Poderia, até, parecer que são cartas marcadas, armações adrede combinadas, gracinhas para fazer rir torcida e fãs e concorrentes. Mas a coincidência de posses de três presidentes de associações que reunem interesses da indústria automotiva brasileira no mesmo mês não deixa de ser, no caso que vivemos neste abril, uma confluência muito feliz.
Tomaram posse José Luiz Gandini, novamente presidente da Abeifa, e Dan Ioschpe, que no Sindipeças põe fim ao ciclo de 22 anos de presidência do grande, inestimável, histórico Paulo Butori. E essas posses, e sem que haja conotação de grandezas, servem de abre-alas para a de Antônio Megale na Anfavea, sucedendo a Luiz Moan na segunda-feira, 25.
Dois desses personagens são bem conhecidos de seu público. José Luiz Gandini é o herdeiro de todos os esforços de seu pai, José Carlos, na família e nos negócios, nas doces influências ituanas, em atividades iniciadas com posto de combustível que evoluiu para revendas de veículos. Até chegarem à estruturação da Kia Motors do Brasil.
José Luiz é gente de fino trato e de língua afiada. Desgosta de bobagens e não as leva para casa. Um, digamos, gordinho teimoso, e afável. Mas na hora de negociar faz questão de deixar o fígado em casa. Amigos próximos dizem que será interlocutor muito próximo de Ioschpe e de Megale – da mesma forma como se dá muito bem com o goiano Alarico Assumpção Júnior, presidente da Fenabrave, que forma mais uma coluna de sustentação da representação política e associativa do setor, cuja posse ocorreu no fim de 2014 – ele também sensível e finório negociador, e muito divertido.
(Isto significa que, em tese, a convivência desses quatro ilustres personagens como presidentes terá dezoito meses inteiros para render frutos para o setor e para as empresas que o integram.)
Dan Ioschpe é o menos conhecido deles e, como garantem assessores e amigos – e Dan tem muitos admiradores –, é uma pessoa muito reservada. De acordo com entrevista à revista quinzenal Exame em 1998, pensava em se dedicar ao jornalismo quando mais menino. Aos 32 anos foi escolhido para dirigir os negócios da família, o Grupo Iochpe-Maxion, formado hoje por Maxion Wheels e por Maxion Structural Components.
“Eu nunca planejei nem pensei que um dia estaria aqui”, ele afirmou à repórter Cláudia Vassalo, que descreveu sua tranqüilidade como a de um monge budista. “As coisas simplesmente aconteceram.”
É intrigante a disposição de um ocupado cinquentão em exercer atividades associativas, como a presidência do Sindipeças. Foi presidente do grupo até 2014 e desde então passou a dirigir seu conselho de administração. Na presidência do grupo foi sucedido por Marcos Oliveira, outro antigo conhecido nosso cuja posição anterior foi a presidência da Ford Brasil.
Confidenciou Paulo Butori que Dan Ioschpe investiu tempo e disposição, nos últimos três anos, para assumir a presidência do Sindipeças: “trabalhador interessado e infatigável, companheiro de valor” é a sua descrição ligeira a respeito do sucessor.
Paciência e muita empatia parecem ser outras de suas virtudes – outra é a de “pensador e estrategista brilhante”, conferida por outro amigo próximo.
Antônio Megale fecha o ciclo das posses em nome da Anfavea, entidade que compreensivelmente tem a tarefa?, o desafio?, por seu gigantismo, de procurar ser a mais virtuosa?, compreensiva? das quatro associações. Engenheiro, começou sua carreira na Ford, passou pela Renault e é diretor de assuntos governamentais da Volkswagen.
Ele também faz lá as suas graças, talvez um ramalhete delas, que o tornam queridíssimo por antigos e atuais companheiros de trabalho – inclusive rivais em empresas concorrentes.
“Ele é o ouvinte que todos gostam de ter: atento, elegante, afável”, diz alguém que já o teve em lado oposto de mesa de negociação. “Mas também ele faz a sua lição de casa e tem o espírito do negociador até as últimas consequências.”
O futuro presidente da Anfavea também goza de ampla simpatia dos jornalistas que cobrem o setor, particularmente do pessoal dedicado a economia e negócios – principalmente por não fugir de tema algum. Em on the record ou em off the record mantém a mesma franqueza sem elipses nem hipérboles e sempre dispõe de 1 minuto a mais para a última pergunta.
Pois é esta a confluência feliz a que se refere o título deste artigo. Talvez há muitos anos o setor automotivo brasileiro não veja reunido, nas presidências de suas mais importantes associações de representação, tal quantidade de tantas qualidades – talvez desde os dias mais felizes em que Luiz Adelar Scheuer dirigiu a Anfavea. Diante das dificuldades do momento mas de olho numa saída até rápida da crise, seria um desperdício não utilizar tantos desejos de ser úteis.
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