AutoData - Eleição sem dissidência na Anfavea
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10/06/2015

Eleição sem dissidência na Anfavea

Por Vicente Alessi, filho

- 10/06/2015

Aquela posição de espaldar mais alto na cabeceira da mesa de 20 m2 de madeira de lei – 12,5 m por 1,6 m –, estendida pela sala oficial de reuniões da diretoria da Anfavea e do Sinfavea, ladeada por dezesseis poltronas confortáveis de cada lado, é um símbolo representativo do poder das duas associações. Seu atual ocupante, Luiz Moan Yabiku Júnior, da General Motors, é taxativo ao explicitar sua relação com a posição: “Por mais afeto que eu tenha pela entidade nunca foi um sonho meu ser seu presidente mas, sim, uma tarefa. Por essa razão não pretendo nem almejo um segundo mandato. Isso é algo fora de questão”.

Mas não foi bem exatamente disto o que gente que vive próxima da entidade, e do setor automotivo brasileiro, foi tomando conhecimento ao longo dos últimos três, quatro meses. E o informe, passado de boca a boca, à sorrelfa, dava conta da possibilidade de, realmente, haver uma autêntica rebelião na futura eleição visando à escolha das novas diretorias das entidades, marcadas para fevereiro do ano que vem.

O que se dizia?: que aquela parcela de empresas associadas insatisfeita com a negativa, demonstrada até agora pelas cinco grandes que dividem o poder, de acesso à presidência – em outras palavras negativa à expansão da alternância de poder – estariam, finalmente, dispostas a bancar a dissidência pela primeira vez numa história de 59 anos completada em 15 de maio.

Nos tempos mais modernos, posteriores à primeira grande consolidação do setor automobilístico brasileiro – depois que Volkswagen assumiu Vemag, que Ford assumiu Willys, que Fiat Diesel assumiu FNM, que Presidente foi à falência, que Fiat começou a operar –, Fiat, Ford, General Motors, Mercedes-Benz e Volkswagen, como associadas de maior receita, concederam a si o privilégio de se alternar na presidência do sindicato e da associação. No caso da Fiat passaram-se dezenove anos até que representante seu fosse eleito, na esteira da indicação anterior de representante da Mercedes-Benz, há muito mais tempo à espera.

As empresas newcomers, particularmente aquelas que aportaram aqui no boom do fim dos anos 90, foram mantidas, até agora, fora da divisão desse bolo que, se supõe, seja muito saboroso. Daí um certo sentimento de injustiça, de não plena categorização de todas as empresas associadas como iguais.

Daí, também, a recusa de newcomers mais contemporâneas de solicitar ingresso no sistema Anfavea/Sinfavea: além da democracia apenas aparente, alegam, o valor da associação seria alto demais, um acinte. Daí terem aderido à Abeifa assim que a antiga entidade representativa de empresas importadoras modificou seu estatuto para também abrigar montadoras de veículos.

Essa questão vem sendo discutida, oficialmente e não, desde que a primeira newcomer se associou, no fim dos anos 90, e o melhor argumento daquelas cinco grandes mais antigas é o de que faltaria, às mais novas, executivos de maior massa crítica associativa, gente com experiência e quilometragem rodada na representação efetiva do setor.

Mostra a história que, antes de chegar à ambicionada primeira vice-presidência o candidato presuntivo à presidência passa anos a fio como vice-presidente e como coordenador de uma das várias comissões técnicas que animam como poucas o dia-a-dia da entidade. Mas mostra, também, que a maior parte dos executivos responsáveis pelas operações das primeiras newcomers aprendeu e apreendeu suas atividades nas… empresas pioneiras.

Mas as notícias davam conta de que a boa vontade de algumas associadas estaria no nível do esgotamento, exatamente pela falta de paralelismo e de similaridade que as tornavam associadas de segunda classe. Nesse cenário trabalhou-se, diz-se, com dois quadros. Num deles o atual presidente, Moan, seria cooptado pelas forças da dissidência. No outro quadro o cabeça de chave seria representante de uma das empresas rebeldes – ou de uma daquelas empresas neutras, ainda suficientemente pequenas para estar acima do mar e da terra.
E aí seria bater chapa contra chapa.

Luiz Moan negaceia seu conhecimento com relação a esse tipo de articulação. Deixa claro que o início do processo eleitoral está agendado para o mês que vem, e que está comprometido com a candidatura vigente, a do seu primeiro vice-presidente, Antônio Megale, representante da Volkswagen.

Um dos executores da força da tradição Moan conhece, de sobra, o tamanho da encrenca. Dotado do mesmo conhecimento, e com experiência à toda prova, resta a Megale atitude positiva e afirmativa até sua entronização – e a quase certeza de que será na sua gestão que se chegará ao acordo para desatar o nó da alternância ao poder. Aos dissidentes recomenda-se, de acordo com a força imanente da tradição, tratar de fugir ao destrambelho.


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