As inconstâncias do mercado de trabalho e as dificuldades econômico-financeiras de empresas produtoras de autopeças são fatores apontados como responsáveis pelos processos de recall da indústria automotiva. Funcionários especialistas perdem seus empregos e as empresas não repõem essas vagas – e perde-se o padrão de controle de qualidade. Resultado: muitas vezes recall.
Junte-se a essas razões os constantes ajustes de produção nas fábricas de veículos no Brasil, como demissões, suspensão temporária do contrato de trabalho, férias coletivas e programa de proteção ao emprego, e têm-se um quadro mais completo dos recall: de dezembro a fevereiro 231 mil 243 veículos apresentaram algum defeito de fabricação.
Conselheiro da SAE Brasil, associação de engenheiros que ajudam o setor automotivo a criar normas e padrões, Francisco Nélson Satkunas aponta, também, na direção de uma recorrência maior nos próximos meses de chamados de recall. Isso porque as demissões e lay-offs que atingem toda a indústria nacional afetarão os processos de controle de qualidade pelos quais passam os componentes dos veículos produzidos aqui.
Para Satkunas os defeitos estarão concentrados “nas peças enviadas por fornecedores que pertencem aos grupos tier 2 e 3, ou seja, aqueles que abastecem os fornecedores mais próximos às montadoras na cadeia produtiva”. O engenheiro diz que “a falta de mão de obra e a sombra do desemprego estão afetando os processos de qualidade, e isso causará impacto, no médio prazo, na qualidade dos veículos”.
Nos últimos três meses, das 32 campanhas de recall lançadas pelas empresas, defeito no sistema de airbag foi a avaria mais recorrente nas convocações das fabricantes. Segundo dados da Fundação Procon o defeito levará 107 mil 891 veículos para reparos em concessionárias.
Veículos da Nissan foram os mais chamados de dezembro de 2016 a fevereiro, quando foram convocados 69 mil 318. Os da Honda vêm logo depois, com 34 mil 530 unidades. A Renault, por sua vez, chamou 3 mil 820 veículos para reparos e fecha a sequência de fabricantes que mais chamaram veículos por problemas no sistema de airbag.
Uma das grandes fornecedoras de sistema de airbag é a Takata. Nesta semana empresa se declarou culpada de acusação criminal como parte de um acordo que também envolve o pagamento de US$ 1 bilhão junto ao Departamento de Justiça dos Estados Unidos. O problema no airbag foi anunciado ao mercado em 2013.
De 2010 até hoje, no Brasil, 2 milhões 140 mil 273 veículos foram chamados para recall por causa do defeito nos airbags. No mundo todo o volume já chega a 30 milhões e estima-se que o total de carros que deverá passar por reparos no sistema da Takata chegue a 120 milhões.
Dentre as principais campanhas de recall dos últimos três meses estão defeitos em airbags, com oito campanhas, sistema elétrico, seis campanhas, sistema de combustível, cinco, cinto de segurança, quatro, sistema de tração, três, sistema de freios, dois. Itens elétricos, sistemas de direção, bancos e sinalização tiveram uma campanha cada.
De dezembro do ano passado a janeiro foram 32 as campanhas de recall divulgadas no País que envolveram dez ocorrências. Traçando um paralelo com o total de veículos vendidos no País, no mesmo período, o volume representa 47,45% do total, 487 mil 242 unidades, segundo dados da Fenabrave, Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores.
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