Quem prestou atenção certamente percebeu: sutil mudança no fim de março e início de abril começou a abrir o caminho para superar a difícil situação na qual o setor automotivo acabou se colocando neste princípio de ano.
Ainda não se trata de movimento generalizado. Mas, passada a surpresa inicial, várias empresas do setor saíram do imobilismo. Deixaram de esperar por soluções mágicas que viessem de Brasília, DF, e trataram, elas próprias, de tomar as rédeas da situação. Passaram a cuidar de seus próprios destinos.
A verdadeira pasmaceira inicial até que se justificava. Afinal, conforme comentou o presidente de uma montadora, “quando iniciamos as férias coletivas, em dezembro, o Brasil e o setor estavam relativamente em ordem. Mas quando retomamos, em janeiro, o quadro havia mudado completamente. O mercado estava parado”.
De fato, como todos sabiam que o ajuste fiscal era inevitável, as empresas já haviam acionado férias coletivas, lay-off e PDVs para reduzir os estoques e calibrar a capacidade de produção para período de vacas magras à frente. Todavia, no inicio do ano, veio a surpresa: não se tratava de mera perda de peso das vacas mas, sim, de inequívocos sintomas de pronunciada anemia. Empresas do setor trataram de remeter suas entidades de classe para Brasília em busca de algum tipo de providência do governo que recolocasse a casa em ordem.
Na sequência, verdadeira e inédita romaria: em um mesmo dia, quase quatro dezenas de altos executivos de todas as montadoras instaladas no País tomaram o rumo do Palácio do Planalto. Resultado prático: nenhum. Pela boa e simples razão de que, nesta altura das coisas, há, de fato, bem pouco o que o governo possa fazer para alavancar as vendas dos setor a curto prazo, sejam internas ou externas.
É bem verdade que, lá no inicio do processo, em janeiro, caso o governo tivesse tido o cuidado não elevar os juros do PSI e ao mesmo cortar drasticamente o porcentual do valor que podia ser financiado, é bem provável que o setor de caminhões tivesse feito o pouso suave que estava projetado. Um mês de distanciamento das duas medidas já teria suavizado o impacto.
Também é verdadeiro que, sem as demissões que se seguiram à queda de vendas de caminhões, é no mínimo imaginável que a insegurança dos consumidores de automóveis tivesse se mantido em padrões que também teriam possibilitado o projetado pouso suave.
Agora, porém, a questão deixou de ser meramente econômica. Tal como comentou, no inicio deste abril, presidente de outra montadora, “o pessimismo, hoje, é absolutamente desproporcional à realidade dos fatos”. E quem está pessimista não compra veículos. Além disso, convenhamos, em meio à difícil e complexa equação política na qual o País está envolvido, há bem pouco, em termos práticos, que se possa esperar de ações vindas de Brasília que possam injetar otimismo em consumidores que estão com orçamento pressionado pela elevação da inflação e que passam a contar com parentes ou amigos desempregados.
Em curto prazo, assim, a solução parece passar necessariamente pelo caminho da sutil mudança que, felizmente, agora começa a dar o ar da graça: mudar a postura, sair da inercia e passar a cuidar do próprio destino. Como o solo é fértil – a qualidade e a ousadia de muitos dos executivos que habitam o setor automotivo é indiscutível –, os exemplos começam a brotar por toda parte:
Trata-se, na verdade, de movimento algo salutar que, se efetivamente levado adiante, pode eliminar distorção que vem deste os governos militares, quando tudo estava centralizado e dependia dos humores de duas ou três pessoas em Brasília.
O setor automotivo permanece até hoje excessivamente dependente dos governos. Excessiva e desnecessariamente. Por seu porte e pela qualidade de seu pessoal, pode perfeitamente andar pelas próprias pernas. Sem depender de Brasília. Só precisa acreditar nisso, cortar o cordão umbilical e passar a cuidar de seu próprio destino.
Precisa e, mais que isso, deve fazer esta mudança. Afinal, como mais uma vez estamos tendo a oportunidade de ver – e, infelizmente, de viver – neste inicio de ano, depender dos humores e dos interesses do governo, qualquer que seja, sempre foi, continua sendo e sempre será um perigo. Grande perigo. Melhor evitar o risco…
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