É até difícil de acreditar. Mas os resultados das vendas de veículos em fevereiro mostram que, mais uma vez, tal como aconteceu no começo do ano passado, o fundo do poço do setor automotivo, que todos imaginavam já ter sido alcançado no ano passado, pode ter mais um porão escondido embaixo dele.
Em fevereiro, conforme os dados divulgados quarta-feira pela Fenabrave, os 135,6 mil veículos comercializados representaram queda de 7,59% em relação ao mesmo mês do ano passado e de 7,84% em comparação com janeiro. Foi o menor volume mensal desde abril de 2006.
A queda em relação a janeiro era previsível em razão do menor número de dias uteis em fevereiro. No entanto, a redução em comparação ao segundo mês do ano passado surpreendeu já que, em 2016, o carnaval também aconteceu em fevereiro, o que praticamente equiparou o numero de dias de vendas.
Forma-se, assim, no cenário algo preocupante: depois de dois anos seguidos com quedas pronunciadas de vendas que cortaram o volume comercializado pelo setor praticamente pela metade, este ano começa com nova queda nas vendas. E deixa a mostra, assim, a efetiva possiblidade de existência de um novo porão escondido abaixo daquele piso que todos tinham, em dezembro, como sendo o fundo do poço.
Afinal, tanto em janeiro quanto em fevereiro as vendas ficaram abaixo das realizadas no mesmo período do ano passado. Em termos concretos, o primeiro bimestre deste ano fechou com 282,8 mil unidades comercializadas, 6,36% menos do que o registrado nos dois primeiros meses de 2016.
Trata-se de forte indicativo que a relativa melhora do quadro econômico – inflação no rumo do centro da meta, reduções seguidas na taxa Selic, perspectiva de uma safra recorde e liberação para retirada imediata de parte do dinheiro retido no FGTS – não está conseguindo convencer muitos dos consumidores em potencial de automóveis, caminhões e ônibus de que precisam comprar agora um veículo novo.
Vale lembrar que o mercado automotivo tem uma característica que o torna diferente de todos os demais bens de consumo: quem compra um veículo zero quilometro na grande maioria das vezes já é proprietário de um usado com poucos anos de uso cujo valor vai ser utilizado como parte do pagamento.
Na prática, assim, caso resolva adiar a compra do veículo novo, o máximo de penalidade que recairá sobre este consumidor será a de ter de rodar mais algum tempo com seu usado o que, hoje em dia, com a gradativa melhora da qualidade dos produtos, não chega a representar grandes problemas.
Além disso, em razão do preço elevado, a compra de um veículo zero quilômetro na maior parte das vezes envolve uma operação de financiamento de 36 meses, no caso dos automóveis, ou pelo menos o dobro disso, em se tratando de caminhões ou ônibus. E só se dispõe a assumir um financiamento deste tipo quem tiver um mínimo de certeza de que terá receita durante todo o período para arcar com as parcelas.
Ou seja, ao menor sinal de dúvida, é normal e natural que os consumidores, por mais que desejem um veículo novo, adiem o fechamento do negócio. E não é preciso muito mais do que isso para fazer com que o setor automotivo desemboque em resultados negativos como os que foram registrados em janeiro e fevereiro.
A compra não precisa nem ser cancelada. Basta ser adiada. E todos têm hoje bons e concretos motivos para adiar a compra: são mais de 12 milhões de desempregados, extrema seletividade dos bancos e juros elevados.
Em se tratando de automóveis, por sinal, esta questão do desemprego acentuado é particularmente importante. Quase todos os consumidores em potencial têm, hoje, na família ou no círculo de amigos, uma ou mais pessoas desempregadas. Não é hora, portanto, para ostentações. E, convenhamos, o que pode ser mais ostentativo do que chegar de carro novo na festa de aniversário do sobrinho? Melhor evitar.
No caso das empresas não é muito diferente. Não são poucas as que estão, hoje, cortando pessoal ou negociando redução de jornada e de salários. Não se trata, portanto, de um bom momento para renovar a frota de carros dos gerentes e diretores ou, no caso das transportadoras, de atualizar a geração dos caminhões ou ônibus.
A tudo isso se soma, ainda, com especial destaque, o conturbado quadro político federal que não permite que se consiga projetar, com um mínimo de certeza, como estará a cada nova semana o equilíbrio de forças.
Como sem isso não há como se projetar, também, os rumos da economia, empresários e empregados tendem a se proteger. O que, no nosso caso, significa, como foi dito, no mínimo adiar a compra de veículos novos.
Delfin Neto, o eterno ministro do Planejamento, da Fazenda e da Agricultura, economista com trânsito entre gregos e troianos, costuma dizer, com boa dose da sua conhecida ironia, que o problema de Brasília está no lago Paranoá, do qual emanaria um gás que, quando respirado, impediria os habitantes da cidade de conseguir enxergar a realidade na qual o País esta mergulhado, por mais dura e difícil que ela seja. “Só quando se sai da cidade é que se recupera a capacidade de ver o que acontece, de fato, no mundo real”, diz ele.
Que tal, então, cobrir o lago Paranoá? Pode ser um bom começo.
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