O ano não será aquela maravilha, mas o cenário é melhor que o do ano anterior. A frase de Constantin Jancsó, do Departamento de Economia e Pesquisas do Bradesco, resumiu a visão unânime exposta pelos palestrantes de seminário promovido pelo Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico (Simecs) de Caxias do Sul, para avaliar a situação atual e as perspectivas econômicas para o ano.
O economista disse que o agronegócio terá papel preponderante na economia deste ano. O Bradesco estima crescimento do PIB, Produto Interno Bruto, em 0,3%. Já os demais segmentos deverão continuar com desempenhos negativos. Indicou aumento no desemprego, que poderá chegar a 13,5 milhões de pessoas no final do ano.
Jancsó disse que as empresas ainda estão na fase de ajustes. Com a retomada, pretendem fazer mais com menos funcionários: “A contratação está vinculada a reação das margens”. Ele projetou esta situação para o início de 2018, ano que deverá registrar a criação de 150 mil empregos.
Jancsó também destacou a importância da redução da taxa Selic, acreditando ser possível chegar a 8,5% no final do ano. Com a inflação em queda, estimada pelo Bradesco em 3,9% para 2017, o economista afirmou haver espaço gigante para uma taxa de juros menor. Com relação ao câmbio, o economista estima valor de R$ 3,10 a R$ 3,25 para o final do ano. Ele disse ainda que a agenda de reformas proposta pelo governo federal é fundamental para que o cenário de melhoras se consolide.
Faturamento segue em queda – A indústria metalúrgica de Caxias do Sul consolidou faturamento de R$ 2,6 bilhões no primeiro trimestre do ano, queda de 8% sobre igual período de 2016. No acumulado de 12 meses, as perdas totalizam 17,5%.
O setor automotivo tem recuos de 15% no trimestre e de 19% em 12 meses. Mas apresentou forte reação em março, de 30,5%, com relação a fevereiro último. No trimestre, houve avanços de 2,73% na atividade eletroeletrônica e de 14,5% na metalmecânica. No acumulado de 12 meses, ambas têm variações negativas de 24% e 5%, respectivamente.
De acordo com Reomar Slaviero, presidente do Simecs, a indústria ainda fará ajustes no quadro de funcionários ao longo do ano, aumentando as demissões. Ele estima que a reversão do quadro somente se dará a partir de 2018. No ano passado, o setor fechou 3,7 mil postos de trabalho. De março de 2014 a igual mês deste ano, são 17 mil vagas encerradas. O estoque, em março, era de 33.850 empregos formais.
Mudanças já são sentidas – Após consolidar, em 2016, os piores números de vendas internas em 40 anos, as fabricantes de carrocerias de ônibus projetam leve recuperação de 2%, para 10 mil 30 unidades. As exportações, em expansão nos últimos anos, deverão ter alta de 8%, com embarques de 4 mil 575 ônibus. A produção estimada é de 14 mil 605 carrocerias, elevação de 3,5%. Paulo Corso, diretor comercial e de marketing da Marcopolol, disse que as empresas estão se preparando para uma retomada mais forte em 2018.
Também vice-presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Ônibus, Corso afirmou que países como o Brasil, os demais da América Latina, nações africanas e o Oriente Médio apresentam demandas atraentes para as fabricantes. Mas ele disse que são necessárias adequações nos custos e nos processos de todas as áreas das empresas para que se tornem competitivas.
O diretor afirmou que o primeiro trimestre tem sido positivo para a Marcopolo, que vendeu 700 unidades de ônibus rodoviários, número que quase se iguala aos 880 de todo o ano passado: “Foi um período alentador, mas não temos a garantia de que se manterá nos próximos meses. Temos, no entanto, esperança de mudanças”.
Os fabricantes de tratores agrícolas contabilizaram, no primeiro trimestre, alta de 50% nas vendas, totalizando 8 mil unidades, condição que permite ao setor projetar, para o ano, incremento de 18%, algo na casa de 42,5 mil veículos. De acordo com Edson Martins, diretor comercial da Agrale, de Caxias do Sul, a montadora previa, inicialmente, incremento de 15%, mas está revisando o desempenho para cima. Dentre os motivos para o incremento, o executivo cita a estimativa de safra recorde de grãos, na casa de 227,1 milhões de toneladas, aumento de 21% sobre a anterior, e a expansão em 3,3% da área de cultivo, para 60,2 milhões de hectares.
Produzir volumes de 20 anos atrás, a custos atuais, e vender a preços de quatro anos foi o cenário exposto para análise pelo diretor da Divisão Montadoras das Empresas Randon, de Caxias do Sul, Alexandre Gazzi. Segundo ele, para sobreviver a este quadro, é preciso fazer ajustes pesados, desmobilizar, segurar investimentos e focar no caixa, visando reorganizar a empresa para este novo momento e modelo de negóci: “A concorrência será cada vez mais acirrada. Muitos não irão sobreviver e sobrará espaço para ser ocupado”.
Gazzi entende que o Brasil não voltará mais a ter picos de vendas internas de 174 mil caminhões e 75 mil implementos. Mas também não será um mercado, como o de 2016, de 67 mil caminhões e 30 mil implementos: “Vamos ter de nos ajustar a valores intermediários, o que se dará no prazo de dois a três anos”.
O executivo alertou para a elevada ociosidade, de 75%, na indústria de ônibus e caminhões, e de até 25% na frota de veículos para o transporte de cargas e passageiros, índices que tendem a melhorar com a expansão do agronegócio. No entanto, as restrições financeiras inibem a capacidade de investimento dos clientes. Segundo ele, o setor depende do Finame, responsável por 62% das compras de veículos de transporte.
Da mesma forma, manifestou preocupação com a confiança do consumidor, que não se anima e deixa de comprar: “O desemprego está sendo uma questão crucial para a retomada da economia”. Os fatores positivos para a retomada são a baixa dos juros, a queda da inflação e a expectativa de expansão do agronegócio, que já está influenciando no aumento dos preços dos fretes nas principais regiões produtoras.
De acordo com Gazzi, mesmo com as dificuldades de câmbio e Custo Brasil, é preciso continuar explorando mercados fora do Brasil, investir em produtividade e reduzir a distância com os concorrentes, inovar em produtos, processos e gestão; trabalhar com entidades e governo para renovar a frota por meio de inspeções veiculares, revisão de impostos sobre veículos e sucateando as unidades antigas, dando baixa e estimulando a compra de novos por meio de bônus.
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