e de outro, ameaças, paralisações e greves fazem parte da história da unidade, que no ano passado completou 56 anos e não receberá um centavo do plano de investimento de R$ 13 bilhões anunciado pela companhia.
Dessa vez o impasse é de R$ 1 405 por trabalhador: enquanto o sindicato pede R$ 6 405 para a segunda parcela da PLR, a GM ofereceu R$ 5 mil – valor superior ao acordado com, por exemplo, a unidade de São Caetano do Sul, SP, que aceitou a proposta de R$ 4 250. Sem acordo, sem nova proposta, a negociação foi para a justiça e deverá ser resolvida em uma audiência agendada para a segunda-feira, 25, no TRT de Campinas.
“A proposta apresentada pelo sindicato não condiz com a atual conjuntura econômica do país, do mercado automotivo como um todo e com os resultados efetivamente atingidos pela GM”, afirmou a companhia em nota divulgada na sexta-feira, 22, um dia após a matriz anunciar recorde mundial de vendas e a liderança pelo décimo-quinto ano consecutivo na América do Sul – porém no Brasil, seu terceiro maior mercado, a companhia recuou 33%.
Segundo a GM no ano passado todos os funcionários receberam um adiantamento da PLR de R$ 8,5 mil. Durante a negociação para a segunda parte, a companhia subiu a proposta até R$ 5 mil, o que significaria R$ 13,5 mil de PLR com base nos resultados de 2015 que não foram nada animadores – a GM lembra, na nota, que o Onix, modelo mais vendido no mercado brasileiro, teve uma redução de 16,5% nas vendas do ano passado, comparado com 2014.
“A expectativa pra este ano é de um mercado em torno de 2 a 2,2 milhões de unidades, uma queda de quase 50% comparado ao recorde de 3,8 milhões de veículos vendidos em 2012”, afirma a companhia. A indústria hoje opera no País com capacidade ociosa superior a 50% e os custos não param de crescer, sofrendo impacto da inflação e da forte desvalorização do real”.
O sindicato, por sua vez, afirma que a GM é a única montadora no País a propor redução do valor pago na PLR. Também em nota contesta os números apresentados pela empresa: nas suas contas, haverá redução de 30% dos R$ 13 mil pagos pelo valor de 2014, para R$ 10 mil em 2015. E calcula que em 2015 foram produzidas 40 mil caminhonetes S10 na fábrica, que geraram um faturamento de R$ 4,8 bilhões apenas com este produto.
“A empresa é altamente lucrativa em São José dos Campos e tem total condições de atender as reivindicações dos trabalhadores nesse momento”, afirma, em vídeo colocado no site da entidade, Antônio Ferreira de Barros, o Macapá, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos. “Aumentou de US$ 5 bilhões para US$ 9 bilhões o repasse a seus acionistas”.
A unidade está parada desde a segunda-feira, 18, quando a primeira proposta da GM foi recusada. La são produzidas a S10, a Traiblazer, transmissões e kits CKD para exportação. Atualmente 600 trabalhadores estão em lay off.
Ainda na nota distribuída à imprensa a GM reclama da intransigência do sindicato. “[O sindicato] parece ter uma pauta meramente política e não de real defesa dos interesses dos trabalhadores e impede um acordo, mesmo sendo ele desejado pela maioria dos empregados”.
A companhia acusa ainda a entidade de impedir, “de forma truculenta e com ameaças”, a entrada na fábrica de trabalhadores que desejam retornar ao trabalho. Em outros comunicados divulgados durante a semana, chegou a ameaçar o sindicato com possível adoção de “medidas de cortes de custos”.
Já o sindicato afirma que a GM foi beneficiada por incentivos fiscais durante todo o governo Dilma Rousseff e, mesmo assim, fechou 6 mil postos de trabalho de 2011 a 2015 em São Caetano do Sul, São José dos Campos e Gravataí, RS.
“Os trabalhadores sequer têm comparecido ao portão da empresa. Este é um movimento legal, pacífico, em que os metalúrgicos demonstram toda sua indignação contra a intransigência e ganância da GM, apesar do assédio moral que os supervisores estão fazendo sobre os trabalhadores”.
Será em Campinas, portanto, o próximo capítulo dessa disputa.
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