AutoData - É preciso encarar
news
07/11/2016

É preciso encarar

Por S.Stefani

- 07/11/2016

Outubro começou com sinais cada vez mais consistentes de que, ao contrário do que se projetava no início do ano, o dólar deverá chegar ao final de dezembro com cotação bem mais próxima de R$ 3,00 do que de R$ 3,50, o valor tido e havido como o patamar mínimo para viabilizar as exportações brasileiras de produtos industriais, automóveis, caminhões, ônibus e máquinas agrícolas incluídos.

Há até quem arrisque projetar que a cotação na virada do ano poderá estar abaixo de R$ 3,00. Mas, de concreto, o que há é a projeção constante de boletim Focus do Banco Central, divulgado na última segunda-feira de outubro: R$ 3,20 no encerramento de 2016 e R$ 3,40 no fim de 2017.

Esta projeção, renovada semanalmente e que reflete a média das opiniões das principais instituições financeiras que operam no País, faz sentido. Afinal, no relatório referente à última reunião de seu Comitê de Política Monetária, o Copom, a mesma em que reduziu os juros da Selic de 14,25% para 14% ao ano, o Banco Central não fez segredo de que sua meta prioritária é a convergência da inflação para o centro da meta já no próximo ano, o que permitiria buscar o reaquecimento da economia via gradativa redução das taxas de juros.

Na prática, isto significa que parece ser pouco provável que, ao menos ao longo dos próximos quatorze meses, o BC venha a adotar a política monetária na direção da desvalorização da moeda nacional, algo que os exportadores consideram fundamental para manter sua competitividade no Exterior.

Cabe ressaltar, todavia, que a incapacidade das indústrias instaladas no País de manter um mínimo de poder de competição fora de suas fronteiras não se deve apenas à atual cotação do dólar. Mas também, e até principalmente, ao elevado Custo-Brasil, que decorre da arcaica legislação fiscal, tributária e trabalhista, bem como da baixa qualidade do sistema nacional de educação e das deficiências da infraestrutura rodoviária, ferroviária e portuária.

A desvalorização da moeda nacional, na prática, só se torna indispensável em função da necessidade de compensar, ainda que de maneira indireta, os custos extraordinários e exagerados que todas estas deficiências impõem a quem produz no País. Custos com os quais quem optou por colocar suas unidades industriais em outros países não precisa se preocupar.

O câmbio, nesse caso, acaba funcionando como uma espécie de subsídio. Sem a ajuda dele a indústria instalada no País não apenas não consegue exportar, mas, sobretudo, permanece umbilicalmente dependente de barreiras alfandegarias protecionistas para se defender das importações.

Este ano evidenciou o tamanho do risco de apostar todas as fichas apenas na esfera cambial, ainda mais em países de alta volatilidade, como é o caso dos emergentes. Não foram poucas as empresas que tiveram de abortar no meio do caminho estratégias de compensar com exportações a redução das vendas domésticas. E muitas delas amargam, agora, prejuízos em negócios externos que quando foram fechados, no início do ano, eram lucrativos.

Fica, de qualquer forma, a lição: num mundo cada vez mais globalizado, passa a ser fundamental encarar que a eliminação das deficiências que geram o exagerado custo local é o único caminho real e concreto para garantir a viabilidade da produção industrial no País no médio e longo prazos.

E esta é a grande questão. Conforme sempre lembra Rogelio Golfarb, vice-presidente da Ford que tem no planejamento estratégico uma de suas principais responsabilidades, “quem não é competitivo para exportar, não o é, também, para se defender das importações”.

O Congresso Perspectivas 2017, realizado em outubro por AutoData, evidenciou que todas as montadoras e sistemistas projetam que o Brasil muito provavelmente voltará a ser, em alguns poucos anos, um dos quatro ou cinco maiores mercados do mundo de automóveis, caminhões, ônibus e máquinas agrícolas.

Ser um grande mercado de veículos não representa, contudo, garantia de lugar marcado e destacado também na lista dos maiores produtores.

Esta é uma posição que tem de ser conquistada. E que só é possível alcançar com qualidade e eficiência. E qualidade e eficiência em todas as frentes: mão de obra, empresas, legislação e, sobretudo, do País em seu todo.


Whatsapp Logo