AutoData - Uma peça de cada vez
news
27/03/2017

Uma peça de cada vez

Por Bruno de Oliveira

- 27/03/2017

A indústria de autopeças que em anos de pujança já movimentou mais de R$ 90 bilhões vem amargando quedas de faturamento desde 2014. No ano passado, com resultado ainda não oficializado pelo Sindicato Nacional das Indústrias de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças), as mais de 600 empresas filiadas à entidade comercializaram R$ 63 bilhões, uma redução de 4,5% em relação ao ano anterior, que já havia registrado um tombo de 17,7%.

Para este ano, as projeções são mais animadoras. O setor espera faturar R$ 64 bilhões e 70 milhões, um crescimento de 2,7%. A leve alta projetada fez muitas empresas traçarem planos para atender as demandas das montadoras de veículos, responsável por 56,4% dos negócios.

A Dana, fornecedora de sistemas de transmissão, visualiza para este ano um crescimento de 10%, índice bem superior ao projetado pelo Sindipeças e muito próximo ao estimado pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).

Segundo Eduardo Buchaim, diretor de Vendas para América Latina da Dana, a empresa trabalha com apenas um turno em suas fábricas em São Paulo e no Rio Grande do Sul. “Nossa capacidade foi reduzida em 40% ao longo dos últimos três anos”, diz Buchaim. “No entanto, mantivemos neste período uma estrutura hábil o suficiente para atender um eventual aumento dos pedidos.” Nos últimos anos, a empresa focou no mercado de reposição e nas exportações para os Estados Unidos e para a Europa.

Com a perspectiva de crescimento no mercado doméstico, a Dana começou um processo de reaproximação estratégica com as fabricantes brasileiras. “Hoje o foco está aqui. Em janeiro, fechamos negócios importantes com a MAN, com a Mercedes-Benz e com a Scania”, comemora o executivo. “Passamos a atendê-los de forma mais abrangente”, completa. A produção da Dana atualmente está dividida em 60% para montadoras, 25% para exportação e 15% para reposição.

Um pouco mais cautelosa, mas enxergando oportunidades de crescimento em 2017, a alemã Schaeffler, fabricante de componentes para motor, transmissão e chassi, seguirá com seus holofotes voltados para novos negócios no mercado de reposição e nas exportações. A empresa ainda não aposta em uma retomada mais graúda do mercado interno de peças.

Claudio Castro, diretor da divisão de Negócios, acredita que o mercado, ao final deste ano, terá um desempenho um pouco acima do registrado em 2016, quando a indústria produziu 2 milhões 156 mil unidades. “Acompanhar o crescimento e ajustar a produção a uma nova demanda interna hoje é algo mais lento de se fazer porque viemos de um processo de redução estrutural”, diz o executivo. “Apesar disso, visualizamos que o mercado será melhor que o do ano passado. Estamos trabalhando com a projeção de crescimento real para 2018.”

Fator Argentina – Além da expectativa de aumento da produção no Brasil, a indústria brasileira trabalha com a hipótese de aquecimento no mercado de autopeças com o país vizinho, sobretudo a partir da eleição do presidente Maurício Macri, que prometeu uma estrutura de governo pautada na atração de investimentos estrangeiros.

Para Gonzalo Dalmasso, da consultoria argentina Abeceb, especializada no mercado automotivo daquele país, a Lei de Autopeças, as mudanças no clima dos negócios e outras medidas a serem tomadas para melhorar as condições de competitividade vão gerar um atrativo maior para os investimentos, principalmente vindos do Brasil. “O governo argentino classificou o setor automotivo como um setor latente, um vetor de novos empregos”, afirma Dalmasso.

Nesta linha, o setor público e o setor privado estão trabalhando com maior proximidade para permitir a chegada de investimentos de players globais, tanto do Brasil como de outros países. “Em fevereiro, montadoras, sistemistas e sindicatos do setor estiveram na Espanha acompanhando uma missão liderada por Macri.”

Atualmente existe um acordo automotivo entre Brasil e Argentina com cotas no comércio de veículos isentos do Imposto de Importação. O que não fizer parte dessa cota é tributado com alíquota de 35%. Para Dalmasso surgiu um entrave nas relações bilaterais. “Segundo a indústria brasileira, o novo regime de autopeças argentino vai desestimular a venda.”

O regime prevê créditos de 4% a 15% para redução de impostos federais a automóveis fabricados na Argentina, desde que os veículos tenham, no mínimo, 30% de conteúdo nacional. Daí a preocupação do governo e dos empresários brasileiros.


Whatsapp Logo