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25/10/2016

O capitalismo e seu inimigo maior: o capitalismo!

Por Luiz Carlos Mello

- 25/10/2016

Em artigo no qual a atualidade e o desde-sempre se confundem como conceitos temporais, o articulista Philip Stephens, do Financial Times, em peça publicada na edição de 15 de setembro passado, desvestiu isso que – depois que ele o fez…! – se mostra tão ostensivamente óbvio: o capitalismo tem sempre que se salvar…do capitalismo! E arremata afirmando, antes mesmo de discorrer em cima de tal mote, que a “transnacionalidade das grandes companhias torna extremamente difícil compor um mapa onde o campo negocial seja competitivamente nivelado, igual para todos os beligerantes” (tradução interpretativa do autor deste). Assim, na disputa antropofágica visando o domínio puro e simples do mercado, as grandes corporações – gestadas e desenvolvidas ao abrigo conceitual do capitalismo, onde a livre concorrência é ao mesmo tempo apanágio e oxigênio – simplesmente desprezam-no ao alcançarem a musculação da autossuficiência e partem para a conquista do monopólio ou do encastelamento dentro de uma de suas variações mais visíveis, o oligopólio ou o cartel.

Nesse contexto de inserção em variações sobre um mesmo tema, as “big companies”, conforme assim as rotula Stephens, e globalizadas todas como são, quer estejam sob a proteção de políticas estratégicas nacionais de domínio econômico (na automotiva, exemplificam-no, em certo momento, o Japão e a Coreia; mais recentemente, a China; na nova categorização do milenar domínio colonial instituído por Roma, a Alemanha, a França e a Itália; e, ao largo de qualquer parâmetro, os EUA, de ascensão incontida desde a Primeira Guerra Mundial e por deter o privilégio de haver criado a indústria do petróleo – J.D.Rockfeller – e ter domado a produção em massa – H.Ford – e delas feito catecismo da economia universal, irrecorrível e ainda insubstituível), quer porque alcançaram o estágio em que as regras fundamentais do capitalismo já não lhes parecem essenciais para o desenvolvimento continuado. Provavelmente, o exemplo de maior impacto venha a ser o que as gigantes da tecnologia – do mesmo jaez que Google, Microsoft, Apple, ATT, Amazon.com, Alphabet, Cisco, e Oracle entre outras (500 Maiores da Fortune, 2016) – desenharam em tempo recorde, e a fome pantagruélica com que absorvem as mais brilhantes e futurosas startups que vão surgindo a cada dia ao redor do mundo.

Como tais empresas – as de tecnologia – ainda não entraram na produção em massa de veículos, por um lado porque são minimalistas em sua estruturação física terminal e na construção das redes subsidiárias de varejo, e por outro porque incapazes ainda de imporem ao consumidor de carros o sentido utilitarista que domina o uso dos iPhones da vida, é de se supor que a vida (ou sobrevida?) dos fabricantes de veículos ainda perdurará, no formato atual, por tempo considerável. Chamam-no a atenção realidades expostas, por exemplo, no artigo de Mark Gurman e Alex Webb, da agência Bloomberg, reproduzido na Automotive News Europe, de 17/10, ao dizer que a Apple, que vem de dar marcha-a-ré em seu intento de construir um carro, “não ser ela a primeira a concluir que o domínio na área de interconectividade e software não é garantia de sucesso como fabricante de automóveis”.

Nesse meio tempo, professando esse “capitalismo” de conveniência e de oportunidade, a economia automotiva, ainda que se mantenha intacta em sua formação oligopólica, particularmente a partir da primeira e avassaladora etapa de fusões e aquisições do meio, nos EUA, na segunda década do século passado, vai se mostrando paulatinamente desvinculada do traço nacionalista anterior, doméstico, para assumir uma nova e, de certa forma, revolucionária face – a da transnacionalidade – individualizando-se dentro do aprisco jurídico do país-hospedeiro e ali pugna (com muitos e interessados apoios locais, que se o diga…) por ser objeto dos adjutórios institucionais que os governos concedem quaisquer que sejam suas ideologias políticas e suas crenças econômicas. Aqui e agora, em nossa Pindorama, face à conjuntural retração no mercado automotivo, em função de um PIB negativo por três anos consecutivos, a atividade não hesita em reclamar a atenção governamental, sob o disfarce de apresentação de um completo raio X que a ele revele as razões dos seus soluços… É extremamente difícil imaginar essa iniciativa local desatrelada de certo movimento que se observa em diversas partes do mundo (incluindo o ideário do candidato republicano Trump…), quando populistas de todas as cores propugnam por um freio na globalização em prol (?) dos interesses dos estados nacionais (matéria exemplar, do professor de Harvard, Dani Rodrik, Valor de 17/10). A política estratégica, ambidestra, das automotivas (“on purpose”, nunca acidental) as posicionará muito à vontade qualquer que seja o futuro imediato: liberalismo comercial ou protecionismo econômico.

Não é difícil concluir que ganhará em qualquer circunstância, sempre. Até que o utilitarismo da tecnologia da interconectividade prevaleça, se – em algum dia…

No campo do chamado BRICS tanto se tem falado do potencial do Brasil no concerto econômico global, de agora e do futuro, apesar dos endêmicos solavancos provocados pela nossa insistência em tangenciar o óbvio – falta de educação e de produtividade -, que se é mesmo de se perguntar ser apenas anedótico o infame, herético e blasfemo anátema que nos personaliza como “o povinho que aqui vivemos e cuidamos…”.

Pensemos sobre isso. Parodiando o nosso presidente Temer, em sua dedicação ao vernáculo: custar-nos-á algo???!!!

Luiz Carlos Mello, consultor e ex-presidente da Ford Brasil


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